quinta, 04 de junho, 2026
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A IMPORTÂNCIA DO VOTO PARA A SOCIEDADE.
Embora muitos se esqueçam o sufrágio universal (voto sem distinção de raça, gênero, renda, e religião) somente foi implementado no Brasil com a Constituição Cidadã de 1988, ou seja, há 32 anos. O voto em nosso país começou no ano de 1532 com a primeira eleição para a Câmara Municipal de São Vicente; até 1821 o voto era restrito ao âmbito municipal e só quem votava eram os homens livres; já na fase imperial o voto era censitário, era preciso ter um mínimo de renda para ter direito ao sufrágio, e era possível escolher somente os representantes do legislativo; só com a destituição da família real que o Brasil passou a ter seus representantes do Executivo eleito dentre o “povo”, entretanto o poder do voto era concentrado em poucas pessoas. Menores de 21 anos, mulheres, analfabetos, mendigos, soldados rasos, indígenas e integrantes do clero estavam impedidos de votar.
As eleições eram marcadas por muitas fraudes como coação de eleitores, bico de pena praticada pelas mesas eleitorais, inventavam-se nomes, ressuscitavam-se os mortos, e os ausentes compareciam. A mudança somente ocorreu com Getúlio Vargas, que criou o Tribunal Superior Eleitoral e os Tribunais Regionais Eleitorais, onde o voto feminino e o voto secreto foram instituído, o que tornou o processo eleitoral mais amplo, transparente, e idôneo. Entretanto, com o Estado Novo as eleições foram suspensas.
Só com o fim do Estado Novo, em 1945 o Brasil conseguiu implementar uma experiência democrática significante, as mulheres que tinham o direito ao voto desde 1932 puderam votar, e até 1964 tivemos quatro presidentes eleitos democraticamente pelo voto popular. Na ditadura o voto para o chefe do executivo federal era indireto, mas no legislativo permaneceu o voto direto, em um sistema bipartidário, ARENA e MDB.
Foi no movimento pelas “Diretas Já” que a sociedade brasileira conseguiu instituir de fato o direito ao voto e ao sufrágio universal.
Portanto, é recente a nossa experiência democrática, talvez por isso a nossa sociedade ainda esteja amadurecendo o voto consciente, ainda hoje a influência do poder econômico é muito grande, e quando ocorre a ruptura do voto de cabresto, muitas das vezes temos o voto de protesto, que é um voto mais emocional que racional, exemplo disso foi a eleição do Tiririca em 2010, eleito deputado federal com mais de 1,3 milhão de votos.
A insatisfação do povo com a classe política atinge de forma dramática a importância de se votar, em 2018 a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou a pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira, que revelou um quadro preocupante, onde 68% dos entrevistados afirmaram que, se pudessem, não votariam naquele ano, os principais motivos apontados eram: 1) corrupção (30%); 2) ausência de confiança no governo ou candidatos (19%); 3) falta de opção entre os candidatos (16%).
Assim, nota-se que saímos das lutas pelo direito de votar para a contemporânea liberdade de poder não votar, o problema está na falta de conscientização de que é por meio do voto que as transformações sociais, tão necessárias, ocorrem. A nossa vida depende fundamentalmente daqueles que comandam as políticas públicas, saúde, educação, segurança, cultura lazer, e a geração de emprego e renda estão atreladas ao nosso voto. Negar a importância do voto para a vida individual e coletiva é o mesmo que negar a cidadania. Votar é o direito de escolher o futuro de nossas vidas e da nossa sociedade, direito este que foi conquistado com muita luta e sangue, mas não é fácil votar, pois é necessário que se estude os candidatos e suas propostas.
Mas nem tudo está perdido, as eleições municipais de 2020 comprovaram que o povo está cada vez mais consciente do papel dos políticos, parece que estamos diante de uma ruptura com o modelo oligárquico do passado, pautado na distribuição de misérias e conchavos realizados a portas fechadas.
opinião
Segundo o dicionário, a definição de aporofobia é repúdio, aversão ou desprezo pelos pobres ou desfavorecidos. Dito isto, sem nem ao menos sair de casa, da...
29 de maio de 2026
Segundo o dicionário, a definição de aporofobia é repúdio, aversão ou desprezo pelos pobres ou desfavorecidos. Dito isto, sem nem ao menos sair de casa, da tela do celular ou da televisão podemos observar o Estado, através de seus agentes, enforcar, bater, pisotear, e até matar pessoas “suspeitas” de algum ilícito, ora derrubam uma professora no chão e colocam o pé em seu rosto, ora derrubam uma mulher com duas crianças menores em seu colo e fazem a famosa posição em que o policial americano matou George Floyd, e assim caminha a política ostensiva do Estado.
Mas ultimamente estamos vivenciando alguns membros do Ministério Público denunciarem pessoas que cometeram crimes famélicos, chegando-se ao cúmulo de recorrer de uma absolvição sumária de pessoas que teriam furtado lixo, é, isto mesmo, lixo.
As pessoas vítimas dessa força ostensiva, e, agora, dessa persecução acusatória, têm em comum o fato de serem pobres e negras. Aliás, o retrato da nossa população carcerária, esta que é a 3ª maior população carcerária do mundo, é de pobres, negros, e com até o ensino fundamental completo.
Diante desses fatos e deste resultado, que a criminologia nos mostra tão bem, não é possível conceber que só negros e pobres cometem crimes, parece incontroverso que o sistema é voltado para combater somente uma classe social.
