quinta, 04 de junho, 2026
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Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi
Nos atendimentos clínicos, percebo que a relação com o dinheiro costuma ocupar um espaço simbólico muito maior do que imaginamos. Para quem vive em escassez, o dinheiro representa segurança, sobrevivência, dignidade. A falta dele fragiliza o senso de controle sobre a própria vida, gera tensão constante, medo do amanhã e uma autocrítica devastadora.
Não é raro que pessoas em situação de instabilidade financeira desenvolvam sintomas de ansiedade, insônia, irritabilidade e até quadros depressivos; não apenas pela falta de recursos, mas pela sensação de impotência diante de um mundo que exige cada vez mais.
A escassez nos coloca à prova, (física e emocionalmente), mas o excesso também pode.
Dias atrás, li uma reportagem sobre um terapeuta que trabalha com milionários. Ela contava como, mesmo cercados por luxo, muitos de seus pacientes viviam mergulhados em angústia, ansiedade e solidão. Era como se tivessem conquistado tudo que o dinheiro pode comprar mas ainda assim, sentissem um vazio que nada parecia preencher.
A leitura me provocou uma reflexão antiga e ao mesmo tempo muito atual: afinal, qual é o verdadeiro papel do dinheiro na nossa saúde mental?
Dinheiro traz felicidade? A resposta curta seria: às vezes, em parte. Sobretudo quando ele elimina insegurança. Pesquisas clássicas mostram que aumentar a renda melhora a avaliação da vida (a satisfação geral), mas que os ganhos emocionais diários (o “bem-estar experiencial”) crescem menos depois de certo patamar financeiro. Um estudo influente de Kahneman & Deaton (2010) concluiu que renda maior melhora a avaliação da vida, mas não aumenta indefinidamente o bem-estar emocional; ou seja, depois de uma certa quantia influencia cada vez menos.
Trabalhos mais recentes refinam essa visão: experiências e mediadores (como segurança, tempo livre e relações sociais) importam tanto quanto o valor nominal (quantia) da renda. Pesquisas que reanalisaram grandes bases de dados indicam que, em média, cada incremento de renda passa a acrescentar menos bem-estar que o anterior.
No entanto, uma evidência é clara: insegurança econômica (dívidas, renda instável, medo de perder o emprego) é um dos maiores fatores de risco para sofrimento psicológico. Pessoas em dívida ou com renda incerta têm taxas muito maiores de ansiedade, depressão e stress. O que o dinheiro compra com mais consistência é segurança que, por sua vez, amortece choques de vida e protege a saúde mental. Estudos longitudinais mostram associação entre insegurança econômica e piora em saúde mental.
Na prática clínica isso aparece de forma direta: pacientes que relatam insegurança financeira tendem a ter sono fragmentado, ruminação constante e pior capacidade de resolução de problemas. Justo, já que parte da “capacidade mental” está ocupada com cálculos, contas e medo do futuro. A estabilidade econômica não garante felicidade absoluta, mas retira uma das pressões mais corrosivas sobre o psiquismo.
Neste ponto, não é só o individual que conta, políticas públicas importam. Programas que reduzem insegurança (renda mínima, suporte social, acesso a serviços) produzem efeitos substanciais na saúde coletiva. Instituições de saúde mental e políticas econômicas precisam dialogar. Organizações que oferecem suporte financeiro (psicossocial e prático) geram impacto clínico direto: menos sintomas, menos hospitalizações e melhor recuperação funcional.
Também vejo, com frequência, a narrativa de que “mais dinheiro resolveria tudo”. Para alguns sim, mas somente quando em níveis de privação ou vulnerabilidade financeira. Além desse ponto a riqueza extrema pode introduzir novos estressores: isolamento social, desconfiança nas relações, responsabilidade ampliada, medo de perdas patrimoniais, pressões para manter um estilo de vida... Em outras palavras, riqueza não é sinônimo de imunidade emocional.
Tanto a privação quanto a busca obsessiva pela acumulação podem ser formas de sofrimento. A falta cria vulnerabilidade imediata (pior sono, ansiedade, decisões tomadas sob pressão) e se mostra robustamente associada a piora de saúde mental. A busca desmedida por riqueza, por sua vez, pode colocar a vida no modo “adiar o presente”, desfoca das relações e autocuidado e leva a um circuito de insatisfação contínua e a sensação de “piloto automático”: compram, viajam, acumulam... Mas já não sabem por que ou que buscam.
