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Orgulhos Coxinenses

Dona Arminda

a mulher que transformou uma cachoeira em lar e deixou saudade nas águas de Coxim

8 MAI 2026 • POR Glenda Melo • 06h37

Existem pessoas que passam pela vida.

E existem aquelas que se tornam eternas.

Não porque foram famosas.
Não porque tiveram riquezas.
Não porque buscaram reconhecimento.

Mas porque aprenderam a coisa mais rara deste mundo: amar gente.

Arminda Santana de Araújo (IN MEMORIAM) foi assim.

Uma mulher simples aos olhos de quem não conhecia sua história, mas gigantesca para todos aqueles que tiveram o privilégio de sentar-se à sua mesa, ouvir sua voz calma, sentir o cheiro do café recém-passado vindo da cozinha ou simplesmente receber um de seus sorrisos sinceros.

Falar de Dona Arminda é falar de Coxim.

É falar de família.
De fé.
De luta.
De rio.
De comida feita no fogão com carinho.
De portas abertas.
De abraço que acolhia até quem chegava pela primeira vez.

Dona Arminda não construiu apenas uma fazenda.

Ela construiu memórias.

Nasceu em 23 de dezembro de 1919, na Fazenda Santa Luzia, em Coxim. Filha de Sérgio Santana e Amélia Belarmino Santana, foi a sétima entre nove irmãos. Cresceu em uma família católica, aprendendo desde cedo os valores que carregaria até o último dia de vida: humildade, respeito, fé e amor ao próximo.

Talvez ela mesma nunca tenha imaginado que se tornaria uma das mulheres mais importantes da história afetiva do turismo de Coxim.

Casou-se em março de 1937 com seu primo e grande amor, Luis Ranulfo Ferreira de Araújo. E quem conheceu os dois dizia que existia entre eles uma dessas uniões raras, construídas não apenas no amor, mas na parceria, no cuidado e na admiração.

Foram 22 anos de casamento.

Vinte e dois anos dividindo sonhos, dificuldades e esperanças.

Luís era conhecido como homem trabalhador, respeitado pelos ribeirinhos da região. Arminda, ainda jovem, já demonstrava a serenidade que mais tarde se tornaria sua marca. Juntos formaram uma família grande: oito filhos. Quatro mulheres. Quatro homens.

E ali começava a história que mudaria para sempre a vida daquela família e também a história de Coxim.

Quando chegaram às terras da futura Cachoeira das Palmeiras, em 1950, o que existia era apenas mata fechada.

Não havia energia.
Não havia estrada estruturada.
Não havia conforto.

Havia apenas coragem.

Luís foi primeiro. Sozinho, desbravando o mato, abrindo espaço no coração da floresta para construir uma pequena casa de barro e sapé, simples, humilde, mas cheia de esperança.

Depois Arminda chegou com os filhos.

E foi ali, no meio da natureza bruta, cercada pelos babaçuais, pelo rio e pelo som da cachoeira, que ela criou sua vida.

Aquela mulher delicada, calma e sorridente também era forte como poucas.

Plantava.
Cuidava da casa.
Criava os filhos.
Ajudava na fazenda.
Recebia visitantes.
Enfrentava as dificuldades da distância e da escassez.

Tudo isso sem jamais perder a doçura.

O dinheiro era pouco. Muitas vezes os serviços eram trocados por mantimentos ou roupas. Mas ninguém saía dali sem acolhimento.

Porque Arminda tinha uma riqueza que não se mede.

Ela fazia as pessoas se sentirem pertencentes.

Aos poucos, começaram a chegar os primeiros pescadores vindos de Minas Gerais, São Paulo e Goiás. Vinham atraídos pelas histórias dos peixes abundantes, pela famosa piracema, pelas águas cristalinas onde o peixe “saltava até na cachoeira”.

E encontravam muito mais do que peixe.

Encontravam uma família.

Os turistas dormiam na própria casa dos Araújo. Comiam junto da família. Sentavam-se ao redor da mesa como velhos conhecidos.

E Dona Arminda servia café.

Sempre o café.

Talvez ela nunca tenha percebido que aquele gesto simples atravessaria décadas e se tornaria parte da memória de milhares de pessoas.

