Orgulhos Coxinenses
Celina Moreira Lopes: a primeira vereadora mulher de Coxim ela ousou e abriu caminhos
13 MAR 2026 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 09h11Em cada cidade existem nomes que atravessam o tempo como sementes lançadas ao vento. Alguns germinam silenciosamente; outros florescem em gestos que mudam o curso da história. Em Coxim, às margens das águas serenas do Rio Taquari, um desses nomes é o de Celina Moreira Lopes: professora, comerciante, cidadã inquieta e, sobretudo, a mulher que ousou atravessar a porta da política quando quase todas ainda permaneciam do lado de fora.
Celina nasceu em Coxim no dia 6 de novembro de 1942, filha de Brás Moreira Lopes e Valentina Victal Lopes. Era uma época em que a cidade ainda caminhava lentamente entre ruas de terra, sonhos modestos e tradições profundamente enraizadas. As meninas cresciam ouvindo que seu destino estava no lar, nos cuidados da família e na delicadeza dos ofícios domésticos. Mas havia em Celina algo que não cabia apenas nesses limites uma curiosidade viva, um espírito inquieto e a coragem silenciosa de quem pressente que o mundo pode ser maior.
Foi no Grupo Escolar Dr. João Ponce de Arruda que começaram seus primeiros passos na educação. Ali, onde hoje se ergue o prédio do Fórum, a pequena estudante aprendeu não apenas as letras e os números, mas também a disciplina e o valor do conhecimento como ferramenta de transformação. As salas de aula eram simples, mas carregavam a grandeza das primeiras descobertas e Celina soube desde cedo que aprender era também um modo de conquistar liberdade.
Em 1959, ainda jovem, partiu para Campo Grande para continuar os estudos no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. Para uma menina do interior, deixar a cidade natal era mais que uma mudança geográfica; era um rito de passagem. Em Campo Grande, Celina ampliou horizontes. Estudou, dedicou-se, aprendeu novas habilidades. Fez cursos de datilografia na Escola Remington, aprendeu corte e costura na Escola Touhmod, e foi acumulando conhecimentos que moldariam sua autonomia e sua visão de mundo.
Em 1964, retornou a Coxim para concluir o curso ginasial no Colégio Batista. Foi ali que uma faceta importante de sua personalidade começou a se revelar com clareza: a liderança. Durante dois anos foi presidente do Grêmio Estudantil, experiência que lhe ensinou a importância da organização, do diálogo e da representação coletiva. Sem saber, ali começava a germinar a vocação política que mais tarde marcaria sua trajetória.
A educação continuou sendo seu caminho. Celina formou-se Técnica em Contabilidade pelo Colégio Herculano Pena e posteriormente concluiu o Magistério na Escola Sílvio Ferreira, reafirmando sua ligação com o universo do ensino e do aprendizado.
A vida profissional foi construída com a mesma determinação que marcaria todas as suas escolhas. Trabalhou por dez anos no Banco Financial S.A., instituição que mais tarde se tornaria conhecida como HSBC/Bamerindus. Ali aprendeu o rigor da organização financeira e o valor da responsabilidade cotidiana. Também exerceu a função de secretária no Colégio Herculano Pena, mantendo-se sempre próxima do ambiente educacional.
Mas a história de Celina não seria apenas uma trajetória de trabalho. O destino lhe reservava um papel que ultrapassaria sua própria vida pessoal e alcançaria a história política de Coxim.
Era o início da década de 1970. O Brasil vivia um período difícil, marcado por transformações políticas e sociais. No interior das cidades, a política ainda era um território quase exclusivamente masculino. As câmaras municipais eram compostas por homens, e raramente se imaginava uma mulher ocupando um dos assentos de decisão pública.
Em 1972, movida por coragem e por uma profunda convicção de que a participação feminina era necessária, lançou-se candidata a vereadora pelo Partido Arena. Para muitos, aquela candidatura parecia improvável. Para outros, ousada demais. Afinal, uma mulher disputando espaço no Legislativo municipal ainda era algo raro, quase impensável.
Mas Celina não se intimidou
Com determinação, percorreu ruas, conversou com moradores, apresentou ideias e defendeu sua visão de cidade. Sua campanha carregava não apenas propostas políticas, mas também um símbolo silencioso: o de que as mulheres também tinham voz, capacidade e direito de participar das decisões públicas.
E a cidade respondeu
Celina foi eleita vereadora, tornando-se a primeira mulher a conquistar uma cadeira na Câmara Municipal de Coxim. No dia 31 de janeiro de 1973, tomou posse, escrevendo definitivamente seu nome na história política do município.
Não era apenas uma vitória individual. Era um marco.
Na Câmara, Celina exerceu o cargo de Primeira-Secretária e integrou Comissões Permanentes, participando ativamente dos debates e das decisões legislativas. Sua presença naquele espaço representava mais que uma atuação política: simbolizava uma ruptura com antigas barreiras invisíveis que por muito tempo limitaram a presença feminina na vida pública.
Ser a primeira mulher em um ambiente predominantemente masculino exigia coragem. Significava enfrentar olhares de desconfiança, superar preconceitos silenciosos e provar, dia após dia, que competência não tem gênero.
Celina fez isso com serenidade, firmeza e dignidade.
