Orgulhos Coxinenses
Maria do Zé Guedes: a história de uma mulher nordestina que transformou coragem em legado
3 JUL 2026 • POR Glenda Melo • 06h31Existem pessoas cuja trajetória ultrapassa os limites da própria família e passa a fazer parte da memória de uma cidade inteira. Histórias construídas com muito trabalho, honestidade, coragem e dedicação, capazes de inspirar gerações. Assim é a vida de Maria Nunes Angelim de Melo, conhecida carinhosamente por todos em Coxim como Maria do Zé Guedes.
Sua história começa muito longe das margens do Rio Taquari. Nasce no sertão do Ceará, em 12 de setembro de 1943, na cidade de Parambu, filha de Manoel Nunes da Cunha e Cristina Nunes Angelim. Foi naquele cenário de sol forte, de gente simples e trabalhadora, que Maria aprendeu os valores que levaria por toda a vida: respeito, humildade, fé, honestidade e a certeza de que nenhuma conquista acontece sem esforço.
Como tantas mulheres nordestinas de sua geração, cresceu conhecendo de perto as dificuldades impostas pela vida no sertão. A escassez de oportunidades, o trabalho desde muito cedo e a necessidade de enfrentar os desafios com coragem moldaram uma personalidade firme, resiliente e profundamente humana.
Foi também no Nordeste que encontrou o grande amor de sua vida: José Guedes, homem que se tornaria não apenas seu marido, mas seu companheiro de todas as jornadas. O casamento, que perdurou por 65 anos, foi construído sobre pilares sólidos: amor, cumplicidade, respeito e muito trabalho.
Dessa união nasceram seis filhos, criados dentro de princípios que sempre nortearam a família: união, responsabilidade, simplicidade e dignidade.
A decisão que mudou o destino da família
Há momentos na vida em que é preciso escolher entre permanecer onde se está ou enfrentar o desconhecido em busca de um futuro melhor.
Foi exatamente essa escolha que Maria e Zé Guedes fizeram.
Como milhares de famílias nordestinas nas décadas de 1960 e 1970, decidiram deixar para trás sua terra natal. Não foi apenas uma mudança de endereço. Foi uma decisão que exigiu coragem para abandonar familiares, amigos, lembranças e toda uma vida construída no Ceará.
Na bagagem havia poucas malas.
Mas havia um patrimônio muito maior: disposição para trabalhar, esperança e confiança de que Deus abriria novos caminhos.
O destino escolhido foi Coxim, cidade que naquele período recebia migrantes vindos de diferentes regiões do país e oferecia oportunidades para quem estivesse disposto a começar do zero.
Chegaram praticamente sem nada além da vontade de vencer.
E recomeçaram.
Os primeiros anos: muito trabalho e poucos recursos
Os primeiros tempos em Coxim não foram fáceis.
Assim como acontece com toda família que precisa reconstruir a vida, Maria e Zé Guedes enfrentaram dificuldades financeiras, saudade da terra natal e inúmeros desafios.
Nada, porém, foi suficiente para fazê-los desistir.
Enquanto Zé Guedes trabalhava para consolidar os primeiros negócios, Maria desempenhava um papel fundamental dentro e fora de casa.
Cuidava dos filhos.
Administrava a rotina familiar.
Economizava cada centavo.
Auxiliava o marido.
Recebia clientes.
Organizava o comércio.
Era o equilíbrio da família em meio às dificuldades.
Como tantas mulheres de sua geração, ela nunca buscou reconhecimento.
Seu trabalho acontecia silenciosamente, mas era indispensável para que cada conquista se tornasse possível.
O nascimento de um patrimônio de Coxim
Com o passar dos anos, o esforço do casal deu frutos.
Nascia o Bar do Guedes, empreendimento que rapidamente deixaria de ser apenas um estabelecimento comercial para se transformar em um verdadeiro patrimônio afetivo da cidade.
Poucos lugares em Coxim conseguem reunir tantas histórias quanto o Bar do Guedes.
Ali passaram gerações.
Políticos.
Empresários.
Pescadores.
Motoristas.
Profissionais liberais.
Famílias inteiras.
Turistas.
Amigos que se reencontravam.
Novas amizades que surgiam.
Conversas que atravessavam horas.
Decisões importantes.
Comemorações.
