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Orgulhos Coxinenses

Otair da Cruz Bandeira ou simplesmente "ICA" a grandeza de um homem que fez da Justiça um ato de fé

27 FEV 2026 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 09h56
  arquivo pessoal

A terra generosa de Coxim recebeu de volta o seu filho ilustre como quem acolhe um coração que nunca partiu. Porque, embora a vida o tenha levado a outros rincões, Otair da Cruz Bandeira (IN MEMORIAM) jamais deixou de pertencer às margens do rio que o viu menino, às ruas que guardaram seus primeiros passos, ao horizonte pantaneiro que moldou seu caráter. Fazer essa regional de hoje foi uma aula de história, bati na porta de alguns amigos do ICA, ou para outros Otair, ouvindo as informações de amigos que tanto sentem sua falta confesso que viajei no tempo e por instantes me vi nesses lugares e histórias que me foram narradas. Tive a grande honra em conhê-lo, amigo de meus pais e meu avô, Dr Ica como chamávamos já era uma presença imponente, elegante, impossível passar despercebido.  Ele partiu. E com sua partida ficou um silêncio diferente na cidade um silêncio que pesa nas conversas interrompidas, nas cadeiras vazias dos encontros entre amigos, nas histórias que agora são contadas com os olhos marejados.

Otair foi homem de fé profunda, dessas que não se anunciam em discursos, mas se revelam nas atitudes. Acreditava na Justiça como missão, quase como sacerdócio. Antes de ser magistrado, foi promotor de Justiça; antes do cargo, já havia o compromisso moral. Quando assumiu a magistratura, ainda jovem, levava consigo mais do que conhecimento jurídico levava valores inegociáveis.

Sua trajetória o conduziu ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso, onde escreveu uma história singular. Respeitado por sua competência no Direito Criminal, tinha votos citados por estudiosos e reconhecidos pela solidez técnica. Ainda assim, o que mais impressionava não era o brilho intelectual, mas a integridade. Sua honestidade era tão luminosa que ofuscava qualquer vaidade.

Era firme sem ser arrogante. Rigoroso sem jamais perder a dimensão humana. Sabia separar o juiz do cidadão, a toga do homem comum. Fora dos autos e dos tribunais, era o “Ica” o amigo leal, o companheiro de conversa, o esportista apaixonado.

Nos campos de futebol do interior, defendendo as cores do Araguaia Esporte Clube, jogava com a mesma intensidade com que fundamentava suas sentenças. Vibrava, discutia, lutava por cada lance. Às vezes, o entusiasmo o levava a deixar o gramado mais cedo. Mas nunca levou para fora das quatro linhas qualquer ressentimento. Terminada a partida, restava apenas o aperto de mão, o riso compartilhado, a grandeza de quem sabia competir sem cultivar ódio.

Essa capacidade de não guardar mágoas definia sua alma. Otair era um homem sem mesquinharia. Um verdadeiro cavalheiro. No campo, um leão; na vida, um exemplo de equilíbrio moral.

Carregava Coxim no peito como se fosse parte do próprio nome. Recusou promoções ao longo da carreira porque entendia que crescer não significava se afastar de suas raízes. E quando finalmente chegou ao Tribunal, foi de forma direta, rara, quase inédita reconhecimento inequívoco de sua retidão.

Há histórias que revelam mais sobre um homem do que qualquer currículo. Certa vez, parado em uma estrada por não portar a carteira de motorista, poderia ter invocado o peso do cargo que ocupava. Não o fez. Aceitou a multa com naturalidade. Porque, como disse, naquele momento não estava investido da magistratura estava ao volante. Essa era sua essência: a lei valia para todos, inclusive para ele.

Exerceu também a Secretaria de Justiça com a mesma postura ética que marcou sua vida inteira. Aposentou-se ainda relativamente jovem, mas não se afastou do que mais amava: a convivência com a família, o reencontro com os amigos, as conversas demoradas, as lembranças da infância.

A fidelidade era outra de suas marcas. Nunca abandonava os amigos. Fazia questão de estar presente, de honrar laços, de cultivar a amizade como quem cultiva uma árvore frondosa com cuidado e constância.

Mas o chamado da terra sempre falou mais alto. Como na antiga lenda pantaneira do boi que, ao pressentir o fim, volta o olhar para sua origem, Otair quis encerrar sua caminhada onde tudo começou. Voltou definitivamente para Coxim. Voltou para o colo da cidade que amava. Voltou para as fraldas do Pantanal, onde o céu parece mais amplo e as lembranças têm cheiro de infância.

Sua partida deixou órfãos de sua presença: a esposa companheira, os filhos que herdaram seu exemplo, os irmãos, os amigos de tantas jornadas. Deixou também uma lacuna na magistratura, que perdeu não apenas um jurista brilhante, mas um homem que dignificava a função pelo caráter.

Coxim sente sua ausência. As águas do rio parecem correr mais lentas. A sombra das árvores guarda histórias que ele ajudou a escrever. A cidade chora, mas também se orgulha. Porque poucos homens honram tanto sua origem quanto ele honrou.

Otair da Cruz Bandeira não foi apenas desembargador, promotor, secretário de Estado. Foi referência. Foi farol. Foi exemplo vivo de que é possível exercer poder sem se corromper, autoridade sem humilhar, firmeza sem perder a ternura.

Ele faz falta. Falta na mesa dos amigos. Falta nas decisões ponderadas. Falta nas palavras sábias ditas no momento exato. Falta como fazem falta os homens raros  aqueles cuja presença era abrigo.

Mas permanece. Permanece na memória coletiva, no orgulho da família, no respeito dos colegas, na inspiração dos jovens magistrados que iniciam a árdua caminhada do Direito.

Se a vida é medida pelos rastros que deixa, Otair deixou estradas inteiras de dignidade.

E enquanto houver alguém que conte sua história, enquanto Coxim pronunciar seu nome com reverência, ele continuará vivo não apenas na lembrança, mas no exemplo que nunca morre.