Orgulhos Coxinenses
Lúcia da AAVC: entre a fome e o amor, a história que transforma dor em esperança em Coxim
10 ABR 2026 • POR Glenda Melo • 08h30A vida de Lucimeire Elias da Silva Ramos Barbosa (Lúcia da AAVC) não se conta apenas, se sente. É daquelas histórias que atravessam o peito, que apertam a memória e que fazem lembrar que, por trás de cada gesto de solidariedade, quase sempre existe uma dor antiga que um dia pediu socorro.
Antes de ser conhecida como referência de amor ao próximo, antes de se tornar abrigo para tantos, Lúcia foi apenas uma menina. Uma menina que conheceu cedo demais aquilo que nenhuma criança deveria conhecer: a fome.
Não a fome de esperar a próxima refeição.
Mas a fome de não saber se ela viria.
Nascida em 8 de agosto de 1963, filha de Francisco Elias da Silva e Francisca Lino da Silva, ela veio ao mundo em um cenário simples, trazida pelas mãos de uma parteira, como tantas histórias invisíveis do interior do Brasil. Seus pais, vindos do Ceará em pau de arara, carregavam no corpo o cansaço da estrada e na alma a esperança de um futuro menos duro para os filhos.
Mas a realidade foi implacável.
Eram 12 irmãos. Uma casa cheia de vidas… e muitas vezes vazia de comida. A pobreza não era um detalhe era o chão onde tudo se construía. O frio atravessava a casa de pau a pique, coberta por folhas de coqueiro. Não havia cobertores. Havia sacos de estopa. Não havia conforto. Havia resistência.
E foi assim que Lúcia cresceu: resistindo.
Aos seis anos, a vida mais uma vez mostrou sua dureza. Uma enchente obrigou a família a fugir. Em cima de dois cavalos, com os filhos nos braços e o medo nos olhos, seus pais seguiram rumo a Coxim. Não havia escolha. Havia apenas a necessidade de continuar.
Chegaram sem nada. Mas chegaram juntos.
E isso, naquele momento, era tudo.
Seu pai, homem simples, mas gigante em valores, não se limitou a reconstruir apenas a própria vida. Ele ajudou a construir a comunidade. Foi responsável pela criação da primeira escolinha do bairro Santa Maria e também da primeira igreja católica da região um legado que ultrapassa gerações.
Aos nove anos, a família conquistou algo que parecia impossível: a casa própria. Pequena, simples, mas cheia de significado. Era mais do que paredes era dignidade.
Mas dentro daquela casa, a luta continuava.
Lúcia ia para a escola não apenas para aprender, mas para sobreviver. A merenda escolar, muitas vezes, era a única refeição do dia. Seu corpo, frágil pela falta de alimento, não suportava. Faltavam forças para caminhar. E, em muitos dias, ela era carregada pela professora não apenas por cuidado, mas por compaixão.
Era uma infância onde brincar e lutar aconteciam ao mesmo tempo.
Os doces vinham de latas jogadas por caminhões que cruzavam as estradas. Aquilo era motivo de alegria. Uma manga dividida entre irmãos virava festa. Um caju era um presente raro. Comer era um acontecimento.
E ainda assim… havia amor.
Havia uma mãe que caminhava até 50 quilômetros para vender bordados e tentar trazer alimento para casa. Havia um pai que, mesmo diante da escassez, ensinava valores. Havia irmãos que dividiam o pouco sem reclamar.
Aos 11 anos, Lúcia começou a trabalhar como babá. Não por escolha, mas por necessidade. Trabalhou no jornal, ao lado dos padrinhos Eloisa Dantas e Rubens Dantas, que também marcaram sua caminhada. Mas a vida ainda cobraria mais dela.
Aos 13 anos, partiu.
Saiu de Coxim e foi para Campo Grande. Era ainda uma menina, mas já carregava o peso de uma mulher. Foi ajudar a família, trabalhar, sobreviver. Foram 18 anos longe de casa. Anos de silêncio, de luta, de construção interna.
Mas há coisas que o tempo não apaga.
A fome que ela sentiu… ficou.
E foi essa memória que um dia mudou tudo.
Ao ver pessoas revirando o lixo em busca de comida, Lúcia não viu desconhecidos. Ela se viu. Viu sua infância. Viu a dor que um dia quase a derrubou.
E naquele instante, decidiu.
Decidiu que ninguém mais precisaria passar por aquilo se ela pudesse fazer algo.
E ela fez.
Em 1997, nasceu a AAVC. Não como uma instituição fria, mas como um abraço aberto. Como uma resposta à dor. Como um compromisso com a dignidade.
Ali, todos os dias, vidas são tocadas.
Cursos profissionalizantes são oferecidos gratuitamente porque ela sabe que a fome também se combate com oportunidade.
Alimentos são distribuídos porque ela sabe que ninguém vive de palavras.
Roupas aquecem corpos porque ela conhece o frio da estopa.
Remédios chegam a quem precisa porque ela sabe o que é não ter acesso a nada além de chás e fé.
Na Páscoa, há alegria.
No Natal, há dignidade.
No cotidiano, há cuidado.
Na AAVC, ninguém sai sem atendimento.
Ninguém sai sem um gesto de humanidade.
Ninguém sai sem ser visto. E também através dos seus parceiros essa história tem sido construída e mudado realidades em Coxim.
Porque Lúcia enxerga.
Ela enxerga a dor que muitos não querem ver.
Ao seu lado, está seu companheiro de vida, Célio Ramos. Há 31 anos, ele não apenas caminha com ela ele sustenta esse sonho junto. Muitas vezes, tiram de dentro de casa para manter a missão viva. Porque para eles, ajudar não é o que sobra. É o que define quem são.
A menina que um dia foi carregada por não ter forças… hoje carrega vidas.
A criança que não tinha o que comer… hoje alimenta multidões.
A mulher que saiu para ajudar a família… hoje é família para quem não tem.
Hoje mãe de 3 filhos e 6 netos sabe e valoriza a importância de oferecer o que não teve para que ninguém mais passe pelo seu sofrimento.
Homenagear Lúcia é reconhecer que existem pessoas que não vivem apenas para si e que independente dela estar em seu terceiro mandato como vereadora este projeto existe há 27 anos e não se pauta apenas pelo seu estar vereadora e sim por ser humana.
Em Coxim, seu nome não é apenas lembrado ele é sentido, vivido, agradecido. E ela sabe que o dia que ela faltar sua família e voluntários darão continuidade ao projeto, pois ela sabe que a fome não espera.
Porque Lúcia não apenas venceu a fome.
Ela transformou a fome em amor.
E fez desse amor um caminho.