O poeta Geraldo Mochi eternizou isso em versos ao falar do “cafezinho da Dona Arminda com sabor Sul-mato-grossense”.

Mas a verdade é que o sabor não estava no café.

Estava nela.

Na forma como olhava as pessoas.
Na maneira como escutava.
Na paz que transmitia.

Dizem que para Dona Arminda não existiam estranhos.

Todos viravam amigos.

E viravam mesmo.

A fazenda cresceu. O turismo floresceu. A Cachoeira das Palmeiras tornou-se referência nacional. Vieram excursões, ônibus, famílias inteiras, pescadores do Brasil inteiro.

Mas nada ali era mais forte que a presença daquela mulher.

Ela era o coração do lugar.

E então veio a dor.

Em 16 de dezembro de 1959 Arminda leva um grande baque, seu grande amor e melhor amigo Luís sofre um AVC fatal e vem a falecer.

Arminda ficou viúva aos 37 anos.

Sozinha.

Com oito filhos para criar e se seu amor.

O mais novo tinha apenas um ano e seis meses.

Qualquer pessoa teria desabado.

Mas ela não.

Chorou suas dores em silêncio e transformou sofrimento em força.

Virou mãe e pai.
Virou liderança.
Virou exemplo.

Com ajuda dos filhos e dos ribeirinhos da região, continuou tocando a fazenda. Seguiu em frente mesmo carregando saudades profundas dentro do peito.

E talvez seja justamente aí que sua grandeza se revele.

Porque Dona Arminda nunca permitiu que a tristeza endurecesse seu coração.

Mesmo após perder filhos ao longo da vida, manteve sua fé inabalável. Continuava sorrindo. Continuava acolhendo. Continuava oferecendo café e bolo a quem chegava.

Ela amava flores. Primavera era sua favorita.

Amava perfumes. Gostava de vestidos novos, sapatos bonitos, cabelos sempre arrumados. Tinha vaidade, mas uma vaidade leve, feminina, elegante.

Gostava da vida.

Gostava de conversar.
De ouvir histórias.
De reunir a família.
De celebrar aniversários.
De preparar almoço para os festeiros da Bandeira do Divino.

A casa de Dona Arminda nunca foi apenas uma casa.

Era um refúgio.

Quem chegava cansado, saía renovado.

Quem chegava visitante, partia amigo.

Ela carregava uma sabedoria rara. Tinha pouco estudo formal, mas uma inteligência que nascia da vida. Sabia cuidar da fazenda, administrar negócios e, principalmente, cuidar de pessoas.

A Cachoeira das Palmeiras cresceu junto com ela.

Ou talvez tenha sido ela quem deu alma àquele lugar.

Porque existem paisagens bonitas em muitos lugares do mundo.

Mas poucos lugares tiveram uma mulher como Dona Arminda vivendo dentro deles.

Em 2014, ela partiu, foi encontrar seu grande amor, após anos de saudades chegava ao fim a distância, eles então se reencontraram na eternidade.

Mas, desde então, algo silenciou naquelas águas.

A cachoeira continua lá.
Os babaçuais continuam lá.
O rio continua correndo.

Mas quem conheceu Dona Arminda sabe: nunca mais foi igual.

Porque algumas pessoas não morrem apenas para a família.

Elas deixam vazio em cidades inteiras.

Hoje, a antiga Cachoeira das Palmeiras já não recebe visitantes como antes. Tornou-se propriedade privada. O movimento cessou. Os ônibus desapareceram. As barracas sumiram das margens do rio.

Mas a memória dela continua viva.

Viva no cheiro imaginário do café passado no fogão.
Viva nas fotografias antigas.
Viva nas histórias contadas pelos filhos, netos e amigos.
Viva nas lembranças de quem um dia foi recebido por ela.

Dona Arminda foi mais que uma pioneira do turismo.

Foi dessas mulheres raras que transformam qualquer lugar em lar.

E talvez a maior prova de sua grandeza seja justamente essa:

Mesmo depois de sua partida, ainda existem pessoas que se emocionam ao ouvir seu nome.

Porque o tempo leva muita coisa.

Mas jamais leva o amor deixado por alguém que viveu para fazer o bem.