Orgulhos Coxinenses
Menino Tió: a travessia de Zacarias Mourão
26 JUN 2026 • POR Glenda Melo • 13h47Há homens que vivem seu tempo. E há aqueles raros escolhidos pela história que conseguem transformar sua própria existência em patrimônio de um povo, existem aqueles que conseguimos ouvir, mesmo não estando mais aqui.
Zacarias Mourão foi um deles.
Seu nome não pertence apenas à música sertaneja. Não pertence apenas à cultura sul-mato-grossense. Não pertence apenas à memória de Coxim. Seu nome habita um território muito maior: o território da emoção coletiva, onde vivem as histórias que resistem às décadas, às mudanças e ao esquecimento.
Quando se fala em Zacarias Mourão, não se fala apenas de um compositor. Fala-se de um homem que carregou sua terra natal dentro do peito durante toda a vida. Um artista que transformou lembranças em versos, saudades em melodias e sentimentos em herança cultural.
Nascido em 15 de março de 1928, às margens do Rio Taquari, na histórica Coxim, Zacarias dos Santos Mourão chegou ao mundo em uma cidade ainda jovem, cercada pelas águas, pela natureza exuberante e pelas histórias de um sertão que ajudaria a moldar seu olhar sensível sobre a vida.
Filho daquela terra generosa, cresceu observando os movimentos do rio, o canto dos pássaros, as ruas simples, os encontros de vizinhos e os costumes de um povo que aprendia a construir seu destino em meio aos desafios do interior brasileiro.
Foi um menino inquieto.
Travesso.
Curioso.
Cheio da energia própria daqueles que nasceram para explorar o mundo.
Mas, mesmo sem saber, aquele garoto já guardava dentro de si algo que mais tarde se revelaria extraordinário: a capacidade de enxergar poesia onde os outros viam apenas rotina.
Ainda muito jovem, precisou deixar Coxim para seguir os estudos. Como tantos filhos do interior, partiu em busca de novos horizontes. Foi para o seminário em Petrópolis, no Rio de Janeiro, iniciando uma jornada que o levaria para muito longe das margens do Taquari.
Mas existe uma verdade que acompanha todos aqueles que amam profundamente sua terra: ninguém parte completamente.
Uma parte de Zacarias permaneceu em Coxim.
E uma parte de Coxim seguiu com Zacarias para onde quer que ele fosse.
Antes da partida, realizou um gesto aparentemente simples. No quintal da casa onde vivia, plantou uma pequena muda de pé de cedro.
Talvez fosse apenas uma despedida silenciosa.
Talvez uma esperança.
Talvez um símbolo de retorno.
Talvez tudo isso junto.
Anos mais tarde, ao voltar para sua cidade, encontrou aquela pequena árvore transformada em um cedro forte, robusto e imponente.
Naquele instante, não foi apenas a árvore que reencontrou.
Reencontrou a infância.
Os amigos.
As ruas.
Os sonhos.
Os rostos queridos.
A própria identidade.
Da emoção daquele encontro nasceu uma das mais belas e importantes composições da música sertaneja brasileira: Pé de Cedro.
A canção ultrapassou os limites da música.
Transformou-se em memória.
Transformou-se em símbolo.
Transformou-se em patrimônio afetivo.
Em cada verso, Zacarias registrou o sentimento universal de quem parte, mas jamais esquece de onde veio. Falou sobre saudade antes mesmo de ela se tornar moda. Falou sobre pertencimento antes que essa palavra ocupasse os discursos contemporâneos.
Falou sobre amor à terra natal.
E foi justamente por isso que “Pé de Cedro” atravessou gerações.
Porque não falava apenas de uma árvore.
Falava de raízes.
Falava de identidade.
Falava daquilo que permanece vivo mesmo quando o tempo insiste em seguir adiante.
Graças à força dessa composição, o nome de Coxim passou a ecoar muito além das fronteiras regionais. O Brasil inteiro passou a conhecer, através da música, uma cidade que se transformou em inspiração permanente para um de seus filhos mais ilustres.
Poucos artistas conseguiram fazer tanto por sua terra natal quanto Zacarias Mourão.
Ele levou Coxim para os palcos.
Levou Coxim para os rádios.
Levou Coxim para os discos.
Levou Coxim para o coração do Brasil.
Ao longo de sua carreira, construiu uma obra monumental. Mais de mil e trezentas músicas gravadas revelam a dimensão de um talento raro, capaz de unir simplicidade popular e profundidade poética.
