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Orgulhos Coxinenses

DR. FLÁVIO GARCIA DA SILVEIRA NETO: o Homem que Fez da Vida um Juramento de Amor a Coxim

6 FEV 2026 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 06h30
  arquivo pessoal

Existem pessoas que nascem em uma cidade.
Outras, pertencem a ela.
E existem aquelas raras almas que parecem ter sido moldadas pelo próprio chão onde cresceram como se o destino tivesse escrito, desde o primeiro suspiro, que ali seria sua missão.

Assim foi a vida de Dr. Flávio Garcia da Silveira Neto ( In memoriam)

Nascido em 8 de junho de 1943, em Coxim, ele veio ao mundo em uma terra que, anos depois, aprenderia a pronunciar seu nome com respeito, carinho e gratidão. Filho de Manoel Garcia Sobrinho, o querido “Seu Bom”, e de Aida Ribeiro Garcia, Flávio cresceu cercado por valores simples e profundos: dignidade, trabalho, verdade e amor pelas pessoas.

Desde cedo, carregava dentro de si uma sensibilidade rara. Não era apenas inteligência. Era humanidade. Era a capacidade de olhar para alguém e enxergar mais do que um rosto enxergar uma história, uma dor, uma esperança.

Seus estudos começaram em Coxim, e depois seguiram para novos horizontes, incluindo o período de internato em Monte Aprazível, interior de São Paulo, experiência que ampliou seu olhar sobre o mundo, mas nunca diminuiu a saudade de casa. Porque, para Flávio, Coxim nunca foi apenas um lugar. Era raiz. Era identidade. Era destino.

O caminho da Medicina não foi escolha por acaso. Era vocação. Era chamado.

Formou-se médico em 1973, em Petrópolis (RJ), pela tradicional UNIFASE/FMP Centro Universitário Arthur Sá Earp Neto, instituição reconhecida pela forte formação na área da saúde. Mas o que tornou aquele ano eterno em sua história não foi apenas o diploma.

No dia de sua formatura, em 14 de dezembro de 1973, ele se casou com Celina Maria Pinho da Silveira, mulher que se tornaria sua companheira de vida, de sonhos e de batalhas. Até hoje, Celina costuma dizer que Flávio não foi apenas pai de seus filhos foi amor, foi amigo, foi parceiro, foi presença, foi abrigo.

Juntos construíram uma família com cinco filhos:
Maria das Graças, Leandro, Leonardo, Luciano e Flávia Manoelle.

Mas a vida, que tantas vezes ele ajudou a trazer ao mundo, também lhe apresentou sua face mais cruel. Flávio enfrentou duas dores que nenhuma palavra consegue traduzir: a perda de dois filhos: Maria das Graças e Leandro.

Dores que não passam.
Dores que não se explicam.
Dores que apenas se carregam.

E ele carregou. Em silêncio. Com dignidade. Transformando sofrimento em ainda mais cuidado com o próximo. Talvez por isso tenha se tornado ainda mais humano, ainda mais sensível à dor alheia.

Especialista em ginecologia e obstetrícia, Dr. Flávio fez algo que poucos conseguem mensurar: ajudou a colocar no mundo incontáveis coxinenses. Muitas famílias carregam sua presença na própria história. Muitas mães lembram de sua calma. Muitos pais lembram de sua segurança. Muitas vidas começaram sob suas mãos.

Quando retornou para Coxim, buscou se aperfeiçoar ainda mais, realizando diversos cursos. Ele queria ser melhor. Sempre melhor. Porque sabia que cada paciente era alguém amado por alguém. E isso bastava para que ele desse tudo de si.

Naquela época, a realidade era difícil. A energia elétrica muitas vezes terminava às 23 horas. Emergências médicas aconteciam sob luz de lampião, sob baterias improvisadas, sob o improviso da necessidade. E ali estava ele firme. Presente. Humano.

Em determinado momento, tomou uma decisão que revelou quem ele era de verdade.

Abriu mão de um emprego excelente que havia conquistado por concurso na Petrobras. Uma carreira estável. Promissora. Segura.

Mas o chamado do povo falou mais alto.

Ele escolheu voltar para Coxim.
Escolheu servir.
Escolheu cuidar da sua gente.

Porque, para Flávio, profissão nunca foi apenas trabalho. Era missão.

Dr. Flávio odiava injustiça.
Odiava falsidade.
Odiava mentira.
Odiava maldade.

E amava gente. Amava o povo. Amava Coxim.

Em 1988, o médico se tornou também líder político ao ser eleito prefeito de Coxim, assumindo em 1989. Logo no início do mandato, enfrentou uma das maiores enchentes da história da cidade, que inundou bairros inteiros e deixou famílias ribeirinhas desabrigadas. Não era apenas uma crise administrativa. Era uma crise humana. E ele enfrentou como enfrentava tudo: próximo das pessoas.

Durante sua gestão (1989–1992), Coxim passou pelo último desmembramento territorial, com a emancipação de Alcinópolis momento histórico para a região.

Foi também em sua administração que a Câmara Municipal passou a ter sede própria, fortalecendo a estrutura institucional do município.

Na comunicação, trouxe mais um canal aberto para a cidade, com a retransmissão da Rede Manchete, ampliando o acesso à informação.

Na cultura, implantou a Casa do Artesão, valorizando talentos locais e preservando tradições.

Na saúde pública, deixou um legado social profundo com a implantação da chamada Vaca Mecânica, que produzia leite derivado da soja em grande escala e ajudava na nutrição de famílias carentes.

Homem de gostos simples, Flávio amava futebol. Era apaixonado pelo Vasco da Gama e pelo Operário de Mato Grosso do Sul. Gostava de churrasco, de música, de reunir amigos, de conversar por horas. Gostava de olhar nos olhos das pessoas. Gostava de ouvir, e política? Ah, essa estava no sangue e no coração, mesmo que muitas vezes não houvesse o reconhecimento merecido e até ingratidão por parte de alguns.

No dia 23 de maio de 2007, aos 64 anos deixa o plano terreno e se reencontra com seus filhos Maria das Graças e Leandro, que com toda certeza o acolheram com o mesmo amor que ele sempre entregou para todos.

Gostava de viver.

Em reconhecimento à sua trajetória, em março de 2015, a Prefeitura de Coxim eternizou seu nome no posto de saúde do Bairro Senhor Divino, através da Lei Ordinária nº 1.672.

Mas a verdade é que ele já era eterno antes disso.

Hoje, sua história vive na memória de cada pessoa que cruzou seu caminho. Vive no amor de Celina, que até hoje carrega a certeza de ter vivido um amor verdadeiro. Vive nos filhos. Vive nas netas Luiza e Manuela. Vive na cidade que ele nunca abandonou.

Dr. Flávio não foi apenas médico.
Não foi apenas prefeito.

Foi aquele tipo de homem que escolhe servir quando poderia escolher conforto.
Que escolhe voltar quando poderia ir embora.
Que escolhe cuidar quando poderia simplesmente viver para si.

Ele colocou vidas no mundo.
Acolheu dores.
Enfrentou perdas.
E ainda assim continuou acreditando nas pessoas.

Coxim não foi apenas sua cidade.
Foi sua causa.
Foi seu juramento silencioso.
Foi seu amor mais constante.

E homens assim não partem de verdade.
Eles permanecem.

Na lembrança.
Na gratidão.
Na história.
E, principalmente, no coração de um povo inteiro.