Por isso, se está constatando esta aporofobia no campo da política criminal brasileira, ou seja, existe uma aversão aos pobres, é por isso que o sistema é voltado para combater somente esta classe social, seus agentes se tornaram autômatos, característica que George Orwell definiu muito bem no livro 1984, que significa dizer que o ser não é mais racional, age de forma mecanizada, automática, não é mais humano, é uma máquina.
Talvez foi essa automatização do pensar que sustentou a insanidade de mover o Poder Judiciário, este que é tão caro e tão abarrotado, para cuidar de furto de lixo. Afinal, sabendo-se que o custo mensal de um preso é de R$ 2.400,00, qual a lógica do direito penal intervir em algo que se quer tem valor?
Não posso terminar sem citar Vitor Hugo, autor que tão bem narrou as questões da miséria humana em “Os Miseráveis”:
“Certa vez, numa reunião, ouviu dizer que se fazia a instrução de um processo criminal já próximo do julgamento. Um pobre homem, falto de recursos, por amor de uma mulher e de uma criança, cunhou moedas falsas. Nessa época, tal crime era punido com a morte. A mulher foi detida quando gastava a primeira moeda. Prenderam-na como a única culpada. Somente ela poderia delatar seu amante e condená-lo. Apesar da insistência, continuou obstinadamente a negar que ele tivesse qualquer participação no caso. O Procurador do Rei teve, então, uma ideia. Inventou uma infidelidade do amante e chegou mesmo, com trechos de cartas jeitosamente apresentadas, a persuadir a coitada da existência de uma rival com quem tal homem a enganava. Então, louca de ciúme, ela denunciou o amante, confessando e provando o crime. O homem estava perdido. Naqueles dia em Aix, ele seria julgado com sua cúmplice. Contava-se o acontecido e todos se admiravam da habilidade do Magistrado. Pondo em jogo o ciúme, pelo ódio fizera brilhar a verdade, fizera surgir a vingança, a Justiça.
O Bispo ouviu tudo em silêncio. Quando terminaram, perguntou:
– Onde vão ser julgados esses dois?
– No fórum.
– E onde vai ser julgado o procurador do Rei?
Opinião
O discurso de que o fim da escala 6x1 “vai acabar com o Brasil” ignora uma realidade elementar: o trabalhador brasileiro já vive no limite. A Consolidação das...
22 de maio de 2026
O discurso de que o fim da escala 6x1 “vai acabar com o Brasil” ignora uma realidade elementar: o trabalhador brasileiro já vive no limite.
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) estabelece jornada máxima de 44 horas semanais. Embora a legislação determine, preferencialmente, o descanso aos domingos, a escala 6x1 permite, na prática, a rotatividade das folgas, fazendo com que muitos trabalhadores tenham apenas um domingo de descanso a cada sete semanas, a depender da convenção coletiva da categoria. A distribuição das horas, como jornadas de 8 horas de segunda a sexta e 4 horas aos sábados, também varia conforme acordos sindicais.
O resultado é um cenário em que milhões de brasileiros trabalham até 44 horas semanais para receber um salário mínimo de R$ 1.621, equivalente a aproximadamente US$ 244. Trata-se de uma das menores remunerações da América do Sul. O trabalhador brasileiro recebe menos que trabalhadores do Uruguai (US$ 626), Chile (US$ 597), Equador (US$ 482), Colômbia (US$ 446), Bolívia (US$ 362), Paraguai (US$ 350) e Peru (US$ 275).
Mesmo ocupando posição inferior em remuneração, o Brasil figura entre os países com maiores índices de esgotamento profissional. Em 2021, levantamento da International Stress Management Association (Isma-BR) apontou o Brasil como o segundo país com mais casos de burnout no mundo. Cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com a síndrome, marcada pelo esgotamento físico, emocional e mental decorrente de condições excessivamente desgastantes de trabalho.
Nesse contexto, a deputada federal Erika Hilton apresentou ao Congresso Nacional uma Proposta de Emenda à Constituição para revisar a jornada de trabalho no Brasil. A iniciativa surgiu em parceria com o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), liderado por Rick Azevedo, e busca ampliar o debate sobre qualidade de vida, equilíbrio entre vida profissional e pessoal e modernização das relações de trabalho.
O Movimento Vida Além do Trabalho defende a substituição gradual da escala 6x1 por modelos mais equilibrados, como a escala 4x3, além de medidas de proteção ao trabalhador, incluindo limitação de horas extras, ampliação de pausas e fortalecimento da fiscalização sobre abusos trabalhistas.
Por outro lado, a Emenda nº 1 à PEC 221/19, apresentada pelo deputado Sérgio Turra e assinada por outros 175 parlamentares, propõe um prazo de até 10 anos para implementação das mudanças, além de ampliar mecanismos de flexibilização das jornadas. O texto prevê expansão do banco de horas, alterações em intervalos de descanso, fortalecimento de acordos individuais e manutenção de jornadas maiores em determinadas atividades consideradas essenciais.
Críticos da proposta afirmam que a emenda esvazia o objetivo original da PEC, ao permitir ampla flexibilização das regras trabalhistas sem enfrentar diretamente a sobrecarga enfrentada pelo trabalhador brasileiro.
O debate, portanto, não se resume à redução da jornada. Trata-se de discutir qual modelo de país o Brasil deseja construir: um país sustentado pelo esgotamento permanente de sua força de trabalho ou uma sociedade que compreenda que desenvolvimento econômico e dignidade humana não são ideias incompatíveis.