Momentos inesquecíveis.
Muito além da boa comida e do atendimento acolhedor, o Bar do Guedes tornou-se um símbolo da hospitalidade coxinense.
E quem chegava ao local logo percebia que havia algo diferente.
Esse diferencial tinha nome.
Chamava-se Maria.
A mulher que acolhia a todos
Quem frequentava o Bar do Guedes não encontrava apenas uma empresária.
Encontrava uma anfitriã.
Maria sempre fez questão de receber cada cliente com atenção, respeito e simplicidade.
Conhecia pessoas pelo nome.
Perguntava pela família.
Acompanhava o crescimento de crianças que depois voltavam ao bar já adultas.
Criava vínculos que ultrapassavam a relação entre comerciante e cliente.
Foi essa forma humana de tratar as pessoas que fez do estabelecimento um dos mais queridos da cidade.
Ao lado do marido, Maria ajudou a construir uma marca baseada não apenas na qualidade do serviço, mas principalmente na confiança conquistada junto à comunidade.
O maior patrimônio sempre foi a família
Apesar do sucesso empresarial, Maria nunca permitiu que o trabalho ocupasse o lugar mais importante de sua vida.
Sua prioridade sempre foi a família.
Criou os seis filhos ensinando, pelo exemplo, que honestidade vale mais que riqueza, que respeito abre portas e que o trabalho dignifica qualquer pessoa.
Esses ensinamentos atravessaram gerações.
Hoje, filhos, netos e demais familiares carregam consigo o legado deixado por Maria e Zé Guedes.
A despedida do companheiro de uma vida inteira
Depois de mais de seis décadas caminhando lado a lado, Maria enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua história: a partida de Zé Guedes.
A dor da perda foi imensa.
Mas, mais uma vez, ela demonstrou a força que sempre caracterizou sua trajetória.
Em vez de deixar que a tristeza encerrasse a história construída pelo casal, decidiu seguir em frente.
Continuou presente.
Continuou firme.
Continuou cuidando da família.
Continuou preservando aquilo que ambos construíram durante toda uma vida.
A matriarca do Bar do Guedes
Hoje, Maria permanece ao lado dos filhos acompanhando a rotina do Bar do Guedes.
Sua presença continua sendo uma referência.
Mesmo sem ocupar os holofotes, é ela quem representa a memória viva do empreendimento.
Sua experiência orienta as novas gerações.
Sua história inspira todos que a conhecem.
Cada canto do estabelecimento guarda um pouco de sua dedicação.
Cada cliente antigo conhece sua importância.
Cada nova geração aprende que o sucesso daquele lugar foi construído por um casal que nunca teve medo do trabalho.
Uma mulher que representa milhares de brasileiras
A história de Maria do Zé Guedes também representa a trajetória de milhares de mulheres brasileiras que, muitas vezes longe dos holofotes, ajudaram a construir cidades, empresas e famílias.
Mulheres que enfrentaram mudanças, criaram filhos, trabalharam incansavelmente e transformaram dificuldades em oportunidades.
Sua força nunca precisou ser medida pela voz alta.
Foi medida pela perseverança.
Pela capacidade de recomeçar.
Pela fé.
Pela dedicação.
Pelo amor à família.
Um legado que permanecerá para sempre
Hoje, ao olhar para trás, é impossível contar a história do Bar do Guedes sem contar a história de Maria.
Também é impossível falar sobre parte da história empresarial e social de Coxim sem lembrar do casal que fez daquele estabelecimento um ponto de encontro da cidade.
Maria do Zé Guedes não construiu apenas um comércio.
Construiu relações.
Construiu amizades.
Construiu uma família unida.
Construiu uma tradição que atravessa gerações.
Sua vida demonstra que a verdadeira grandeza não está apenas nas grandes conquistas materiais, mas na capacidade de transformar trabalho em dignidade, família em fortaleza e acolhimento em legado.
Hoje, Maria continua sendo exemplo de mulher, mãe, empresária e matriarca. Uma nordestina que saiu do sertão levando apenas coragem e esperança, mas que encontrou em Coxim uma nova terra para plantar suas raízes. E dessas raízes nasceu uma história que já faz parte do patrimônio humano e afetivo do município, escrita diariamente com simplicidade, honestidade e um amor incondicional pela família e pela comunidade que a acolheu.