Dinheiro pode comprar paz de espírito quando protege contra vulnerabilidade. Mas não espere que ele carregue sozinho a tarefa de dar sentido à vida. Em terapia, o trabalho costuma ser duplo: aliviar o peso imediato da insegurança (quando existe) e, ao mesmo tempo, reconstruir projetos pessoais que tragam satisfação duradoura. A pergunta que eu convido meus pacientes a fazerem é simples e profunda: o que eu quero que o meu dinheiro me permita ser e viver?
A boa notícia é que práticas clínicas e o desenvolvimento da inteligência emocional ajudam. Algumas ideias clínicas e práticas que costumo trabalhar com pacientes:
1. Priorizar segurança antes de excessos. Se a renda atual é insuficiente para cobrir necessidades básicas, a prioridade clínica é reduzir a insegurança (assessorias financeiras, redes de apoio, direitos sociais). Intervenções que diminuem a incerteza têm impacto rápido no alívio do sofrimento.
2. Converter renda em recursos que promovam bem-estar. Gastos em experiências (tempo com pessoas queridas, educação, cuidados de saúde) tendem a aumentar mais o bem-estar do que gastos por "status". A literatura sobre gastos pro-socialmente orientados (doar, investir em experiências compartilhadas) mostra retornos emocionais maiores.
3. Gestão do tempo e do estresse. Renda que compra tempo (redução de jornadas exaustivas, terceirização de tarefas domésticas) frequentemente gera ganhos qualificados no bem-estar. Em terapia, trabalhamos como o uso do tempo e do dinheiro se entrelaçam com a qualidade de vida.
4. Cuidado com a comparação social. Muito do desconforto ligado ao dinheiro vem da comparação com pares. O senso de status alheio alimenta desejos intermináveis. Trabalhar valores pessoais e um projeto de vida ancorado no que realmente importa para si e suas prioridades reduz essa captação externa.
5. Regra prática de “segurança + significado”. Busque um mínimo de estabilidade financeira e em seguida, invista em atividades que tragam significado (relações, projetos, contribuições), que são mais robustas na construção de bem-estar. Estudos e a prática clínica mostram que pessoas que aliam segurança material a propósito tendem a relatar níveis mais elevados de satisfação.
Saúde
As crianças brasileiras contarão com uma proteção mais abrangente contra doenças causadas pela bactéria pneumococo. A partir deste...
4 de junho de 2026
As crianças brasileiras contarão com uma proteção mais abrangente contra doenças causadas pela bactéria pneumococo. A partir deste mês, o Sistema Único de Saúde (SUS) passa a oferecer a vacina Pneumocócica 20-valente (Pneumo 20) para o público infantil de até cinco anos de idade, reforçando a prevenção contra infecções que podem provocar complicações graves.
A nova vacina chega para ampliar a cobertura contra diferentes variantes da bactéria Streptococcus pneumoniae, responsável por enfermidades como pneumonia, meningite, infecções generalizadas e otites. Essas doenças representam uma das principais causas de internações hospitalares na infância e podem deixar sequelas permanentes ou até levar à morte em casos mais severos.
De acordo com o Ministério da Saúde, a principal vantagem do novo imunizante está na capacidade de proteção contra um número maior de sorotipos da bactéria. A atualização da vacina busca acompanhar o perfil das cepas que mais circulam atualmente e que estão associadas aos casos mais graves da doença.
Além de reduzir o risco de infecções pulmonares e neurológicas, a vacina também auxilia na prevenção de quadros de otite média, uma inflamação frequente entre crianças pequenas que, quando não tratada adequadamente, pode comprometer a audição.
A incorporação da Pneumo 20 ao calendário vacinal faz parte da estratégia do governo federal para fortalecer a imunização infantil e diminuir a incidência de doenças evitáveis. As primeiras doses já começaram a ser distribuídas para os estados, que serão responsáveis pelo repasse aos municípios.
A expectativa é que as aplicações sejam iniciadas nas unidades básicas de saúde ainda neste mês, conforme a chegada dos imunizantes em cada região. Pais e responsáveis devem ficar atentos aos comunicados das secretarias municipais de saúde para acompanhar o cronograma de vacinação.
Especialistas reforçam que manter a caderneta de vacinação atualizada é uma das formas mais eficazes de proteger as crianças contra doenças potencialmente graves, contribuindo também para a redução da circulação de agentes infecciosos na população.
Saúde
Dor constante, cansaço extremo, noites mal dormidas e dificuldades para realizar tarefas simples do dia a dia. Esses são alguns dos desafios enfrentados por quem convive com a...
