Estórias de Joaquim Nêgo: Contos Coxinenses
8 JUN 2016 • POR Casa Poema • 12h52
O sumiço do relógio e o milagre do Santo
Joaquim Nego me contou que quando ele ainda usava calças curtas, morava aqui em Coxim uma senhora que não tinha fé em nada, era um São Tomé de saias.
Pois bem, aconteceu que o marido desta senhora tinha um relógio de ouro que teria pertencido a seu avô, por isso guardava a jóia como se fosse a coisa mais valiosa da sua vida. Aconteceu que um certo dia, a dita senhora precisava lavar roupas e fazer o almoço da pionada.
Para não perder a hora, levou o dito relógio para a pedra onde lavava roupas e foi assim que o bendito escorregou e desceu lentamente para o fundo do Taquari. Bem que ela tentou, mergulhou, cutucou com uma vara, chamou a molecada e nada. Apavorada só lhe restou apelar para o santo e o que mais chegado dela era São José, pois ele era o padroeiro da cidade. Ela se apressou em fazer uma promessa ao altíssimo com o coração aos pulos, esperando ser atendida o mais rápido possível.
Até tentou rezar umas Ave Marias, mas chegou a hora do almoço e nada do relógio aparecer. Ela então colocou a bacia de roupas na cabeça e foi para casa, botou no fogo, temperou o feijão e voltou ao rio para pescar o peixe que seria a mistura do almoço; espetou um lambari no anzol, jogou no rio e foi amolar a faca. Pegou um baita dourado e levou para casa, já certa da bronca do marido pela perda do famoso relógio e muito brava com São José que não havia atendido seu apavorado pedido. Colocou o peixe sobre o Girau e passou a faca com força em sua barriga.
Notou um barulho diferente, mas pensou que fosse um diamante que o dourado havia engolido quando a mãe d´água jogara de manhanzinha, como se fosse milho que as mulheres normais jogam para suas galinhas. Cortou com mais cuidado e viu o relógio cair de dentro do peixe ainda trabalhando e do sangue que escorria da barriga do peixe formou-se as letras S e J de São José. Pronto. Tornou-se a mais deista das mulheres coxinenses de sua época. É só...
Colaboração: Prof. Edvaldo Dias
