Orgulhos Coxinenses
O Nordestino que Virou História: A Jornada de "Zé Raimundo" em Coxim
6 MAR 2026 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 09h17A história de José Raimundo dos Santos (in memoriam) ou simplesmente:” Zé Raimundo” é daquelas que atravessam gerações e permanecem vivas na memória de um povo. Mais do que um ex-prefeito, ele se tornou símbolo de simplicidade, coragem e amor verdadeiro por Coxim cidade que adotou como lar e que, por sua vez, o acolheu como filho, se sentiu em casa sendo acolhido daquele jeito que nós coxinenses sabemos como ninguém acolher, com carinho e respeito.
Natural de Picos (Piauí) no Nordeste brasileiro, Zé Raimundo carregava no coração a força típica de quem nasce em solo quente e aprende cedo o valor do trabalho. Como tantos nordestinos, partiu em busca de um futuro melhor. Tinha um sonho simples e grandioso ao mesmo tempo: construir uma vida digna, formar família e vencer pelo esforço próprio, trazia a força do nordestino consigo e recebeu em troca apoio da gente de Coxim, nordeste e Mato Grosso do Sul dividiam espaço no seu coração, de um lado a cidade em que nasceu, do outro a cidade que o acolheu.
Chegou à então pequena e acolhedora Coxim em 18 de outubro de 1966. A “Terra do Pé de Cedro” ainda dava seus primeiros passos rumo ao crescimento, e foi ali que ele decidiu fincar raízes. Com espírito empreendedor e carisma natural, rapidamente se integrou à comunidade. Fez amigos, construiu sua história profissional e começou a formar a família que seria seu maior patrimônio.
Homem de trato simples, olhar firme e palavra respeitada, Zé Raimundo sempre foi movido pela política, não a política dos palanques vazios, mas a política da conversa, do café compartilhado, do conselho sincero. Gostava de estar rodeado de amigos, falar sobre o futuro da cidade, debater ideias, ouvir as pessoas. Era apaixonado por Coxim. Falava da cidade como quem fala de um grande amor.
Na década de 1980, veio um dos maiores desafios de sua vida: administrar o município que o acolhera. Eleito prefeito, governou Coxim de 1983 a 1988. Seu mandato foi marcado pela proximidade com a população e pelo compromisso com o desenvolvimento. Mais do que obras, deixou marcas humanas. Era comum vê-lo caminhando pelas ruas, cumprimentando moradores pelo nome, ouvindo reivindicações com paciência e respeito.
Mas sua vida não foi feita apenas de conquistas. Houve momentos de profunda dor. A perda de sua primeira esposa, dona Zuleide, em um trágico acidente de carro, foi um dos capítulos mais difíceis de sua trajetória. A dor foi imensa. O luto, pesado. Mas havia filhos pequenos para criar, responsabilidades a cumprir, sonhos que não podiam morrer. Foi na força da paternidade que encontrou coragem para seguir em frente. Transformou a dor em determinação, seus filhos foram sua força, os motivos para não desistir, e ele não desistiu.
O destino, que tantas vezes o provou, também lhe ofereceu novo recomeço. Surgiu então Marilene, companheira dedicada que esteve ao seu lado até seus últimos dias. Com amor, cumplicidade e união, ajudou a reconstruir o lar. Juntos criaram os filhos Camila, Juliana e Arnaldo, fortalecendo ainda mais os laços familiares. A família sempre foi seu porto seguro era ao redor da mesa, em um bom churrasco, na conversa mansa com os filhos e netos, que ele se sentia completo.
Mesmo após encerrar o mandato, Zé Raimundo jamais se afastou da política. Mesmo sendo empresário até seus últimos dias, seu prestígio era tamanho que continuava sendo procurado por lideranças e candidatos em busca de conselho e apoio. Tinha o respeito da população porque nunca perdeu a essência: tratava todos com educação, independentemente de posição social ou ideologia. Era simples. Era acessível. Era humano.
Até que veio o último grande desafio: o câncer. Enfrentou a doença com a mesma firmeza com que encarou as dificuldades da vida. Lutou com dignidade, cercado pela família que tanto amava e pela cidade que jamais deixou de amar. E quando partiu, deixou mais do que saudade deixou exemplo.