3 de junho de 2026
Dor constante, cansaço extremo, noites mal dormidas e dificuldades para realizar tarefas simples do dia a dia. Esses são alguns dos desafios enfrentados por quem convive com a fibromialgia, uma síndrome crônica que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e que ainda é cercada por dúvidas e preconceitos.
Considerada uma doença de difícil diagnóstico, a fibromialgia não provoca deformidades ou alterações visíveis no corpo, mas seus impactos podem ser profundos, comprometendo a qualidade de vida, o desempenho profissional e até mesmo a saúde emocional dos pacientes.
A fibromialgia é uma síndrome caracterizada por dores musculares generalizadas e persistentes em diversas regiões do corpo. A condição está relacionada a alterações no sistema nervoso central, que passa a interpretar estímulos de maneira diferente, aumentando a sensibilidade à dor.
Embora a causa exata ainda não seja totalmente conhecida pela ciência, especialistas acreditam que fatores genéticos, emocionais e ambientais podem contribuir para o desenvolvimento da doença. Situações de estresse intenso, traumas físicos ou psicológicos, infecções e alterações hormonais também são apontadas como possíveis desencadeadores.
A síndrome pode atingir homens e mulheres de qualquer idade, mas é mais frequente entre mulheres adultas, principalmente na faixa dos 30 aos 60 anos.
Apesar de a dor generalizada ser o principal sinal da fibromialgia, a doença apresenta diversos outros sintomas que podem variar de intensidade entre os pacientes.
Entre os mais comuns estão:
Dor muscular persistente em várias partes do corpo
Fadiga intensa
Sensação de cansaço ao acordar
Distúrbios do sono
Dores de cabeça frequentes
Rigidez muscular
Formigamentos
Ansiedade e depressão
Problemas de memória e concentração, conhecidos como "névoa mental".
Em muitos casos, os pacientes relatam dificuldades para trabalhar, estudar ou manter uma rotina normal devido ao desconforto constante provocado pela síndrome.
Uma das principais dificuldades enfrentadas pelos portadores de fibromialgia é o diagnóstico. Como a doença não aparece em exames laboratoriais ou de imagem, o reconhecimento depende principalmente da avaliação clínica realizada por médicos especialistas.
Muitas pessoas passam anos procurando respostas para suas dores até receberem o diagnóstico correto, o que pode atrasar o início do tratamento e aumentar o sofrimento físico e emocional.
Embora a fibromialgia não tenha cura, existem tratamentos capazes de controlar os sintomas e proporcionar mais qualidade de vida aos pacientes.
O acompanhamento geralmente envolve uma combinação de medicamentos, fisioterapia, exercícios físicos regulares, acompanhamento psicológico e mudanças nos hábitos de vida. A prática de atividades físicas supervisionadas é considerada uma das medidas mais eficazes para reduzir dores e melhorar o condicionamento físico.
Além do tratamento médico, o apoio familiar e a compreensão da sociedade são fundamentais para que os pacientes consigam lidar com as limitações impostas pela doença.
Uma das dúvidas mais frequentes entre os pacientes diz respeito aos direitos previdenciários. O diagnóstico de fibromialgia, por si só, não garante aposentadoria automática pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
No entanto, quando a doença provoca limitações severas e impede a pessoa de exercer suas atividades profissionais, o segurado pode ter acesso a benefícios previdenciários.
Nos casos em que a incapacidade é temporária, pode ser concedido o benefício por incapacidade temporária, antigo auxílio-doença. Já quando a perícia médica conclui que a pessoa está permanentemente incapacitada para o trabalho e não pode ser reabilitada para outra função, pode ser concedida a aposentadoria por incapacidade permanente.
Recentemente, avanços na legislação brasileira também passaram a reconhecer a fibromialgia como condição passível de enquadramento como deficiência em determinadas situações, desde que uma avaliação especializada comprove limitações significativas na vida do paciente.
Apesar de afetar milhões de pessoas, a fibromialgia ainda é considerada uma doença invisível. Como seus sintomas nem sempre são perceptíveis para quem está ao redor, muitos pacientes enfrentam incompreensão e preconceito.
Especialistas destacam que ampliar o conhecimento sobre a síndrome é essencial para promover diagnósticos mais rápidos, tratamentos adequados e maior acolhimento às pessoas que convivem diariamente com dores e limitações causadas pela doença.
Reconhecer a fibromialgia como um problema de saúde real é um passo importante para garantir qualidade de vida, acesso ao tratamento e respeito aos direitos dos pacientes.