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Orgulhos Coxinenses

Arialba de Araújo Lemos: a mulher que transformou o pão em memória e alimentou gerações com amor

20 MAR 2026 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 06h00
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Há vidas que passam como o vento… e há vidas que permanecem como o perfume do pão recém-saído do forno, marcando o tempo, aquecendo memórias e alimentando almas.
A história de Arialba de Araújo Lemos é assim: não se limita aos anos vividos, mas se espalha, delicadamente, pela memória afetiva de uma cidade inteira, tornando-se parte da identidade de um povo.

Nascida em 23 de março de 1937, em Corumbá, Dona Arialba veio ao mundo sob o céu amplo do Pantanal, onde a natureza ensina, desde cedo, sobre resistência, ciclos e fé. Ali, entre rios que seguem firmes e horizontes que parecem não ter fim, formou-se o espírito de uma mulher destinada a construir mais do que uma vida um legado.

Desde jovem, aprendeu que a grandeza não está no que se possui, mas no que se compartilha. E foi com essa verdade silenciosa, quase sagrada, que guiou cada passo de sua caminhada.

Ao lado de seu esposo, Arnol Lemos seu grande amor, seu parceiro de vida, seu porto seguro viveu 42 anos de uma união construída com respeito, cumplicidade e fé. Juntos, formaram uma família que se tornou seu maior tesouro, sua missão mais bonita.

Dessa união nasceram sete filhos:  Lourdes Marina Lemos Franco, Marcus Vinicius Lemos, Maura Mércia Lemos, Arnol Lemos Filho, Flávio Lemos, Candelária Lemos e José Seraphim Lemos; cada um trazendo em si um pedaço da essência dessa mãe que ensinou, pelo exemplo, o valor do amor verdadeiro, do trabalho digno e da fé em Deus.

E como toda vida fecunda, seu amor se multiplicou. Vieram os netos: Dulcindo, Florêncio, Thais, Thamiris, Marcelo, Vinicius, Arnol, Isabella, Felipe, Lucas, Marina, Manuela, Marcus Vinicius, Leonardo, Miguel, Maria Fernanda e Bruna, como sementes de um legado que segue florescendo. Em cada sorriso, em cada gesto, em cada conquista, há traços invisíveis de Dona Arialba, como uma presença constante que atravessa gerações. Mas foi em Coxim que sua história ganhou contornos quase eternos.

No ano de 1981, movida por coragem, necessidade e uma fé que nunca a abandonou, Dona Arialba abriu as portas da Padaria Ki Pão, na Avenida Virgínia Ferreira, no bairro Flávio Garcia em Coxim. Um gesto simples, talvez, aos olhos de quem vê de fora, mas que, com o tempo, se transformaria em um dos símbolos mais afetivos da cidade.

Porque a Ki Pão nunca foi apenas uma padaria.

Era o cheiro que despertava a cidade antes mesmo do sol nascer.
Era o calor humano que se misturava ao calor do forno.
Era o ponto de encontro de amigos, trabalhadores, famílias inteiras.
Era o primeiro “bom dia” de muitos coxinenses.

Ali, nas primeiras horas da manhã, entre pães quentinhos e leite fresco, aconteciam encontros que iam muito além da rotina. Eram conversas que começavam com pressa e terminavam em risos. Eram histórias trocadas, conselhos dados, amizades fortalecidas.

A Ki Pão era um pedaço vivo de Coxim.

E no centro desse universo estava Dona Arialba: firme, presente, acolhedora. Seu olhar atento reconhecia clientes como quem reconhece familiares. Sua palavra era sempre gentil. Seu atendimento, mais do que eficiente, era humano.

Ela compreendia, talvez intuitivamente, que alimentar alguém é um ato de amor. E assim fez, por décadas: alimentou corpos, mas também aqueceu corações.

Quantas casas começaram o dia com o pão da Ki Pão?
Quantas crianças cresceram levando aquele sabor na memória? Inclusive eu.
Quantas histórias passaram por aquele balcão? Inclusive a minha.

