Orgulhos Coxinenses
Dona Geny Nunes da Rocha: do pó do sertão ao coração de Coxim
27 MAR 2026 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 06h30Há vidas que não cabem em datas, nem em registros formais. Há histórias que precisam ser sentidas como o cheiro da terra molhada depois da chuva, como o som distante de um baile no interior, como o calor de uma cozinha sempre acesa. A trajetória de Geny Nunes da Rocha (IN MEMORIAM) é dessas que atravessam o tempo com a força de quem nasceu para resistir, construir e permanecer.
Nascida em 20 de abril de 1944, em Ruy Barbosa, no sertão baiano, Geny veio ao mundo em um cenário onde a vida já começava exigindo coragem. Filha de João Fagundes Nunes e Izaltina Neres Nunes, cresceu em meio a uma família numerosa doze irmãos, vozes, risos e desafios dividindo o mesmo teto. Era a caçula entre as mulheres, e talvez por isso tenha aprendido cedo a observar o mundo com atenção e a ocupar seu espaço com firmeza.
Mas o sertão, com toda sua beleza e dureza, também ensinava sobre partidas. Ainda menina, Geny foi levada pelos pais em uma travessia que marcaria sua vida para sempre. Em um caminhão pau-de-arara, como tantos brasileiros que carregavam sonhos maiores que seus pertences, a família deixou a Bahia rumo ao então Mato Grosso. O destino inicial foi Rio Verde de Mato Grosso, mas foi em Pedro Gomes à época distrito de Coxim que fincaram raízes.
Era um Brasil em formação, um interior que crescia com a força dos migrantes. Coxim ainda engatinhava, com poucas ruas, pouca estrutura, mas muita esperança. E foi nesse cenário bruto, quase intocado, que Geny se formou como mulher. Ali, entre o trabalho na terra e os laços comunitários, ela aprendeu que viver era, acima de tudo, insistir.
O destino, generoso em meio às dificuldades, colocou em seu caminho Francisco Mendes da Rocha, o “Sinhozinho”. Também baiano, também filho da luta, ele carregava nos braços a força do trabalho pesado e, no olhar, a determinação de quem queria construir algo maior. O encontro dos dois não foi apenas um acaso foi o início de uma parceria que marcaria a história de uma cidade inteira.
Entre a lida na roça e os momentos raros de lazer, o amor floresceu. E floresceu ao som de sanfonas e risadas em bailes distantes, para os quais caminhavam léguas sob o céu aberto, vencendo a poeira das estradas com a leveza de quem acredita na alegria. Era um tempo em que amar também era resistir, e resistir era caminhar juntos.
Casaram-se jovens, como se casavam os que não tinham tempo a perder. A vida exigia pressa, mas também coragem. Enquanto Sinhozinho se entregava ao trabalho árduo nas lavouras, Geny começava, silenciosamente, a construir seu próprio caminho. Na beira da estrada, preparava marmitas, fritava salgados, servia viajantes. Seu talento na cozinha não era apenas dom era estratégia de sobrevivência, era cuidado, era acolhimento.
E assim, sem alarde, surgia uma empreendedora.
A vida, no entanto, não seguiu em linha reta. Houve tentativas de recomeço em outros lugares uma volta à Bahia, uma passagem por Brasília, mas o destino já estava traçado. Era em Coxim que a história de Geny deveria florescer. E foi ali que, ao lado de Sinhozinho, ergueu o restaurante “Meu Recanto”, nome que já anunciava aquilo que se tornaria: um espaço de abrigo, de encontro, de pertencimento.
Visionário, Sinhozinho apostou no futuro quando muitos ainda viam apenas incerteza. Com os rumores da pavimentação da BR-163, adquiriu um terreno próximo à rodovia, em uma área alagadiça, quase inóspita. Era um sonho plantado no barro. E foi com as próprias mãos que ele começou a moldar aquele chão carregando terra, construindo base, desenhando o que viria a ser um marco.
Geny, inicialmente desconfiada, como toda mulher que conhece o peso da realidade, viu aquele sonho ganhar forma. E quando ganhou, ela o transformou em algo maior. O Restaurante Sinhozinho não era apenas um ponto comercial era um pedaço vivo da cidade. Ali, viajantes encontravam descanso, caminhoneiros encontravam sustento, moradores encontravam histórias.
Com o tempo, vieram os quartos, a pensão, o hotel. A BR-163 foi asfaltada, o fluxo aumentou, e o negócio prosperou. Serviam até 200 refeições por dia cada prato carregando o tempero de Geny, o cuidado de quem sabia que alimentar alguém é também um ato de amor.
Mas a vida, como sempre, também cobra seu preço
A perda de Sinhozinho foi um golpe profundo. Ele partiu cedo, aos 46 anos, deixando Geny diante de um vazio imenso. Viúva aos 43, ela poderia ter recuado, poderia ter deixado a história parar ali. Mas não. Geny era feita de outra matéria.
Ela se reinventou. Transformou a dor em força, o luto em movimento. Assumiu os negócios, organizou, expandiu, liderou. Tornou-se uma empresária respeitada, conhecida pela seriedade, pela pontualidade, pela coragem. Em um tempo em que poucas mulheres ocupavam esse espaço, ela não apenas ocupou ela se destacou.
E mesmo diante das responsabilidades, nunca deixou de ser quem sempre foi: uma mulher de alma leve, que gostava de dançar, de pescar, de reunir a família. Porque, para Geny, o verdadeiro sentido da vida estava nos vínculos.
Anos depois, o coração encontrou novamente abrigo ao lado de Seu Mauro, com quem construiu uma longa história de companheirismo, quase quatro décadas de parceria silenciosa e sólida.
Mas talvez o maior legado de Dona Geny esteja em sua descendência. Mãe de quatro filhos, avó de nove netos, bisavó de sete bisnetos, ela viu sua história se multiplicar em gerações. Cada nome, cada rosto, cada lembrança carrega um fragmento de sua essência.
Dona Geny não foi apenas testemunha da história de Coxim ela foi protagonista. Uma daquelas pessoas que ajudaram a transformar uma vila em cidade, um ponto no mapa em um lugar cheio de vida.
Hoje, sua ausência física é apenas um detalhe diante da grandeza de sua presença. Porque há pessoas que não se despedem. Elas permanecem nos lugares que construíram, nas histórias que inspiraram, nos afetos que deixaram.
Dona Geny permanece no cheiro de comida boa que reúne famílias, nas estradas que cruzam destinos, nas memórias que insistem em viver.
Permanece como aquilo que sempre foi:
força, acolhimento e história.
