Especialista em economia encontra na arte uma forma de protestar o sistema
19 SET 2014 • POR Ana Flávia Dorsa • 09h30Mário Almeida é uma verdadeira metamorfose ambulante. Em pouco tempo de conversa, dá para se admirar com tantas reflexões propostas em seu discurso quanto concordar com suas idéias um tanto coerentes, mas se aplicadas ao pé da letra, um tanto revolucionárias.
Com formação na área de humanas, formado em filosofia, sociologia e teologia, ainda economia para destrinchar a matemática, com experiência na indústria automobilística pela General Motors, trabalhou também no sistema financeiro por mais 10 anos e depois no sistema de softwares. Esteve também nos Estados Unidos se aprimorando e depois entrou para o Estado. Fez mestrado em Direito Econômico Tributário, sendo também um perito do sistema econômico financeiro tributário, o único do Estado.
Mas a grande paixão desse “maluco beleza” é a arte, que está enraizada na sua vida desde os oito anos de idade. Novinho começou com o piano, depois de um acidente que o impossibilitou de continuar tocando as teclas pretas e brancas, se achegou ao violoncelo e trombone, mas se encantou com o violão que começou a embalar sua vida aos 17 anos.
Depois de trinta anos fora do Estado conheceu Adão Reis, outro personagem da vida real que se confunde com a história cultural do Estado, que o convidou para compor músicas com temas que refletissem a Região Norte e o Pantanal. O convite resultou em três músicas do CD Viagem ao Mar de Xaraés/ Kurikaka & Makako e Dinossauros.
“Adao Reis, Leumas Rabelo e eu somos os dinossauros do CD. Que teve o início na época dos nossos encontros no Zé Guedes ainda quando o Spengler era vivo, e era secretário de Cultura. Ali começou uma parceria, ali começou a Quartaneira e ali começou um ponto de cultura que hoje não é aproveitado”, conta Almeida.
E foi através da música e de personagens que esse pensador criou frente a várias contradições do sistema o homem zero e o homem nulo. Segundo Almeida, quando o ex presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva lançou o “Fome Zero”, o seu descontentamento foi grande pois queria que os tributos também fossem zero, queria ser um zero à direita, queria alíquota zero. Ele se indignou, mesmo sabendo que a fome deve ser zerada, mas não concorda com a cultura sendo zerada conforme o sistema tem tratado a questão.
“Acho que temos que falar e fazer alguma coisa, por que senão seremos sempre um homem zero, sem ação, sem reação. O zero tem uma importância fundamental na matemática, por isso, o homem zero deve se manifestar. Somos fundamentais, temos que zerar e começar essa história do zero”.
Já o homem nulo parte do princípio de que o homem zero delega para os governantes conforme explicação do seu autor, toda a autoridade de suas vidas nas urnas. Mas aí o homem zero torna-se nulo também.
“O que recebo dos governantes tem sido justamente o oposto do que eu espero. De três poderes, eu só voto em dois, por exemplo, já não vemos uma democracia plena e isso já me faz sentir um homem zero nesta situação e nulo por que não posso mudar isso, pois quem eu elejo para que me faça sentir incluído como cidadão nos três poderes, não faz nada. Quero cutucar o vazio do judiciário, quero um representante meu lá dentro. Ao menos o delegado tinha que ser escolhido por nós cidadãos”.
Para Almeida, o cidadão precisa se sentir amparado pelo Estado, mas atualmente é o contrário que vem acontecendo. Com essa situação invertida, os homens mais esclarecidos estão se sentindo nulos. “Queria que o voto nulo fosse contado dentro da proporcionalidade de 50% + 1 e tivessem anuladas certas eleições, pois se os candidatos tiveram menos votos que isso é por que os candidatos não foram aprovados pela população. Anula-se esse candidato, não é uma questão de ficha limpa, isso tem que ser um pré-requisito apenas e não uma questão determinante”, reclama.
Para o autor dos personagens, a questão da ficha limpa ta igual a da organização criminosa do PCC (Primeiro Comando da Capital) que hierarquicamente define os componentes conforme a quantidade de anos na cadeia. Político diz o seguinte: “ninguém me processou eu passei to dentro do processo mais um ano. “Essa lei de responsabilidade fiscal ta escolhendo um monte de gente e o cara se sente no direito de continuar roubando, não tem como eu provar, mas isso me faz sentir nulo por não poder mudar a situação” desabafa e ainda complementa, “vereador também tinha que ter concurso, preparo para assumir seu cargo, pois tem um monte de gente que cai de pára-quedas e não sabe nem para onde vai, como o caso do palhaço Tiririca, que foi votado por pessoas que se sentem nulas como forma de protesto. Vale lembrar que nosso Estado está lotado de Tiriricas.
