Presidenta com orgulho, ignoranta sem personalidade
2 SET 2014 • POR • 08h37Faz tempo que quero falar desse assunto. Pra ser mais exato, faz três anos e meio, desde que Dilma assumiu o cargo político mais alto do país. De lá para cá, inúmeras pessoas já trataram desse assunto (na maioria das vezes discordando de mim, infelizmente), de forma que tratar dele agora pode parecer atrasado e soar repetitivo, mas não ligo: eu ainda não dei minha opinião.
Quero falar hoje sobre o termo “presidenta”. É, aquele termo que corre solto na boca do povo com quase a mesma freqüência que “pobrema” e “gratuíto”. Ele não é nem um pouco novo. Apareceu pela primeira vez no último ano do século 19. Seu uso, entretanto, não foi muito discutido, tampouco difundido, pelo simples fato de nunca termos elegido uma mulher para a presidência. Durante a campanha de Dilma Rousseff foi quando a palavra tornou-se conhecida e ganhou força. O que eu tenho a dizer sobre seu uso? Bem, metódico como sou, dividirei este artigo de opinião em duas partes: a análise lingüística, que muito me cabe por minha formação acadêmica na área, e a análise política, social e psicológica, a qual farei de bom grado porque sou curioso sobre esses assuntos.
A palavra “presidenta” existe? É claro que existe. Eu não acabei de escrevê-la? Contanto que você não seja mudo ou tenha algum problema de fala muito grave, se tentar pronunciá-la, provavelmente conseguirá. Que prova maior de sua existência? Não estamos falando de Deus, apenas de um simples amontoado de letras. Uma palavra existe desde que seja concebida por alguém, não importando se essa concepção é física (escrita ou falada) ou abstrata (imaginada, pensada). A pergunta que realmente interessa, contudo, é “ela é correta?”. Ah… Aí são outros quinhentos. A correção de uma palavra não é algo subjetivo. Se fosse, estaríamos perdidos. Cada um falaria e escreveria do jeito que quisesse e provavelmente teríamos muita dificuldade em nos entender. Uma palavra estar correta ou não é algo sujeito a legislação. Existem regras que, felizmente, nos direcionam quanto a isso. Resumindo a resposta: não, não é correta. Nossa língua, antiqüíssima e bastante difundida, tem alguns nomes (substantivos e adjetivos) advindos de verbos. Dentre esses nomes, estão alguns que indicam um estado exprimido pela ocorrência contínua da ação que o verbo original representa.
Tais nomes são resquícios do Particípio Presente. Sim, isso mesmo, particípio. Aprendemos na escola o Particípio Passado, como “comido”, “bebido”, “falado” e “dito”. Ele ainda existe em nosso português. O Particípio Presente, por outro lado, foi minguando. Ele existia no latim, idioma do qual o nosso deriva, e funcionava muito bem. Não sei por que cargas d’água, foi perdendo seu uso no português até que, simplesmente, deixou de ser verbo. Passou a ser nome, como disse anteriormente. Exemplos do Particípio Presente atual como adjetivo: sorridente e atraente. Sorridente é alguém que sorri bastante. Atraente é alguém que atrai. Exemplos como substantivos: gerente e representante. Gerente é quem gerencia e representante é quem representa. Fácil, não é mesmo? Temos um verbo e, desse verbo, criamos um nome que descreve a repetição sucessiva da ação descrita pelo verbo. Seguindo essa lógica elementar, temos que quem preside é presidente.
Dilma adora o termo. Ela faz questão de incluí-lo pelo menos umas três vezes em cada discurso, o que soa bastante forçado, já que ela fala de si em terceira pessoa. Percebe-se, quando ela o pronuncia, um orgulho implícito. Ela ama se auto-intitular “presidenta”. Acho isso muito estranho… Quando ela pega uma doença, duvido que fique “doenta”. E se vai ao médico para tratá-la, não passa a ser “pacienta”. Ela não diria que teve muitas espinhas quando era “adolescenta”. Quando vai comprar algo em uma loja, não é tratada como “clienta”. Se tivesse um romance fora do casamento, duvido que o parceiro dela a chamaria de “minha querida ‘amanta’. E para alavancar seu populismo barato, que tal criarmos um novo slogan para seu governo? Algo do tipo “Dilma: genta como a gente!”.
Sabe qual é o maior problema com o termo “presidenta”? Nem é sua incorreção. O problema é que ele abre precedentes. Temos de ser justos: se abrimos uma exceção para um, temos de abrir para outros. Não podemos escolher a dedo “essa palavra sim, aquela não”. Se “presidenta” for permitido, então também teremos de permitir “estudanta”, “inteligenta”, “excelenta”, “exigenta”, “diferenta”, “arroganta”, “incompetenta” e muitas outras. Também teríamos de abrir exceções para outras palavras, mesmo que não fossem Particípios Presentes. Então haveria “sujeita”, “indivídua”, “ser humana”, “sexa”, “gênera”… Basicamente, transformaríamos tudo que tem O no final.
Sabe o que é pior ainda? Teríamos de abrir exceções para o outro lado, ou seja, “masculinizar” alguns termos. Digo “teríamos” apenas para sermos justos. Não vejo homens formados em odontologia exigindo que sejam chamados de “dentistos”. O cacique da tribo não prefere que falem dele como um “indígeno”. E o mais engraçado é que, morfologicamente, o termo “presidente” nem é masculino, é um substantivo comum de dois gêneros, ou seja, é um termo unissex. Desde quando um E no final da palavra obrigatoriamente a torna masculina e um A torna-a feminina? Essa é uma dedução superficial de quem não conhece nosso idioma. Uma criança até pode pensar assim, mas não um adulto formado.
Quem me conhece sabe: sou extremamente liberal. Só sou conservador quando se trata de língua e de cultura (dois conceitos intimamente ligados). Sinto-me no dever de defendê-las porque são frágeis e sofrem nas mãos do povo. A língua não é senhora das pessoas, mas justamente o contrário: é subordinada a elas. Uma palavra isolada é só um amontoado de letras, uma entidade inócua. Uma palavra sem dono é só uma palavra; uma palavra adotada é uma idéia. Somente quando apropriada por alguém que saiba usá-la ela pode virar uma arma. O que isso significa? Significa que, se o português é uma língua machista, isso é assim porque o povo que a fala é.
“Corrigir” a língua vai corrigir um problema que é social e histórico? Por mais que a língua faça parte da sociedade e seja parte constituinte da cultura de um povo, não. O buraco é bem mais embaixo. O problema é bem mais profundo que isso. A língua é só a superfície, a ponta do iceberg; ela é a pista dada pela sociedade de que algo, lá embaixo, já começou de forma errada. Teremos de cavar fundo se realmente quisermos resolver a questão da desigualdade de gênero. Não temos de mudar palavras; temos de mudar cabeças. Não é uma desinência de gênero que mitigará as desigualdades sexuais. Um A no final de uma palavra não torna uma sociedade mais justa e menos discriminadora. Direitos às mulheres, sim, mas, de uma vez por todas, deixem a coitada da língua em paz.
