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Com nova unidade em Coxim, Justiça de MS amplia rede de conciliação
8 MAI 2026 • POR Glenda Melo • 06h30O modelo tradicional de resolver conflitos na Justiça, marcado por processos longos, desgaste emocional e anos de espera por uma decisão definitiva, vem passando por uma transformação silenciosa em Mato Grosso do Sul. Apostando cada vez mais no diálogo, na mediação e na construção de acordos entre as partes, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) anunciou a criação de quatro novas unidades do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc), entre elas uma em Coxim.
A medida foi oficializada por meio da Portaria nº 3.267/2026, publicada pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, e também contempla os municípios de Aquidauana, Jardim e Nova Andradina. Com a expansão, Mato Grosso do Sul passa a contar com 18 unidades voltadas exclusivamente à mediação, conciliação e promoção da cultura da paz.
A iniciativa é considerada um importante avanço para o interior do Estado, principalmente em cidades onde o acesso rápido à solução de conflitos ainda enfrenta barreiras burocráticas e estruturais. Mais do que apenas ampliar prédios ou serviços administrativos, o Judiciário sul-mato-grossense busca fortalecer um novo modelo de Justiça: mais próximo das pessoas, menos litigioso e focado na construção de soluções consensuais.
A proposta dos Cejuscs é simples, mas vem produzindo resultados expressivos. Antes que um conflito se transforme em uma longa ação judicial, as partes são convidadas a participar de audiências de mediação e conciliação conduzidas por profissionais capacitados. O objetivo é criar um espaço de diálogo onde os próprios envolvidos possam encontrar soluções equilibradas para seus problemas.
Questões familiares, conflitos de vizinhança, cobranças, dívidas, desacordos comerciais, problemas relacionados ao consumo e até disputas mais complexas podem ser solucionadas sem necessidade de enfrentar anos de tramitação judicial.
Na prática, o modelo reduz custos, evita desgaste emocional e permite que os acordos sejam construídos de forma mais humana e participativa. Para o Judiciário, o impacto também é significativo: menos processos acumulados e maior eficiência no atendimento da população.
Os números mostram que o sistema vem crescendo rapidamente em Mato Grosso do Sul. Dados do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec) revelam que, entre janeiro e abril deste ano, foram realizadas 2.003 audiências pré-processuais no Estado. O índice de acordos chegou a 76,04%, percentual considerado extremamente positivo dentro do sistema de mediação.
No mesmo período do ano passado, haviam sido registrados cerca de 1.300 atendimentos, com taxa de acordos em torno de 75%. O crescimento demonstra não apenas o aumento da procura pelos serviços, mas também a consolidação da confiança da população nos métodos consensuais.
Durante décadas, a ideia predominante dentro da sociedade brasileira foi a de que somente uma decisão judicial definitiva poderia representar justiça. O crescimento dos Cejuscs, porém, revela uma mudança gradual de mentalidade.
Hoje, cresce o entendimento de que muitos conflitos podem ser solucionados por meio do diálogo, evitando traumas maiores, rupturas familiares ou prejuízos emocionais prolongados.
A transformação cultural também vem alcançando profissionais do Direito. Advogados, mediadores e magistrados têm participado cada vez mais de programas de capacitação voltados à mediação e à conciliação, fortalecendo um modelo menos centrado no confronto e mais voltado à pacificação social.
Além das audiências, os Cejuscs desenvolvem ações educativas e preventivas. Entre os projetos estão oficinas de parentalidade, programas voltados ao superendividamento e iniciativas de justiça restaurativa, que buscam reconstruir relações sociais abaladas por conflitos.
Essas ações têm impacto direto na redução da judicialização e ajudam a evitar que problemas cotidianos se transformem em disputas judiciais ainda maiores.
A instalação da nova unidade em Coxim é vista como um passo importante para fortalecer o acesso à Justiça na região norte do Estado. A cidade, que desempenha papel estratégico como polo regional, deve passar a oferecer atendimento mais rápido e acessível para milhares de moradores que enfrentam conflitos passíveis de conciliação.
A expectativa é de que a nova estrutura contribua para reduzir a sobrecarga do sistema judicial tradicional e ofereça alternativas mais eficientes para a população.
Em muitos casos, uma audiência de mediação consegue resolver em poucas horas conflitos que poderiam se arrastar por anos nos tribunais. Isso representa não apenas economia processual, mas também ganho social, emocional e financeiro para todos os envolvidos.
Especialistas avaliam que a presença dos Cejuscs no interior aproxima o Judiciário da realidade da população, democratizando o acesso aos serviços e incentivando soluções construídas coletivamente.
Enquanto cresce o número de audiências de mediação, o volume de processos tradicionais apresenta leve redução em Mato Grosso do Sul. Segundo os dados divulgados pelo Nupemec, o total de ações judiciais caiu de 10.539 para 10.064 no comparativo anual analisado.
Ao mesmo tempo, a taxa de acordos dentro dos processos judiciais também aumentou, passando de 23% para 24,65%.
Embora os percentuais pareçam discretos à primeira vista, especialistas explicam que os números representam uma mudança estrutural importante dentro do sistema de Justiça, principalmente considerando o histórico elevado de judicialização no país.
A lógica é simples: quanto mais conflitos forem resolvidos consensualmente antes de chegarem aos tribunais, menor será a sobrecarga do Judiciário e maior será a velocidade de resposta para os casos que realmente necessitam de decisão judicial.
A coordenação desse trabalho é realizada pelo Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos, órgão responsável por supervisionar as políticas de mediação e conciliação em Mato Grosso do Sul.
O núcleo atua na capacitação de mediadores, implantação de projetos de pacificação social, acompanhamento das unidades do Cejusc e desenvolvimento de estratégias para ampliar o acesso da população aos métodos consensuais.
O trabalho também conta com apoio institucional da Ordem dos Advogados do Brasil, considerada peça importante na disseminação da cultura da conciliação entre advogados e cidadãos.
A tendência, segundo especialistas, é que os métodos alternativos de solução de conflitos continuem crescendo nos próximos anos, acompanhando uma demanda cada vez maior por respostas rápidas, menos burocráticas e mais humanas.
A expansão dos Cejuscs em Mato Grosso do Sul representa mais do que uma simples ampliação administrativa do Judiciário. Para muitas famílias, trabalhadores, empresários e cidadãos comuns, significa a possibilidade de resolver problemas de maneira mais rápida, acessível e pacífica.
Em vez de transformar conflitos em batalhas intermináveis nos tribunais, a proposta é estimular o diálogo, a escuta e a construção conjunta de soluções.
Com a chegada da nova unidade em Coxim e a ampliação da rede estadual, o Judiciário sul-mato-grossense reforça uma mudança que já começa a transformar a relação da sociedade com a Justiça: menos confronto, mais entendimento e soluções construídas pelas próprias pessoas envolvidas.
