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José Adelino de Carvalho: Zelão, o homem que transformou trabalho em legado

23 JAN 2026 • POR Glenda Melo • 09h10

Existem homens que passam pela história quase sem deixar rastros. Outros, porém, constroem caminhos tão sólidos que o tempo se encarrega de preservá-los. José Adelino de Carvalho pertence a este segundo grupo. Sua vida foi escrita com esforço, fé e generosidade e cada capítulo se confunde com o próprio crescimento de Coxim, cidade que ele escolheu para amar, servir e ajudar a transformar.

José Adelino nasceu em 10 de maio de 1933, no pequeno e simples distrito de Lagoa dos Félix, no município de Picos, interior do Piauí. Era um Brasil de poucas oportunidades, onde a infância costumava ser curta e o amadurecimento, precoce. Ainda menino, com apenas oito anos, enfrentou a dor que moldaria sua alma: a perda do pai, Adelino Francisco de Carvalho. Restaram-lhe a mãe, Maria Pastora de Carvalho, mulher de força silenciosa, e a irmã pequena, que passaram a compartilhar com ele o peso da sobrevivência.

A vida ensinou cedo que nada viria fácil. Foram anos marcados por privações, pelo apoio dos avós e tios, e por um cotidiano onde o trabalho se misturava aos sonhos. Ainda assim, foi nesse ambiente de dificuldades que José Adelino aprendeu valores que jamais abandonaria: honradez, responsabilidade, solidariedade e fé.

Aos 17 anos, movido pela esperança que sempre acompanha os que se recusam a desistir, deixou sua terra natal. Seguiu o caminho de tantos nordestinos rumo ao Sudeste, acreditando que o esforço abriria portas. São Paulo surgiu como promessa, mas não como destino definitivo. O coração inquieto e a coragem o levaram adiante, até os garimpos do estado de Goiás, onde o trabalho árduo separava os fortes dos resilientes.

No garimpo, não se destacou apenas pela força física, mas pela inteligência e capacidade de liderança. Em pouco tempo, tornou-se referência, assumindo responsabilidades e conduzindo equipes. Sua palavra tinha peso, seu olhar transmitia confiança. Foi ali que se revelou o líder que mais tarde seria reconhecido por toda uma região.

O destino, sempre atento, conduziu José Adelino à região do Rio Jauru, onde uma missão temporária acabaria se transformando em algo definitivo. Ao conhecer Coxim, sentiu algo raro: pertencimento. A cidade o acolheu, e ele retribuiu com trabalho, respeito e dedicação. Fez amigos, criou vínculos e tomou a decisão que mudaria sua vida: ficar.

Coxim tornou-se seu chão, seu porto seguro, seu projeto de vida. Foi ali que construiu não apenas uma história profissional, mas uma trajetória humana profunda. Conheceu Auréa, a querida e conhecida por todos carinhosamente por Dona Fioca, mulher de família tradicional, com quem formou um lar sólido, pautado no amor e na cumplicidade. Deste casamento nasceram filhos, netos e uma família que sempre foi seu maior orgulho e sua razão diária de luta.

Homem de fé e princípios inabaláveis, José Adelino encontrou na Maçonaria um espaço onde seus valores se alinhavam perfeitamente com sua missão de vida. Iniciado em 1961, percorreu todos os graus da Ordem com retidão exemplar. Sua importância nas Lojas Maçônicas de Coxim foi profunda, histórica e transformadora. Não foi apenas membro, mas construtor de caminhos, referência moral e líder respeitado.

Foi um dos grandes pilares da Loja Acácia de Coxim, fundada em 1978, ajudando a erguer não apenas uma instituição, mas um verdadeiro centro de fraternidade, união e progresso. Sua atuação contribuiu decisivamente para que a Loja se tornasse a maior da região norte do Estado, formando gerações de homens comprometidos com o bem coletivo. José Adelino tornou-se, assim, um dos grandes nomes da Maçonaria sul-mato-grossense, deixando um legado de retidão, benevolência e sabedoria.

