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Revolta

Inaceitável: Mulher é resgatada após 55 anos em trabalho análogo à escravidão em Fortaleza

8 JUL 2026 • POR Glenda Melo • 14h16
  Foto: Reprodução

Uma mulher de 62 anos foi resgatada de uma situação de trabalho análogo à escravidão após passar mais de cinco décadas dedicada aos afazeres domésticos e aos cuidados com crianças de uma mesma família, sem receber salário. O caso, descoberto durante uma fiscalização em um condomínio de alto padrão no município de Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza, expõe uma realidade marcada por isolamento, jornadas exaustivas e ausência de direitos trabalhistas.

De acordo com a Auditoria-Fiscal do Trabalho, a vítima iniciou a convivência com a família ainda na infância e permaneceu por aproximadamente 55 anos exercendo atividades domésticas de forma contínua. Segundo os auditores, ela não possuía autonomia financeira, nunca teve vínculo empregatício formalizado e não recebia remuneração pelo trabalho realizado.

A rotina começava ainda de madrugada, por volta das 4h30. Todos os dias, a mulher preparava o café da manhã, organizava a casa e auxiliava nos cuidados com as crianças da família, acumulando tarefas ao longo do dia. Para a coordenação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, responsável pela operação, a trabalhadora viveu uma espécie de prisão silenciosa, sem espaço para desenvolver uma vida própria ou exercer sua independência.

Após o resgate, o Ministério Público do Trabalho firmou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com os empregadores. Entre as medidas previstas estão a regularização das contribuições previdenciárias referentes ao período reconhecido, o pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias, a aquisição de um imóvel para a trabalhadora e o início imediato do pagamento de salário e indenização.

Em nota divulgada por meio da defesa, os empregadores negaram as acusações e afirmaram que a relação mantida com a mulher era baseada em convivência, cuidado e afeto ao longo dos anos. A defesa também criticou a divulgação do caso antes da conclusão das apurações e disse que as informações apresentadas não refletem a realidade dos fatos.

O caso reacende o debate sobre o trabalho doméstico em condições degradantes no Brasil. Embora muitas situações ocorram dentro de residências e permaneçam invisíveis por anos, a legislação brasileira considera trabalho análogo à escravidão qualquer situação que envolva jornada exaustiva, condições degradantes, servidão por dívida ou restrição da liberdade do trabalhador, ainda que não exista cárcere físico.

As investigações seguem em andamento, enquanto a vítima passa a receber acompanhamento dos órgãos responsáveis pela proteção e garantia de seus direitos. É inacreditável, é inaceitável, e o mínimo que se espera é que a vítima de tamanha crueldade, covardia e ignorância  se recupere e viva sua vida com a dignidade que lhe foi negada.