Mulher
Entre alertas e contrastes: 12 cidades de MS não registram feminicídios em 10 anos
23 JAN 2026 • POR Glenda Melo • 14h44Mato Grosso do Sul inicia 2026 sob um cenário de fortes contrastes quando o assunto é violência contra a mulher. Ao mesmo tempo em que o Estado registra o primeiro feminicídio do ano e números elevados de violência doméstica logo nas primeiras semanas, um levantamento oficial revela que 12 municípios sul-mato-grossenses não contabilizaram nenhum caso de feminicídio ao longo da última década.
Os dados constam no Painel de Monitoramento da Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp-MS) e abrangem o período de 2016 a 2026. De acordo com o levantamento, as cidades de Bodoquena, Brasilândia, Corguinho, Guia Lopes da Laguna, Jaraguari, Jateí, Paraíso das Águas, Paranhos, Rio Negro, Selvíria, Taquarussu e Vicentina não registraram nenhuma morte de mulher enquadrada como feminicídio nesse intervalo de dez anos.
O dado chama atenção em meio a um contexto estadual marcado por estatísticas preocupantes. Especialistas alertam, no entanto, que a ausência de feminicídios nesses municípios não significa, necessariamente, ausência de violência. Outros tipos de agressão, ameaças e abusos podem existir, ainda que não tenham resultado em mortes classificadas como feminicídio.
Enquanto algumas cidades aparecem sem registros desse tipo específico de crime, o começo de 2026 reforça o alerta sobre a violência doméstica em Mato Grosso do Sul. Apenas nos primeiros 22 dias do ano, foram contabilizados 1.276 casos em todo o Estado, segundo a Sejusp-MS.
Campo Grande lidera o ranking, com 421 ocorrências, seguida por Dourados (105), Três Lagoas (61), Corumbá (52), Naviraí (32) e Nova Andradina (32). Também aparecem na lista Aquidauana, com 27 registros, entre outros municípios.
Os números evidenciam que, mesmo antes do fim do primeiro mês do ano, centenas de mulheres já buscaram ajuda das forças de segurança, reflexo de relações marcadas por agressões físicas, psicológicas, ameaças e outras formas de violência.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o retrospecto recente. O ano de 2025 entrou para a história como um dos mais violentos para as mulheres em Mato Grosso do Sul. Ao todo, 39 feminicídios foram registrados, representando um aumento de aproximadamente 11% em relação a 2024.
Segundo a Sejusp-MS, o perfil das vítimas se repete de forma cruel: mulheres, em sua maioria pardas, com idade entre 30 e 59 anos, assassinadas dentro de casa. Os autores, na maior parte dos casos, eram maridos, companheiros ou ex-companheiros pessoas do convívio íntimo, onde deveria existir proteção e não violência.
Os dados reforçam uma realidade dura: a violência de gênero atravessa todas as idades e contextos sociais. Meninas, jovens, adultas e idosas seguem vulneráveis em espaços que deveriam ser seguros, como o lar, o trabalho, a escola e até unidades de saúde. Os agressores variam entre parceiros afetivos e familiares próximos, como filhos, irmãos e outros parentes.
O levantamento revela que, apesar de exemplos pontuais de municípios sem registros de feminicídio, o enfrentamento à violência contra a mulher continua sendo um dos maiores desafios de Mato Grosso do Sul. Autoridades e organizações da sociedade civil reforçam que prevenção, denúncia e políticas públicas eficazes seguem sendo fundamentais para transformar números em histórias que não terminem em tragédia.
