Orgulhos Coxinenses
Gaudêncio Alarcom Campos, o "Japão": homem que transformava comida, fé e amizade em formas de amor
15 MAI 2026 • POR Glenda Melo • 06h31Existem pessoas que passam pelo mundo deixando marcas tão profundas que o tempo jamais consegue apagar. Pessoas simples, mas grandiosas na essência. Homens que talvez nunca tenham buscado reconhecimento, fama ou importância, mas que se tornaram inesquecíveis justamente pela maneira humana, humilde e amorosa com que viveram. Em Coxim, um desses homens foi Gaudêncio Alarcom Campos, eternamente conhecido pelo apelido que carregava com carinho e orgulho: “Japão”.
Seu nome ainda ecoa nas lembranças das ruas, nas conversas entre amigos, nas reuniões familiares, nas cozinhas cheias de fumaça e tempero, nas festas da igreja e até nas músicas antigas que continuam tocando o coração de quem viveu ao seu lado. Porque Japão não foi apenas mais um morador de Coxim. Ele se tornou parte da memória afetiva da cidade.
Nascido em 30 de agosto de 1949, Japão veio ao mundo em uma época em que a vida possuía outro ritmo. Coxim ainda crescia lentamente, cercada por tradições, simplicidade e relações humanas verdadeiras. Era o tempo das cadeiras nas calçadas, das conversas demoradas no fim da tarde, dos almoços em família aos domingos e da vizinhança que se tratava como extensão da própria casa.
Foi nesse ambiente que Japão construiu sua essência.
Desde cedo aprendeu o valor do trabalho honesto, da fé, da palavra respeitada e do amor familiar. Cresceu observando a cultura do povo coxinense, absorvendo costumes, tradições e aquele jeito acolhedor tão típico do interior. E carregou tudo isso consigo por toda a vida.
Quem o conheceu dificilmente esquece sua presença.
Japão tinha uma daquelas personalidades raras que acolhem sem esforço. Não precisava chamar atenção para ser notado. Sua simplicidade falava por si. O sorriso tranquilo, a conversa calma, o jeito humilde e a disposição constante em ajudar faziam dele uma pessoa naturalmente querida por todos.
Era impossível permanecer indiferente perto dele.
Japão tinha o dom de fazer as pessoas se sentirem à vontade. Sua casa sempre esteve aberta para amigos, familiares, vizinhos e conhecidos. Não importava o horário ou a ocasião: sempre havia espaço para mais alguém à mesa, mais um prato sendo servido e mais uma conversa atravessando a noite.
Porque, acima de tudo, Japão amava reunir pessoas.
E talvez sua maior forma de demonstrar amor fosse justamente através da comida.
Na cozinha, encontrava felicidade verdadeira. O simples ato de cozinhar representava muito mais do que preparar refeições. Era ali que colocava carinho, dedicação, memória e afeto. Cada panela mexida lentamente carregava um pouco de sua história. Cada tempero colocado no ponto certo parecia revelar a calma e a paciência com que enxergava a vida.
O cheiro da comida preparada por Japão se tornou parte da lembrança de muita gente.
Os filhos recordam das refeições fartas.
Os netos lembram das panelas no fogo.
Os amigos recordam das rodas de conversa enquanto ele cozinhava.
E a comunidade jamais esqueceu o homem que transformava alimento em acolhimento.
Entre tantas receitas, havia uma que se tornou praticamente sua assinatura cultural: o famoso empamonado coxinense.
Prato típico da região, preparado à base de carne moída engrossada com farinha de mandioca, o empamonado feito por Japão ultrapassava qualquer explicação simples. Não era apenas saboroso. Era carregado de identidade, tradição e emoção.
Quem provava dizia que existia algo especial naquela receita.
Talvez fosse o jeito paciente de preparar.
Talvez o cuidado em escolher cada ingrediente.
Talvez o tempo certo no fogo.
Ou talvez fosse aquilo que não pode ser medido: o amor colocado em cada detalhe.
O empamonado preparado por Japão não alimentava somente o corpo. Alimentava memórias. Aproximava pessoas. Fazia parte das histórias familiares e das reuniões entre amigos. Era impossível separar o prato da figura acolhedora de quem o preparava.
Na cozinha, Japão parecia conversar com a própria vida.
Gostava de mexer lentamente as panelas enquanto contava histórias antigas de Coxim, lembrava acontecimentos da juventude e falava sobre pessoas que marcaram sua trajetória. Muitas vezes, o almoço demorava horas não porque a comida atrasava, mas porque o ambiente ao redor dele se transformava em encontro.
Era comum ver familiares sentados próximos ao fogão apenas para ouvi-lo conversar.
E enquanto a comida ganhava forma, as lembranças também eram construídas.
Japão pertencia a uma geração que valorizava a presença humana. Para ele, os momentos mais importantes da vida aconteciam justamente nas pequenas coisas: uma refeição compartilhada, uma visita inesperada, uma conversa no quintal, uma música tocando ao fundo ou uma família reunida dentro de casa.
