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Religioso

62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

1 MAI 2026 • POR Juliana Mastelini | Arquidiocese de Londrina (PR) • 06h34
  62ª AG CNBB

Mensagem ao Povo Brasileiro

“Bem-aventurados os que promovem a paz,
pois eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Nós, bispos católicos do Brasil, reunidos no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, de 15 a 24 de abril de 2026, por ocasião da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, dirigimos ao povo brasileiro nossa saudação fraterna, iluminados pela luz de Jesus Ressuscitado. Nestes dias, refletimos sobre a missão da Igreja no Brasil, sobre sua presença na sociedade, próximos das alegrias e esperanças, das tristezas e angústias do nosso povo.

Neste tempo pascal, celebramos com gratidão os sinais de esperança que já podem ser vistos. A amizade social, a economia solidária, a responsabilidade com os mais pobres, a valorização da soberania e da democracia, a promoção da cidadania e a incondicional defesa da vida, desde a concepção até a morte natural, passando por todos os direitos humanos e sociais, são sementes que florescem em nossas comunidades. Contudo, a alegria da Páscoa abre os nossos olhos para perceber, também, os sinais de morte em nossos dias.

Vivemos tempos de incertezas e sofrimentos. Persistem guerras, violências, fome e destruição em muitas partes do planeta, protagonizadas, muitas vezes, pelas grandes corporações e seus interesses. Como afirmou recentemente o Papa Leão XIV, “o mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos”. Também em nosso país, coexistem dinâmicas de destruição da vida do povo. O narcotráfico, as milícias e o crime organizado produzem um regime cotidiano de violência que vai muito além dos confrontos armados. Eles controlam territórios e enfraquecem a autoridade legítima das instituições. Nas periferias, a população passa a viver entre a ausência do Estado e a presença de poderes paralelos. Igualmente no campo, o quadro é grave, diante de situações historicamente injustas.

As mulheres estão ameaçadas por violências que vão: da agressão física, sexual e psicológica ao controle econômico; da humilhação cotidiana à violência contra a gestante; das desigualdades no salário e na renda à perseguição digital, ao assédio e à tentativa de expulsá-las dos espaços de poder. Crescem os casos de feminicídio. O quadro é ainda mais grave porque a mulher pobre, negra, periférica, indígena ou rural costuma enfrentar não só a violência, mas também a omissão institucional, a banalização social da dor e a cultura que a relativiza.

A Assembleia Geral da ONU reconheceu o tráfico transatlântico de escravizados como o “crime mais grave contra a humanidade”. O Brasil ainda não enfrentou corajosamente o racismo e nossa história tem uma dívida que exige reparação. Nas comunidades tradicionais, as disputas pela terra, pela água e por território produzem sofrimento, medo, expulsões e tragédias.

A grave crise ética tem, na corrupção, a ferida mais profunda. Ela abala a confiança da população, desvia recursos que deveriam servir aos mais pobres e fragiliza a qualidade de nossa democracia, já marcada por sinais preocupantes de desgaste. Por isso, é necessário defender com firmeza as instituições republicanas, os órgãos de controle, a justiça, a transparência e a responsabilidade na vida pública, pois são instrumentos indispensáveis para a proteção do bem comum. As relações promíscuas entre o público e o privado, inclusive promovidas por autoridades, impactam a política e não podem ficar impunes.

Preocupa-nos a discussão no Supremo Tribunal Federal sobre a substituição de contratos de trabalho regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) por vínculos precários de prestação de serviços, conhecidos como “pejotização”. Onde desaparece o Estado, vigora a lei do mais forte. Da mesma forma, é necessário reafirmar o direito sagrado ao repouso, oferecendo escalas de atividades que permitam aos trabalhadores melhor qualidade de vida e mais tempo com as suas famílias.