Logo Diário do Estado

Orgulhos Coxinenses

Maria de Lourdes "Nira": mãe de 14 filhos biológicos e 13 de coração

3 ABR 2026 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 05h30
  glenda

Debaixo de uma sombra simples, em frente à sua casa, entre pausas longas e olhos marejados, dona Maria de Lourdes da Silva Marques ou simplesmente Nira, como é conhecida por todos me recebe com um abraço que senti o amor de Deus, ela então   começa a me contar sua história. Não é uma história qualquer. É daquelas que atravessam o peito, apertam o coração e deixam marcas em quem escuta, e tenho certeza que vocês como eu, ficarão impactados.

Estão preparados para se emocionar? Prepara o coração então.

Aos 75 anos, nascida em 1º de maio de 1950, dona Nira carrega em si o tempo, mas principalmente, carrega vidas. Muitas vidas.

Filha de dona Júlia, uma parteira respeitada em Coxim e região, Nira cresceu vendo a mãe levar esperança para dentro de casas simples, fazendas e comunidades afastadas. Dona Júlia era mais que parteira: era ponte entre a dor e a vida. E não parava por aí adotou seis crianças ao longo da vida.

Talvez tenha sido ali, ainda menina, que Nira aprendeu algo que nem todos conseguem compreender: que o amor não precisa nascer do ventre para ser verdadeiro.

Mas a vida trataria de confirmar isso de forma muito mais profunda.

Ainda jovem, aos 18 anos, Nira teve seu primeiro filho. Como muitas mulheres de sua época, construiu sua família na base da coragem, do trabalho e da fé. Ao lado do marido, José Marques (IN MEMORIAM) pedreiro, companheiro de luta e de vida por 53 anos enfrentou dificuldades, limitações financeiras e os desafios de criar uma família numerosa. E numerosa mesmo.

Quando percebeu, já eram 12 filhos biológicos dentro de casa. Doze bocas, doze histórias, doze mundos diferentes que dependiam dela.

E foi então que a vida, mais uma vez, bateu à sua porta.

Mas não com um pedido comum.

Era uma criança.

Uma daquelas histórias que chegam carregadas de dor, abandono e silêncio.

Antes de tomar qualquer decisão, Nira fez o que sempre fez ao longo de sua vida: dividiu com o marido.

Sentou-se com José e perguntou, com a sinceridade de quem sabia o peso daquela escolha:

 Você concorda?

E ele, com a simplicidade de quem entende o essencial da vida, respondeu:

 Onde comem 12, comem mais.

Aquela frase, dita sem cerimônia, mudou tudo.

Ali nascia não apenas uma decisão, mas um propósito.

A partir daquele momento, a casa de dona Nira deixou de ser apenas um lar. Tornou-se refúgio.

Vieram mais crianças. E cada uma com uma história que, muitas vezes, nem caberia ser contada.

Crianças abandonadas.
Doentes.
Desnutridas.
Machucadas.
Sem esperança.

Algumas chegaram em seus braços como quem já não tinha mais forças para viver.

Outras simplesmente apareceram.

Como o dia em que uma menina de apenas 8 anos surgiu em seu portão.

Sozinha.

Nas mãos, uma pequena bolsa de pano.

Dentro dela, apenas duas peças de roupa e um registro de nascimento.

Era tudo o que ela tinha no mundo.

A menina dizia não saber onde estava a mãe.

Mas, para dona Nira, a resposta era clara demais para precisar de explicação.

Ela não fez perguntas.

Não cobrou respostas.

Não julgou.

Apenas abriu o portão.

E, junto com ele, abriu o coração mais uma vez.

Assim, ao longo dos anos, foram chegando filhos que não nasceram de seu ventre, mas renasceram em sua casa.

Hoje, são 27 filhos.

14 biológicos.
13 adotados.

Mas, para ela, não existe diferença.

Todos são filhos.

Todos são amados.

Todos são seus.

Durante a conversa, dona Nira se emociona. Chora. Para. Respira. E continua.

Ela revela que muitas das histórias que viveu são pesadas demais para serem contadas. Histórias que envolvem dor, abandono e sofrimento profundo. E, por amor aos filhos, prefere guardar.

Mas o que ela deixa escapar já é suficiente para entender a dimensão do que viveu.

Nem sempre foi fácil.

Aliás, quase nunca foi.

Dona de casa, com o marido pedreiro, a vida sempre foi simples. Faltava dinheiro, sobrava responsabilidade. Mas, como ela mesma faz questão de dizer, nunca faltou comida.

E, principalmente, nunca faltou amor.

Mesmo diante das dificuldades, ainda enfrentou o peso do julgamento.

Foi humilhada.

Criticada.

Questionada por acolher quem o mundo rejeitou.

Mas nada disso foi suficiente para fazê-la parar.

Porque havia algo maior guiando seus passos. A fé.

Uma das fundadoras da igreja Assembleia de Deus Madureira em Coxim, dona Nira frequenta a mesma igreja há mais de 55 anos. E acredita, com toda convicção, que sua missão foi dada por Deus.

Para ela, a maternidade especialmente a adoção, não foi escolha.

Foi chamado.

E ela atendeu.

Com coragem.

Com entrega.

Com amor.

E, muitas vezes, com o pouco que tinha.

Quando as crianças chegavam doentes, desacreditadas pelos médicos, dona Nira fazia o que sabia.

Cuidava.

Preparava chás.

Fazia banhos com ervas.

Usava receitas simples, ensinadas por saberes antigos.

Orava.

Acreditava.

E muitas vezes, contra todas as expectativas, aquelas crianças sobreviviam.

Ali, naquela casa simples, começava uma nova história.

Uma nova chance.

Uma nova vida.

Entre lágrimas, ela confessa algo que revela o tamanho do seu coração:

 Eu tenho mais medo de perder os adotivos do que os biológicos… porque os meus já são meus. Os adotivos já foram abandonados uma vez… eles precisam de mim.

É um amor que não se explica.

Um amor que protege.

Que vigia.

Que não dorme enquanto os filhos não chegam.

Que teme o mundo lá fora.

Que prefere manter por perto, porque sabe o que existe além dos muros de casa.

Hoje, mesmo com o passar dos anos, dona Nira continua sendo o centro de tudo.

Sua casa segue cheia.

Viva.

Aos domingos, a cena se repete como um ritual sagrado: mesa farta, risadas, conversas, crianças correndo, adultos relembrando histórias.

Cerca de 25 pessoas reunidas em volta daquela que, um dia, decidiu não fechar o portão.

E uma vez por mês, ela mantém uma tradição que carrega mais significado do que parece: a noite da pizza.

Um gesto simples.

Mas que diz tudo.

Porque, no fundo, tudo o que dona Nira sempre quis foi garantir duas coisas:

Que ninguém passasse fome.

E que ninguém se sentisse sozinho.

Dona Nira não é apenas uma mãe.

É abrigo.

É recomeço.

É resposta para quem já não tinha mais nenhuma.

Sua história não é feita apenas de filhos.

É feita de escolhas.

Escolhas difíceis.

Escolhas corajosas.

Escolhas que poucos teriam coragem de fazer.

Ela não mudou o mundo inteiro.

Mas mudou o mundo de 27 filhos.

E, através deles, de muitos outros.

Porque o amor que ela plantou continua crescendo.

Em cada vida salva.

Em cada história reconstruída.

Em cada abraço de domingo.

Em cada pedaço de pizza compartilhado.

Debaixo daquela mesma sombra onde tudo foi contado, fica a certeza:

Existem pessoas que nascem para viver.

E existem aquelas que nascem para salvar vidas.

Dona Nira… nasceu para amar.