Paralelamente à vida institucional, destacou-se como empreendedor visionário. Com coragem e espírito inovador, fundou o grupo Casas Brilhante, que se expandiu por diversos segmentos comerciais. Foram lojas, empresas, escritórios e dezenas de iniciativas que geraram emprego, renda e dignidade para centenas de famílias. Para ele, o crescimento econômico só fazia sentido quando vinha acompanhado de responsabilidade social.

Mesmo com tantas conquistas, jamais buscou glória pessoal. Ajudava em silêncio, aconselhava com humildade e estendia a mão sem esperar aplausos. Sua vida foi dedicada ao desenvolvimento de Coxim, ao fortalecimento da família, ao cuidado com os menos favorecidos e à construção de uma sociedade mais justa e humana.

Após mais de cinco décadas de dedicação à cidade, José Adelino de Carvalho encerrou sua caminhada terrena em 2 de julho de 2006. Mas sua partida não apagou sua presença. Pelo contrário: transformou-o em memória viva.

Zelão permanece nas instituições que ajudou a fundar, nos negócios que impulsionaram a economia local, nos ensinamentos transmitidos, nos valores perpetuados e na gratidão silenciosa de uma cidade inteira. Ele não apenas viveu em Coxim ele ajudou a escrevê-la.

E enquanto houver quem acredite na fraternidade, na fé, no trabalho honesto e no amor ao próximo, o nome de José Adelino de Carvalho continuará ecoando como exemplo e inspiração, atravessando o tempo e iluminando gerações.

 

Zelão, raiz de uma cidade

Há homens que passam leves,
como vento que não ficou.
E há os que fincam raízes
onde o coração plantou.
Zelão foi desses raros,
feito chão, ponte e clarão,
homem simples, alma grande,
nome eterno em Coxim: José Adelino de Carvalho, o Zelão.
Veio cedo da dureza,
da infância sem proteção,
aprendeu com a dor da perda
a força da superação.
Do Piauí trouxe valores,
na mala, fé e dignidade,
e fez do próprio destino
um ato de humanidade.
Nos garimpos, entre pedras,
não buscou só o metal,
lapidou caráter e coragem,
fez do suor seu capital.
Onde chegava, deixava
respeito, liderança e união,
pois quem anda com verdade
carrega luz na direção.
E foi Coxim que o chamou,
feito abraço definitivo,
não apenas como morada,
mas projeto de vida e sentido.
Aqui plantou seus sonhos,
aqui escolheu ficar,
e a cidade, agradecida,
aprendeu com ele a crescer e prosperar.
Construiu família como quem ergue altar,
com Dona Fioca, amor sereno,
companheira de vida inteira,
porto seguro, laço pleno.
Nos filhos, deixou o exemplo,
nos netos, a continuidade,
pois quem ama com retidão
vira herança de eternidade.
Na Maçonaria foi farol,
mestre do bem e da razão,
fez da fraternidade um gesto,
do silêncio, uma lição.
Ergueu templos de valores,
não só paredes ou chão,
mas homens melhores,
comprometidos com a evolução.
Empreendeu sem esquecer
que riqueza maior é servir,
gerou trabalho, abriu portas,
ensinou que prosperar é repartir.
Nunca buscou aplauso ou palco,
preferia ajudar em segredo,
pois grande é quem estende a mão
sem pedir nada em retorno ou medo.
Quando partiu, não foi ausência,
foi semente espalhada no chão.
Zelão virou rua, virou história,
virou alma de toda uma geração.
Está nos negócios que seguem,
nas instituições que resistem,
na gratidão silenciosa
dos que por ele hoje existem.
Coxim cresceu com seus passos,
aprendeu com seu olhar,
e enquanto houver fé e trabalho,
seu nome vai ecoar.
Porque há homens que não morrem,
apenas mudam de lugar:
vivem na memória do povo,
e no amor que sabem deixar.



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