Logo Diário do Estado

Saúde Mental

O tempo pede passagem: ritos e saúde mental

22 DEZ 2025 • POR Renan Maia • 15h08
  Bithinraj Mb/Unsplash

Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi

O final de ano não chega de mansinho. Ele bate à porta trazendo uma mala pesada de lembranças, balanços, afetos e expectativas. É quase impossível atravessar dezembro ileso: somos convidados, às vezes obrigados, a olhar para trás, rever escolhas, medir perdas e conquistas, recalcular rotas. Natal e Ano Novo, mais do que datas no calendário, funcionam como verdadeiros ritos de passagem, marcadores simbólicos que organizam o tempo e sobretudo, a nossa vida psíquica.

Na psicologia, o tempo não é apenas cronológico; ele é vivido. Esses marcos coletivos nos ajudam a dar sentido à experiência humana, criando a sensação de fechamento e recomeço. Ao brindar a virada do ano, não celebramos apenas doze meses que se foram, celebramos a possibilidade simbólica de continuar, de mudar, de reescrever a própria história.

Natal e Ano Novo cumprem uma função essencial: organizam o tempo. Eles nos oferecem pausas ritualizadas para reflexão, reconexão e elaboração emocional. É como se a vida dissesse: “pare um pouco, olhe para si, para os seus, para o que ficou e para o que ainda pode vir”.

Não à toa, essas datas despertam sentimentos intensos: alegria, tristeza, saudade, culpa, esperança. Elas nos colocam diante das nossas relações familiares, das ausências que doem, das presenças que sustentam e também, daquilo que não fomos ou não conseguimos ser. Carl Jung já apontava que os rituais têm a função de dar forma ao invisível, ajudando o inconsciente a elaborar transições internas que, sem símbolos, ficariam à deriva.

Nossa sociedade sempre foi marcada por ritos: nascimento, batismo, formatura, casamento, chegada à vida adulta, aposentadoria, luto. Cada um deles sinaliza uma mudança de papel, de identidade, de lugar no mundo. São momentos em que o indivíduo deixa algo para trás para assumir algo novo.

O psicólogo Erik Erikson descreveu o desenvolvimento humano como uma sequência de “crises” psicossociais. Os ritos ajudam justamente nisso: orientam o fim de uma etapa e legitimam o início de outra. Sem eles, as transições ficam confusas, mal elaboradas, muitas vezes silenciosas e o silêncio, em saúde mental, costuma cobrar um preço alto.

Vivemos tempos acelerados, hiperprodutivos e cada vez mais individualizados. Muitos ritos foram esvaziados, terceirizados ou transformados em eventos rápidos, estéticos, quase performáticos. Outros simplesmente desapareceram. Crescer virou obrigação, envelhecer virou tabu, sofrer virou fraqueza.
A perda dos ritos empobrece a experiência emocional coletiva. Sem eles, faltam espaços simbólicos para o luto, para a celebração, para o reconhecimento das mudanças internas. Isso pode gerar sentimentos de desorientação, ansiedade, vazio existencial e dificuldade em lidar com perdas e transformações. Não é coincidência que vivamos uma epidemia de sofrimento psíquico justamente em uma sociedade que desaprendeu a parar, a marcar, a elaborar.

Os ritos de passagem nos ensinam algo essencial: toda mudança precisa ser atravessada, não ignorada. Eles nos convidam à presença, ao pertencimento e ao cuidado: consigo e com o outro. Mesmo quando os ritos tradicionais enfraquecem, podemos criar rituais pessoais e familiares: escrever uma carta de despedida para o ano que termina, reunir pessoas significativas, nomear perdas, celebrar pequenas conquistas, permitir-se sentir.

Como diria Viktor Frankl, o ser humano não busca apenas felicidade, mas sentido. Os ritos são pontes simbólicas que nos ajudam a encontrar esse sentido nas transições inevitáveis da vida.

Que o fim de ano não seja apenas uma virada no calendário, mas uma travessia consciente. Porque, no fundo, quando o ano vira, somos nós que estamos tentando (mais uma vez) virar outra coisa, outro eu.