Orgulhos Coxinenses
Silvana Zanchett: a pantaneira que provou o poder da educação e mudou a própria história
17 ABR 2026 • POR Glenda Melo • 06h30Em Coxim, onde o vento passa devagar pelas ruas e o entardecer parece sempre contar uma história, nasceu uma menina que não sabia, mas carregava dentro de si a força de muitas gerações.
Silvana Aparecida da Silva Zanchett nasceu em Coxim em 13 de novembro de 1978, simples e talvez seja exatamente essa simplicidade que faz sua história tão grande, gigante, potente.
Filha de Waldomiro e Neiva, criada na zona rural, longe dos centros, longe das facilidades, longe de quase tudo menos do essencial. Porque ali havia amor, havia dignidade e havia uma mãe que, com paciência e coragem, decidiu ensinar a filha a ler o mundo antes mesmo que o mundo pudesse lhe ensinar qualquer coisa.
Silvana foi alfabetizada aos oito anos pela própria mãe.
E esse detalhe, que para muitos pode parecer pequeno, carrega uma potência imensa: foi ali que tudo começou.
Ali nasceu a menina que aprenderia que o conhecimento não depende de luxo, mas de vontade. Que o saber não precisa de paredes grandiosas, mas de alguém disposto a ensinar e de alguém disposto a aprender.
E ela quis.
Quis aprender.
Quis ir além.
Quis mais do que o destino que muitas vezes parecia já traçado para meninas como ela.
Desde cedo, estudar nunca foi um sacrifício. Era um prazer silencioso. Um encontro consigo mesma. Um caminho que fazia sentido, mesmo quando tudo ao redor parecia difícil demais.
Mas não foi fácil.
Nunca foi.
Silvana cresceu ouvindo, como tantos brasileiros, que certas coisas “não eram para ela”. Que a universidade era distante. Que aquele mundo não era o seu mundo.
E ainda assim, ela foi.
Contrariando expectativas.
Contrariando o negativismo.
Contrariando cada olhar que, de alguma forma, duvidou.
Porque há pessoas que aceitam o que o mundo diz.
E há aquelas que respondem com a própria história.
Antes de chegar à universidade, a vida lhe ensinou outras lições. Trabalhou como empregada doméstica por muitos anos e fala disso com um orgulho que emociona e ensina.
Porque foi ali, cuidando da casa dos outros, zelando por aquilo que não era seu, sendo responsável por vidas, rotinas e confianças, que ela aprendeu algo que nenhuma universidade ensina completamente: o valor da responsabilidade, da ética, do respeito.
Essa sem dúvida foi a maior escola
E não há exagero nisso.
Porque há aprendizados que nascem no silêncio do trabalho, na repetição dos dias, na humildade de quem entende que toda função, quando feita com dignidade, é grande.
Mas dentro dela, algo continuava chamando.
E ela ouviu.
A universidade não foi um acaso. Foi uma conquista.
Na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Silvana encontrou mais do que uma formação acadêmica. Encontrou um novo horizonte. Formou-se em História, fez mestrado, fez doutorado.
Cada título não foi apenas um degrau foi uma ruptura.
Ruptura com limites.
Ruptura com ciclos.
Ruptura com tudo aquilo que, um dia, disseram que ela não poderia ser.
E foi ali que sua vida mudou.
E quando a vida dela mudou, a história da sua família mudou junto.
Porque quando uma mulher rompe barreiras, ela não caminha sozinha.
Ela puxa gerações inteiras com ela.
Mas talvez o mais bonito em Silvana não seja o quanto ela chegou longe.
É o fato de nunca ter esquecido de onde veio.
Ela é, com orgulho, pantaneira.
E não apenas por geografia.
Mas por essência.
Ama Coxim. Ama o Pantanal. Ama sua gente.
Carrega no coração as raízes da terra, o cheiro da chuva, a memória das estradas de chão, a simplicidade que ensina mais do que qualquer discurso.
E poderia ter ido embora.
Poderia ter escolhido outros caminhos.
Mas escolheu ficar.
Escolheu devolver.
Escolheu fazer da própria história um instrumento de transformação para outros.
Hoje, aos 47 anos, mãe de Andressa e Wanderson Júnior, esposa de Wanderson há 29 anos, Silvana é diretora do campus da UFMS em Coxim. Mas dizer isso é pouco.
Porque ela não ocupa um cargo.
Ela ocupa um propósito.
O campus não é apenas um espaço físico. É um território de sonhos. Um lugar onde jovens chegam carregando dúvidas, medos, inseguranças e saem com direção, com dignidade, com futuro.
E Silvana está ali.
Todos os dias.
Presente.
Atenta.
Humana.
São mais de 500 alunos. Mas para ela, não são números.
São histórias.
E cada uma importa.
Cada aluno é, para ela, como um filho.
E isso não é metáfora.
É prática.
Está no olhar, na escuta, no cuidado, na forma como acolhe, como orienta, como não desiste de ninguém.
Ela sabe reconhecer quando alguém está prestes a desistir talvez porque um dia também esteve.
E então, ela se aproxima.
E fica.
E ajuda.
E sustenta.
Porque educar, para Silvana, nunca foi apenas ensinar conteúdos,
É cuidar de vidas.
Sua condução à frente do campus é respeitada. Dentro e fora da universidade. Entre professores, alunos, funcionários e também pela cidade que ela tanta ama.
Mas não pelo cargo.
Pela forma.
Pela coerência.
Pela humildade que nunca perdeu.
Pela educação no trato.
Pela firmeza sem arrogância.
Pela autoridade que nasce do exemplo não da imposição.
Silvana dedica sua vida à educação em Coxim e em toda a região norte de Mato Grosso do Sul como quem cumpre uma missão.
Ela acredita e luta:
Acredita na universidade pública.
Acredita no poder do ensino.
Acredita que cada jovem que entra ali pode mudar sua própria história.
E luta por isso.
Todos os dias.
Quando fala da universidade, não fala apenas com conhecimento técnico.
Fala com emoção.
Porque ela sabe o que está em jogo.
Sabe o peso de cada diploma.
Sabe quantas lágrimas existem por trás de cada formatura.
Sabe quantas batalhas invisíveis são vencidas ali, em silêncio.
E talvez por isso, sua história toque tanto.
Porque ela não é feita apenas de conquistas.
É feita de humanidade.
Nos detalhes, ela se revela inteira.
O cheiro que escolhe é o da terra molhada.
A saudade tem nome: sua mãe.
O lugar preferido é casa.
E o maior sonho… é a felicidade dos filhos.
Porque no fundo, tudo volta ao amor.
Silvana é dessas mulheres que não cabem em definições prontas.
Ela é travessia.
É raiz.
É coragem.
É exemplo.
É prova viva de que a educação transforma e de que, quando alguém acredita de verdade, ela transforma muito mais do que uma vida.
Transforma destinos.
Transforma histórias.
Transforma mundos.
E talvez, sem saber, aquela menina que aprendeu a ler pelas mãos da mãe tenha aprendido também algo ainda maior:
Que escrever o próprio destino é um ato de coragem.
E ela escreveu.
E continua escrevendo.
Todos os dias.
Em cada aluno que acolhe.
Em cada sonho que protege.
Em cada vida que toca.
Com delicadeza.
Com força.
E com o coração inteiro fincado na terra que ama.
Sua Coxim. Seu Pantanal. Sua gente.
