Turismo
Coxim com Outros Olhos - Cachoeira das Palmeiras
o paraíso que o tempo transformou em memória viva de Coxim
8 MAI 2026 • POR Glenda Melo • 06h36Existem lugares que não desaparecem quando fecham seus portões.
Eles permanecem vivos na lembrança das pessoas, no cheiro da terra molhada, no som da água correndo entre as pedras e nas histórias contadas de geração em geração.
A Cachoeira das Palmeiras é um desses lugares.
A aproximadamente 27 quilômetros de Coxim, às margens da BR-163, no km 751, sentido norte do Estado, existia um pedaço de paraíso que por décadas ajudou a construir parte da identidade turística, afetiva e cultural da cidade. Hoje, o local pertence à iniciativa privada e não está mais aberto ao público. Mas reduzir a Cachoeira das Palmeiras a um antigo ponto turístico seria injusto com sua grandiosidade.
Porque ali existiu muito mais do que turismo.
Ali existiu vida.
Muito antes das excursões, dos ônibus cheios, dos campings lotados e das famílias em busca de descanso, aquele lugar era apenas mata fechada, silêncio e natureza bruta. Foi em 1950 que tudo começou, quando Arminda Santana de Araújo e Luís Ranulfo Ferreira de Araújo receberam a propriedade como herança da família.
Naquele tempo, não havia energia elétrica, quartos, restaurante ou estrutura turística. Havia apenas coragem.
Luís chegou primeiro, sozinho, enfrentando o isolamento do sertão coxinense. Abriu clareiras no meio do mato, levantou com as próprias mãos uma casa simples de barrote e sapé, com apenas dois quartos e uma sala. Somente depois trouxe Arminda e os filhos para começar uma nova vida naquele lugar cercado por rios, babaçuais e uma cachoeira de quase 200 metros que parecia ter sido desenhada pela própria natureza.
O nome “Cachoeira das Palmeiras” nasceu justamente dali: da imensidão de palmeiras espalhadas pela propriedade, misturadas ao barulho constante das águas que desciam fortes entre as pedras.
A fazenda começou pequena, com cerca de 50 cabeças de gado, plantações de arroz, milho, feijão e banana. O dinheiro era pouco. Muitas vezes, os trabalhos eram pagos com roupas, alimentos e mantimentos para os ribeirinhos que ajudavam na lida diária.
Mas havia algo naquele lugar impossível de ignorar.
Talvez fosse a fartura dos peixes. Talvez fosse a beleza quase intocada da paisagem. Talvez fosse a paz que só existe em lugares verdadeiramente simples.
E então os primeiros visitantes começaram a chegar.
Vinham de São Paulo, Goiás, Minas Gerais. As notícias corriam de boca em boca: existia em Coxim um lugar onde o peixe era abundante até na seca. E assim, sem propaganda, sem internet, sem placas luminosas ou campanhas publicitárias, a Cachoeira das Palmeiras começou a se transformar em destino turístico.
Os turistas dormiam dentro da própria casa da família. Comiam junto à mesa. Dividiam histórias, café e amizade. O turismo ali nunca começou como negócio. Nasceu da hospitalidade.
E talvez tenha sido exatamente isso que tornou aquele lugar inesquecível.
Com o passar dos anos, a estrutura cresceu junto com os sonhos da família. A antiga câmara fria virou usina de energia. Depois veio fábrica de gelo, poço artesiano, quiosques, banheiros, tanques de limpeza de peixe, quartos, restaurante e áreas de camping que se espalhavam às margens do rio.
Em alta temporada, a cena parecia inacreditável para uma cidade do interior: mais de 15 ônibus estacionados em um único fim de semana, além de carros, vans e famílias inteiras vindas de diversas partes do Brasil e até do exterior.
A Cachoeira das Palmeiras se transformou no principal cartão-postal turístico de Mato Grosso do Sul.
Mas, ainda assim, nunca perdeu sua essência.
Ali, as pessoas não buscavam luxo.
Buscavam pertencimento.
As crianças corriam descalças pela areia. Famílias passavam o dia tomando banho de cachoeira. Amigos armavam barracas ouvindo o som dos pássaros ao amanhecer. Havia partidas improvisadas de futebol e vôlei, pescarias ao pôr do sol e conversas longas sob o céu estrelado de Coxim.
Era um lugar onde o tempo desacelerava.
E no centro de tudo estava Dona Arminda.
Seu nome se tornou tão conhecido quanto a própria cachoeira. Quem chegava ao local era recebido por sua simpatia, pelo sorriso acolhedor e pelo famoso cafezinho servido como gesto de carinho. Não demorou para que o poeta Geraldo Roca eternizasse aquele sentimento na música “Cachoeira das Palmeiras”, citando o inesquecível “cafezinho da Dona Arminda com sabor Sul- mato-grossense”.
Não era apenas um café.
Era afeto servido em xícara pequena.
Com o tempo, os filhos assumiram diferentes funções no empreendimento familiar. Darilene e Nelson passaram a comandar o restaurante, famoso pela comida simples e inesquecível: peixe frito na hora, pirão, galinha caipira, mandioca, arroz, feijão e a tradicional rapadurinha de doce de leite na sobremesa.
Nada sofisticado.
E exatamente por isso, perfeito.
Cada refeição carregava sabor de casa, de interior, de verdade.
A Cachoeira das Palmeiras cresceu respeitando a natureza. O local preservava fauna, flora e mantinha uma convivência harmoniosa entre desenvolvimento e meio ambiente algo raro até mesmo nos dias atuais.
Por décadas, aquele espaço ajudou a movimentar o turismo de Coxim, gerou empregos, trouxe visitantes, fortaleceu a economia local e apresentou as belezas naturais da região para milhares de pessoas.
Mas como toda grande história, também chegaram os dias difíceis.
Em 2014, Dona Arminda faleceu.
Sua partida marcou profundamente a família e também os frequentadores que aprenderam a amar aquele pedaço de paraíso. Os filhos ainda mantiveram as atividades por alguns anos, tentando preservar o legado construído pelos pais. Porém, após o processo de partilha entre os herdeiros, a propriedade acabou sendo vendida.
Hoje, a Cachoeira das Palmeiras é uma área privada e não recebe mais visitantes.
O silêncio voltou a ocupar os espaços onde antes havia risadas, motores de barcos, crianças brincando e rodas de conversa.
Mas a história ficou.
Ficou nas fotografias antigas amareladas pelo tempo. Ficou nas memórias de quem acampou às margens do rio. Ficou no cheiro da comida saindo da cozinha. Ficou nas músicas, nos relatos e no coração de Coxim.
Porque existem lugares que deixam de ser turísticos para se tornarem eternos.
E a Cachoeira das Palmeiras pertence exatamente a esse tipo raro de eternidade.
Hoje, protegida pelos novos proprietários, a área permanece preservada, guardando intacta sua beleza natural e sua importância histórica.
Talvez muita gente nunca mais atravesse aquelas porteiras.
Mas quem viveu a Cachoeira das Palmeiras sabe:
alguns lugares não precisam mais estar abertos ao público para continuarem abertos dentro da gente.