Sua trajetória ajudou a abrir caminhos para outras mulheres que, anos depois, também ousariam ocupar espaços na política municipal. De certa forma, cada mulher que hoje se senta em uma cadeira do Legislativo carrega um pouco daquele primeiro gesto de coragem aquele momento em que Celina decidiu que era possível.
Após seu período na política, Celina retornou às atividades familiares e sociais, continuando a contribuir para a comunidade. Participou por muitos anos da Diretoria Social do Clube Esportivo Coxinense, fortalecendo laços culturais e comunitários na cidade.
Também dedicou parte de sua vida à educação, lecionando na Escola Estadual Pedro Mendes Fontoura, compartilhando conhecimento e ajudando a formar novas gerações de coxinenses.
Mais tarde, ao retornar para Campo Grande, seguiu trabalhando no comércio, mantendo viva sua característica mais marcante: a capacidade de reinventar-se e continuar ativa, produtiva e conectada à vida.
A história de Celina Moreira Lopes é, acima de tudo, a história de uma mulher que não aceitou os limites que o tempo parecia impor. Ela estudou, trabalhou, liderou, ensinou e representou sua cidade em um período em que poucas mulheres tinham essa oportunidade.
Seu legado não se mede apenas pelos cargos que ocupou, mas pelo caminho que abriu.
Porque cada pioneira carrega um peso invisível: o de ser a primeira a atravessar uma porta ainda fechada. E quando essa porta finalmente se abre, outras muitas passam por ela.
Hoje, ao olhar para a história política de Coxim, é impossível não reconhecer o significado daquele gesto de coragem em 1972. Ali, entre discursos, votos e debates, uma mulher mostrou que o futuro também poderia ser escrito por mãos femininas.
Celina Moreira Lopes não apenas ocupou um lugar na Câmara Municipal.
Ela criou um lugar para muitas outras mulheres na história de Coxim.
A Coragem de Celina
Nas terras de Mato Grosso,
Onde o Taquari faz caminho,
Nasceu uma grande história
Que hoje eu conto em versinho.
De coragem e de esperança
Que mudou o seu destino.
Foi em seis de novembro
De mil novecentos e quarenta e dois,
Que em Coxim veio ao mundo
Uma menina entre nós.
Celina era o seu nome,
Que o tempo guardou na voz.
Filha de gente honrada,
De luta e de tradição,
De Brás Moreira Lopes
E de Valentina de coração.
Aprendeu desde pequena
O valor da educação.
No Grupo João Ponce de Arruda
Começou sua jornada,
Entre cadernos e sonhos
De menina dedicada.
Ali nasceu o desejo
De uma vida transformada.
Mas Celina foi além
Do que esperavam então,
Pois mulher naquele tempo
Tinha pouca direção.
Diziam que o seu caminho
Era apenas o do lar e do fogão.
Mas quem nasce com coragem
Não aceita esse limite,
Segue firme na estrada
Mesmo quando alguém critique.
Celina seguiu adiante
Sem deixar que o medo habite.
Foi estudar em Campo Grande,
Com vontade de aprender,
Datilografia e estudo
Pra crescer e florescer.
Cada curso era uma porta
Que ela ousava atravessar sem temer.
De volta à sua Coxim
Continuou a estudar,
No Colégio Batista
Foi também se destacar.
Presidiu o Grêmio Estudantil
E começou a liderar.
Fez contabilidade,
Magistério e dedicação,
Trabalhou em banco e escola
Com esforço e precisão.
Sempre firme na batalha
Com trabalho e vocação.
Mas o destino guardava
Um capítulo especial,
Pois Celina faria história
Na política local.
Num tempo em que mulher
Quase não tinha espaço igual.
No ano de setenta e dois
Decidiu se candidatar,
Muita gente duvidava
Que pudesse se eleger lá.
Mas quem luta com coragem
Nunca deixa de tentar.
Saiu pelas ruas da cidade
Conversando com o povo,
Mostrando que a mulher
Também podia algo novo.
Era sonho e esperança
Num tempo duro e remoto.
E o povo reconheceu
Sua força e sua voz,
Celina foi eleita
Para orgulho de nós.
A primeira vereadora
Da história de Coxim, após.
Tomou posse na Câmara
No janeiro que chegou,
Entre homens e desafios
Sua história começou.
Primeira-secretária
Foi o cargo que ocupou.
Ali fez seu trabalho
Com respeito e dedicação,
Mostrando que a mulher
Tem coragem e decisão.
Que política também nasce
Da força do coração.
Depois seguiu sua vida
Entre ensino e sociedade,
No clube e nas escolas
Deixou marca de verdade.
Sempre ativa, sempre forte
Servindo sua comunidade.
Hoje o tempo segue em frente
E novas vozes vão surgir,
Outras mulheres na política
Também podem construir.
Mas foi Celina quem primeiro
Teve coragem de abrir.
Por isso este cordel
Hoje fica registrado,
Como verso de memória
De um caminho desbravado.
Pois a história de Celina
Nunca será apagado.
Ela mostrou para o mundo
Que coragem faz nascer
Novos rumos, novos sonhos
Que ninguém pode conter.
E que a mulher quando luta
Faz a história acontecer.
(Por: Glenda Melo)
