Orgulhos Coxinenses
João Olegário Figueiredo: o homem cuja grandeza cabia no gesto simples
30 JAN 2026 • POR Glenda Melo • 09h01Há homens que impressionam pelo que dizem.
João Olegário impressionava pelo que era.
Sua grandeza nunca precisou de palco. Caminhava ao lado da humildade com naturalidade, como quem sabe que o verdadeiro valor não se anuncia, se revela. Mesmo ocupando cargos altos, mesmo sendo ouvido nos espaços de poder, João nunca se afastou do chão da cidade. Continuava o mesmo homem acessível, de fala serena, olhar atento e escuta paciente.
Nascido em Coxim, em 22 de março de 1942, filho de Iraldo Olegário Figueiredo e Jandira Cardeal Figueiredo, carregou desde cedo valores que não se perdem com o tempo: respeito, responsabilidade, retidão. Seu caráter foi sendo moldado na convivência familiar, na escola, nas ruas da cidade, na observação silenciosa da vida.
Formou-se em Direito e exerceu a advocacia com ética inegociável. Justiça, para ele, não era conceito abstrato: era prática cotidiana. Agia com firmeza, mas nunca sem humanidade. Sabia que por trás de cada processo havia histórias, dores, esperanças. Por isso, sua reputação era sustentada não apenas pela competência, mas pela confiança.
Na vida pública, João Olegário foi exemplo raro de coerência. Secretário, professor, delegado de ensino, vereador, presidente da Câmara, subchefe da Casa Civil, Procurador-Geral do Estado cargos que jamais o afastaram de seus princípios. Não negociava valores. Não se curvava a conveniências. Não confundia política com vaidade.
Era ético quando poucos eram. Justo quando seria mais fácil ser indiferente. Firme quando a pressão sugeria silêncio.
E talvez por isso tenha se tornado, naturalmente, conselheiro.
Amigos, estudantes, colegas, jovens e veteranos o procuravam não apenas por sua inteligência, mas por sua sabedoria. João aconselhava sem impor. Orientava sem julgar. Discordava sem ferir. Suas palavras vinham sempre acompanhadas de prudência, equilíbrio e respeito. Falava pouco, mas quando falava, fazia diferença.
A humildade era sua marca mais visível. Mesmo reconhecido, jamais se colocou acima de ninguém. Tratava todos com a mesma atenção do mais simples ao mais influente. Sabia que dignidade não se mede por cargos, mas por atitudes. Essa postura fez dele alguém querido, respeitado e confiável.
Amava Coxim com amor maduro, sem romantização vazia. Conhecia seus desafios, suas contradições, suas dores. E ainda assim escolheu ficar. Recusou caminhos mais fáceis porque acreditava que pertencer também é permanecer. Sua vida estava enraizada ali: nos rios, nas praças, nas instituições, nas pessoas.
Nos momentos de lazer, encontrava alegria na pescaria, nos acampamentos, no esporte. No futebol, como goleiro da seleção coxinense, demonstrava o mesmo espírito com que viveu: entrega, coragem e responsabilidade. Defendia o gol como defendia a cidade com garra silenciosa e compromisso coletivo.
Na fé, era discreto e constante. Católico convicto, devoto do Divino Espírito Santo, de Nossa Senhora de Fátima e de Nossa Senhora Aparecida, viveu sua religiosidade como vivia tudo: sem ostentação, com profundidade. Como festeiro de São José, ajudou a preservar tradições que hoje fazem parte da identidade cultural de Coxim, unindo fé, convivência e memória.
Dentro de casa, foi ainda maior. Ao lado de Loir Siravegna Figueiredo, construiu um lar sustentado por respeito e amor. Foi pai presente, formador de caráter, avô afetuoso. Em seus gestos familiares, revelava-se o homem inteiro: aquele que ensinava mais pelo exemplo do que pela palavra.
João Olegário também era guardião da memória. Contava histórias algumas sérias, outras leves, muitas engraçadas. Histórias que misturavam política, cotidiano e humanidade. Ao narrar, preservava. Ao lembrar, ensinava. Ao rir, aproximava.
Quando partiu, em 2 de janeiro de 2021, aos 78 anos, Coxim perdeu um homem mas ganhou definitivamente uma referência. Porque homens como João Olegário não desaparecem: se transformam em legado.
Ele permanece no jeito ético de fazer política.
Na humildade que ainda inspira.
No conselho que ecoa mesmo depois do silêncio.
Na justiça praticada com humanidade.
Na cidade que ajudou a construir sem nunca querer ser maior do que ela.
Há vidas que passam.
Há vidas que ensinam.
E há vidas que se tornam parte da alma de um lugar.
João Olegário foi assim.
E por isso, permanece.