Trabalhou em grandes emissoras de rádio.
Atuou como produtor artístico.
Participou de momentos importantes da indústria fonográfica nacional.
Conviveu com grandes nomes da música brasileira.
Conquistou reconhecimento em diferentes regiões do país.
Mas jamais abandonou suas origens.
Quanto mais distante estava geograficamente, mais próximo parecia estar emocionalmente de Coxim.
Suas composições funcionavam como pontes.
Pontes entre passado e presente.
Pontes entre memória e futuro.
Pontes entre a cidade e aqueles que precisaram deixá-la.
Em músicas como “A Mato-grossense”, “Saudade de Coxim” e “Fala Coxim”, o compositor registrou não apenas paisagens, mas sentimentos. Não apenas lugares, mas identidades. Não apenas histórias, mas modos de viver.
Sua obra ajudou a construir uma narrativa afetiva sobre Coxim.
Uma narrativa que continua viva.
Uma narrativa que continua inspirando.
Uma narrativa que continua emocionando.
Por isso, Zacarias tornou-se muito mais que um artista.
Tornou-se um símbolo cultural.
Uma referência.
Uma espécie de guardião da memória coletiva coxinense.
Quando retornava à cidade, encontrava inspiração.
Quando partia, levava saudade.
E foi desse ciclo permanente entre ida e volta que nasceu uma das obras mais autênticas da música sertaneja brasileira.
Em 23 de maio de 1989, sua trajetória terrena foi interrompida de forma repentina.
A notícia de sua morte provocou profunda comoção.
Coxim chorou e calou, um silêncio que ecoou em todos os lares.
Mato Grosso do Sul chorou.
A música sertaneja perdeu um de seus grandes arquitetos da palavra.
Mas a história de homens como Zacarias não termina com a morte.
Porque existem pessoas que permanecem através daquilo que construíram.
E Zacarias construiu muito.
Construiu canções.
Construiu memórias.
Construiu identidade cultural.
Construiu pertencimento.
Construiu orgulho.
Décadas após sua partida, sua presença continua sendo sentida.
Está presente nos festivais.
Nas escolas.
Nos projetos culturais.
Nas rodas de viola.
Nas conversas entre amigos.
Nas lembranças dos mais velhos.
Na curiosidade dos mais jovens.
E, principalmente, no coração daqueles que compreendem a importância de preservar a própria história.
Amigos, admiradores, músicos, pesquisadores, escritores, jornalistas, agentes culturais e cidadãos coxinenses continuam defendendo e respeitando seu legado com dedicação e carinho.
Mantêm viva sua memória.
Compartilham suas histórias.
Divulgam suas canções.
Protegem sua contribuição cultural.
Compreendem que homenagear Zacarias não é apenas recordar o passado.
É garantir futuro para a identidade cultural de Coxim.
Porque uma cidade sem memória perde parte de sua alma.
E Zacarias é uma das maiores expressões da alma coxinense.
Seu legado pertence às novas gerações.
Pertence aos que vieram antes.
Pertence aos que ainda virão.
Pertence a todos aqueles que entendem que a cultura é uma das formas mais nobres de eternidade.
Hoje, o homem já não caminha pelas ruas da cidade.
Mas sua voz continua caminhando.
Continua atravessando décadas.
Continua atravessando fronteiras.
Continua encontrando novos ouvidos e novos corações.
O menino que um dia plantou um pequeno cedro no quintal de casa jamais poderia imaginar que, na verdade, estava plantando algo muito maior.
Plantava memória.
Plantava identidade.
Plantava cultura.
Plantava eternidade.
E assim como aquele cedro cresceu firme diante das tempestades e do passar dos anos, também cresceu sua obra.
Hoje, ambos permanecem de pé.
Um na terra de Coxim.
Outro na história do Brasil.
Ambos lembrando que existem raízes profundas demais para serem arrancadas pelo tempo.
E que enquanto houver alguém cantando seus versos, emocionando-se com suas canções ou contando sua história, Zacarias Mourão continuará vivo.
Não apenas como compositor.
Não apenas como artista.
Mas como a voz eterna de Coxim.
O homem que transformou saudade em patrimônio.
O poeta que fez do sertão melodia.
O filho que colocou Coxim no mapa musical do Brasil.
E que, por isso, jamais deixará de pertencer à sua terra e ao seu povo.