O último adeus a Zé Raimundo aconteceu em um lugar que carregava significado profundo em sua trajetória: a Loja Maçônica Acácia em sua Coxim. Depois de sua própria casa, aquele era o espaço onde ele mais gostava de estar. Ali cultivava amizades, fortalecia laços fraternos, compartilhava ideias e exercia valores que marcaram toda a sua vida: lealdade, respeito, solidariedade e compromisso com a comunidade. Foi naquele ambiente de união e irmandade que familiares, amigos, autoridades e tantos coxinenses prestaram suas últimas homenagens. O local, que tantas vezes foi palco de conversas, projetos e momentos de convivência, transformou-se em cenário de despedida, mas também de reconhecimento. Velado onde se sentia acolhido e em paz, Zé Raimundo partiu cercado pelo carinho do povo e pela reverência daqueles que sabiam que estavam se despedindo não apenas de um ex-prefeito, mas de um homem cuja história se confunde com a própria história de Coxim.
Zé Raimundo foi o nordestino que atravessou o país em busca de esperança e encontrou em Coxim não apenas uma oportunidade, mas um destino. Construiu uma história política sólida, uma trajetória pessoal admirável e uma família unida. Fez da cidade sua bandeira, seu orgulho, sua missão.
Seu nome não está apenas nos registros da Prefeitura ou nos livros de história. Está na memória afetiva do povo coxinense, nas conversas nas calçadas, nas lembranças de quem viu de perto sua dedicação.
Porque há homens que passam pela política. E há homens que se tornam parte da própria cidade.
Zé Raimundo foi, sem dúvida, um deles.
Zé Raimundo, Filho do Nordeste e Coração de Coxim
No chão seco do Nordeste
Nasceu um homem destemido
Zé Raimundo era valente
Tinha o sonho bem guardado e definido
Com a coragem na mala
E a esperança como abrigo
Deixou cedo sua terra
Pra mudar o seu destino
Veio em busca de futuro
De trabalho e dignidade
Trouxe no peito a coragem
E nos olhos a saudade
Chegou firme em Coxim
Fez da cidade seu chão
Plantou sonhos pelas ruas
Construiu seu coração
Nordestino arretado
De palavra e de valor
Foi erguendo seu caminho
Com trabalho e muito amor
Empresário respeitado
Visionário e lutador
Transformava dificuldade
Em degrau e foi vencedor
Mas foi na política da terra
Que encontrou sua paixão
Amava o povo, as histórias
Cada bairro, cada irmão
Foi prefeito dessa gente
Governou com devoção
Tinha Coxim na alma
E justiça nas mãos
Sua vida foi marcada
Por batalhas e vitórias
E também pelas perdas
Que atravessam as histórias
Zuleide, sua primeira esposa
Companheira de emoção
Partiu cedo, deixando nele
Um silêncio no coração
Mas Deus, que escreve os caminhos
Com mistério e com saber
Trouxe Marilene à sua vida
Para ele renascer
Companheira até seus dias
Forte, firme, de ternura
Criou junto os seus filhos
Com amor e com bravura
Arnaldo, Camila e Juliana
Seus tesouros mais sagrados
Foram luz na sua estrada
Seus motivos mais amados
Pai presente, conselheiro
Homem de exemplo e raiz
Ensinava pelo gesto
O que é ser forte e feliz
Amava a sua cidade
Como quem ama um lar
Defendia cada canto
Cada sonho popular
Falava firme de progresso
De futuro e união
E carregava Coxim
Feito oração no coração
Hoje o tempo segue em frente
Mas não leva sua história
Porque homem que planta o bem
Colhe eterna memória
Zé Raimundo não partiu
Virou verso, virou chão
Virou nome que ecoa
No cordel da gratidão.
E lá do céu nordestino
Onde a saudade faz morada
Ele olha por Coxim
Com sua alma iluminada
Prefeito, pai, companheiro
Homem simples e profundo
Que saiu lá do Nordeste
Pra ser grande neste mundo.