São perguntas que não cabem em números porque pertencem ao campo da memória, do afeto, daquilo que não se mede.

Dona Arialba, sem jamais buscar reconhecimento, tornou-se referência. Uma mulher que, em um tempo de desafios ainda maiores para o empreendedorismo feminino, ergueu seu negócio com dignidade, disciplina e coragem. Sem discursos, abriu caminhos. Sem alarde, inspirou gerações.

Ela provou que a força de uma mulher não precisa ser ruidosa para ser transformadora.

Em 2005, quando as portas da padaria se fecharam, não houve fim, houve continuidade em outra forma. Porque o que foi construído ali não se apagou. Permanece vivo na memória coletiva de Coxim, como uma lembrança que resiste ao tempo.

Mas a vida também é feita de silêncios e despedidas.

Em 28 de janeiro de 1998, Dona Arialba viveu a dor da partida de seu amado Arnol Lemos. Um adeus terreno que não rompeu o vínculo, apenas o transformou. Porque o amor verdadeiro não termina, ele se eterniza, se torna presença invisível, dessas que acompanham, sustentam e confortam.

E ela seguiu

Seguiu com fé.
Seguiu com coragem.
Seguiu sendo exemplo.

Hoje, Dona Arialba vive em Corumbá, retornando às suas raízes, cercada pelo amor da filha Candelária, do genro Zelinho e da neta Manuela. Ali, em um ambiente de carinho e cuidado, continua sendo o centro de uma família que a reverencia com respeito e ternura.

O tempo, para ela, não é peso é sabedoria

Aos 89 anos, que completará no próximo dia 23 de março, Dona Arialba é a prova viva de que envelhecer pode ser um ato de beleza. Bem-humorada, lúcida, disciplinada, ela cuida de si com a mesma dedicação que sempre teve com os outros. Pratica pilates duas vezes por semana, exercita o corpo e a mente, joga canastra, dominó, mergulha nas palavras cruzadas como quem mantém viva a curiosidade pela vida.

Há nela uma energia rara uma alegria tranquila, daquelas que não dependem de circunstâncias, mas brotam de dentro.

Seu lugar preferido continua sendo à beira do Rio Paraguai. Ali, diante da imensidão das águas, ela contempla a vida como quem entende seus ciclos. O rio segue, como ela sempre seguiu: firme, constante, silenciosamente grandioso.

Mas se existe um lugar onde Dona Arialba verdadeiramente habita, é no coração de sua família.

E é ali que, mais uma vez, sua história será celebrada.

No próximo dia 23 de março, filhos, genros, noras e netos se reunirão em uma grande celebração familiar. Não será apenas uma festa de aniversário. Será um reencontro com a própria história. Um tributo vivo a tudo o que ela construiu. Um abraço coletivo que diz, sem precisar de palavras: “valeu a pena”.

Porque celebrar Dona Arialba é celebrar o amor que sustenta, o trabalho que dignifica, a fé que guia.

Ela é mais do que uma mulher.
É memória viva.
É herança afetiva.
É exemplo que atravessa o tempo.

Sua história não está apenas no passado. Ela vive nas manhãs que ainda cheiram a pão quente na lembrança de Coxim. Vive nas famílias que ela ajudou a alimentar. Vive em cada gesto de bondade que inspirou.

E talvez seja assim que Deus escreve as mais belas histórias:
com mãos simples,
com gestos repetidos em silêncio,
com amor plantado dia após dia.

A vida de Dona Arialba é uma oração que ganhou forma humana.
Um testemunho de que viver bem não é sobre grandiosidade, é sobre constância, entrega e amor.

E enquanto houver memória, enquanto houver família reunida, enquanto houver alguém que se lembre do calor da Ki Pão ao amanhecer…
Dona Arialba continuará viva, não apenas em Corumbá, não apenas em Coxim
mas em cada coração que aprendeu, com ela, o verdadeiro sentido da vida.