Sua paixão pela cultura da fronteira também fazia parte de quem era.
A polca paraguaia e o chamamé estavam profundamente ligados à sua identidade. Bastava o som da sanfona começar para que seus olhos brilhassem de maneira diferente. A música preenchia o ambiente com alegria e nostalgia ao mesmo tempo.
Nas reuniões familiares, muitas vezes o rádio tocava baixinho enquanto o cheiro da comida se espalhava pela casa. As canções paraguaias e os chamamés criavam o cenário perfeito para longas conversas, risadas espontâneas e momentos simples que hoje permanecem eternizados na memória dos filhos, netos e amigos.
Japão amava sua terra.
Amava suas raízes.
Amava aquilo que lembrava o povo simples do interior.
E talvez por isso tenha se tornado tão querido em Coxim.
Ao lado da esposa, Lucila Tavares Campos, construiu uma das histórias mais bonitas de sua vida: a família.
Foram 52 anos de matrimônio marcados por companheirismo, respeito, lealdade e amor verdadeiro. Uma relação construída dia após dia, baseada na simplicidade e na união. Mais do que casal, formaram uma parceria sólida, atravessando juntos alegrias, dificuldades, desafios e conquistas.
Dentro de casa, Japão sempre foi homem de presença forte e coração sensível.
Criou os filhos: Gaudenlucio Tavares Campos, Mauricio Alexandre Tavares Campos e Fernanda Luiza Tavares Campos ensinando através do exemplo. Não precisava de grandes discursos para transmitir valores. Sua própria vida falava por ele.
Ensinou honestidade através das atitudes.
Ensinou amor através do cuidado.
Ensinou humildade através da forma como tratava as pessoas.
E quando os netos chegaram, uma nova alegria tomou conta de sua vida.
Maya, Jhonata, Gabriel e Natanny trouxeram ainda mais luz para seus dias. Japão se transformava perto deles. Gostava das brincadeiras, das conversas, dos almoços em família e da movimentação da casa cheia.
A chegada dos bisnetos: Livia Campos Fernandes, Maria Alicia Campos Fernandes e Arthur Tavares completou ainda mais sua felicidade.
Porque para Japão, riqueza verdadeira sempre esteve na família.
Ele gostava da mesa cheia.
Gostava do barulho das crianças correndo.
Gostava das risadas espalhadas pela casa.
Gostava de observar todos reunidos.
E talvez seja justamente isso que hoje provoca tanta saudade.
Sua ausência deixou um silêncio difícil de explicar.
A morte de Japão, em abril de 2022, não trouxe dor apenas para os familiares. Coxim inteira sentiu a partida de um homem que construiu vínculos verdadeiros por onde passou. Pessoas simples como ele acabam se tornando parte da identidade emocional da cidade.
A comunidade católica perdeu um de seus homens mais dedicados.
Católico fervoroso e devoto de São Sebastião, Japão sempre viveu sua fé de maneira prática, silenciosa e generosa. Não era apenas alguém que frequentava missas. Era alguém que servia.
Nas festas da igreja, sua presença na cozinha era praticamente tradição.
Enquanto muitos descansavam ou apenas participavam da celebração, Japão estava trabalhando entre panelas enormes, calor intenso e horas de preparo. Fazia tudo com alegria genuína.
E nunca decepcionava.
As pessoas sabiam que, quando ele assumia a cozinha, a comida seria preparada com carinho, fartura e dedicação. Seu compromisso com a comunidade era admirável. Trabalhava não por obrigação, mas porque acreditava no valor da união e da partilha.
Japão compreendia algo que hoje parece cada vez mais raro: servir também é uma forma de amar.
E ele amou profundamente.
Amou através da comida.
Amou através da fé.
Amou através da amizade.
Amou através da família.
Amou através das coisas simples.
Até hoje, seu nome continua presente nas conversas de quem sente saudade. Surge quando alguém fala de empamonado. Surge quando uma polca paraguaia toca no rádio. Surge nas lembranças das festas da igreja. Surge nos almoços familiares que ainda carregam muito de sua essência.
Porque homens assim não partem completamente.
Eles permanecem vivos nos hábitos que deixaram, nas tradições que preservaram e principalmente nas memórias afetivas construídas ao longo da vida.
Japão não deixou fortuna material.
Deixou algo muito maior.
Deixou amor.
Deixou exemplo.
Deixou cultura.
Deixou saudade.
E deixou em Coxim uma certeza silenciosa, mas profunda: a de que algumas pessoas jamais serão esquecidas.
Porque enquanto existir alguém preparando empamonado lembrando de seus ensinamentos, enquanto houver uma sanfona tocando chamamé em algum canto da cidade, enquanto uma família se reunir em volta da mesa para compartilhar comida e afeto, Japão continuará presente.
Vivo no coração da família.
Vivo na memória dos amigos.
Vivo na cultura coxinense.
E eternamente vivo dentro de Coxim.
