Logo Diário do Estado

Orgulhos Coxinenses

Padre Micael: a missão vivida com amor, a fé que fez morada em Coxim e alcançou o mundo

22 DEZ 2025 • POR Glenda Melo • 15h02

Há sacerdotes que passam por uma cidade. E há aqueles que se tornam parte dela. Padre Micael Carlos Dreach Andrejzwsk pertence à segunda categoria: a dos homens que chegam como enviados, mas permanecem como família.

Natural do Rio Grande do Sul, foi em Coxim que ele construiu uma relação profunda, verdadeira e duradoura com a comunidade católica e com a cidade como um todo uma relação marcada por amor à missão, cuidado com as pessoas e dedicação integral ao próximo.

Entre os anos de 2010 e 2017, à frente da Catedral São José, padre Micael não apenas exerceu um cargo pastoral: ele viveu plenamente sua vocação. Seu sacerdócio em Coxim foi guiado por um princípio simples e poderoso amar as pessoas como elas são e caminhar com elas onde quer que estivessem. Esse amor pela missão transparecia em cada gesto, em cada palavra, em cada presença silenciosa quando não havia palavras a serem ditas.
Padre Micael acredita profundamente que ser padre é, antes de tudo, cuidar. Cuidar da fé, mas também das feridas invisíveis; cuidar das famílias, dos jovens, dos idosos; cuidar de quem sofre, de quem duvida e até de quem se afastou. Sua porta esteve sempre aberta. Seu olhar, sempre atento. Seu coração, sempre disponível. Foi assim que conquistou algo raro e precioso: o respeito genuíno do povo.

Em Coxim, ele não construiu apenas uma trajetória pastoral construiu amizades. Fez irmãos e irmãs de caminhada. Criou laços que ultrapassaram o espaço da igreja e se estenderam para a vida cotidiana. Amigos que hoje guardam lembranças de conversas profundas, conselhos discretos, risadas simples e momentos de partilha que jamais se apagaram. Padre Micael soube ser autoridade sem jamais perder a humildade, liderança sem jamais abrir mão da escuta.
Seu amor pela comunidade católica coxinense era visível. Cada celebração era preparada com zelo; cada palavra, dita com consciência; cada gesto, carregado de significado. Ele conhecia o nome das pessoas, suas histórias, suas lutas. Não via a paróquia como uma instituição distante, mas como um corpo vivo, feito de gente real, com dores reais e esperanças verdadeiras.

No centro de toda essa caminhada está o amor de Cristo, fundamento maior da missão e da vida comunitária. Um amor que não divide, mas une; que não exclui, mas acolhe; que não impõe, mas ensina pelo exemplo. A experiência de fé vivida em comunidade revela a importância da união, do respeito mútuo e do compromisso coletivo com o bem comum. Quando uma comunidade caminha como unidade, fortalece seus laços, transforma diferenças em aprendizado e se torna sinal vivo do Evangelho no mundo. É nesse espírito de comunhão, fraternidade e cuidado recíproco que a Igreja se faz presente, não como estrutura distante, mas como casa aberta, onde cada pessoa encontra dignidade, esperança e sentido

Esse modo de viver o sacerdócio fez com que sua partida, em 2017, deixasse um vazio sentido até hoje. Coxim não se despediu apenas de um padre, mas de um amigo, de um pastor presente, de alguém que havia se tornado parte da identidade espiritual da cidade. A saudade ficou e permanece. Uma saudade serena, misturada com orgulho e gratidão.
Ao partir para o Vaticano, padre Micael levou consigo muito mais do que malas e livros. Levou a experiência viva de uma Igreja construída no contato direto com o povo. Em Roma, iniciou os estudos da língua italiana e ingressou no curso de Direito Canônico na Pontifícia Universidade Lateranense, uma das mais tradicionais instituições acadêmicas da Igreja Católica. Ali, novamente, destacou-se pela dedicação e excelência, concluindo o mestrado em 2020 e o doutorado em 2021.

Sua sólida formação acadêmica reflete a mesma seriedade com que sempre viveu sua missão pastoral. Graduado em Turismo pela UNIDERP em 2006, pós-graduado em Cultura e Meios de Comunicação pela PUC-SP em 2008, bacharel em Teologia com dupla titulação pela PUC-SP e pela UFRGS, padre Micael sempre acreditou que a fé precisa dialogar com o mundo, com a cultura, com a comunicação e com os desafios do tempo presente.
Mas, mesmo alcançando espaços acadêmicos e institucionais de grande relevância, nunca se distanciou da essência do sacerdócio: servir. Em 2019, atuou como assistente do Sínodo da Amazônia, um dos eventos mais importantes da Igreja na América Latina, marcado pela escuta, pela defesa da vida, dos povos originários e da Casa Comum. Em 2022, por nomeação do Vaticano, integrou a delegação da Santa Sé no 9º Fórum Mundial da Água, em Dakar, no Senegal, levando a voz da Igreja a um debate essencial sobre dignidade humana e justiça social.

Hoje, residindo em Berna, capital da Suíça, padre Micael continua cumprindo sua missão com a mesma dedicação que marcou sua passagem por Coxim. Atua em funções acadêmicas e eclesiais, constrói pontes entre culturas e permanece fiel ao chamado de cuidar do próximo não importa em que país esteja. A geografia mudou, mas o coração pastoral permanece o mesmo.
Recentemente sua caminhada ganhou um momento profundamente simbólico: um encontro pessoal com o Papa Leão XIV, no Vaticano. Um encontro marcado pela emoção, pelo reconhecimento e pela renovação da missão. Para padre Micael, estar frente a frente com o Santo Padre reforçou o compromisso com uma Igreja mais humana, mais próxima e mais atenta aos desafios do mundo contemporâneo.

Para Coxim, esse encontro representou mais do que uma notícia: representa a confirmação de que aquele padre simples, próximo e humano que passou pela Catedral São José leva consigo, até hoje, os valores aprendidos junto ao povo coxinense. É motivo de orgulho saber que um sacerdote tão querido aqui segue sendo referência lá fora.
Padre Micael é a prova de que o verdadeiro tamanho de uma pessoa não está nos cargos que ocupa, mas na forma como cuida dos outros. Seu legado em Coxim é feito de respeito conquistado, de saudade deixada e de amor vivido sem reservas. Um legado que não se apaga com o tempo, porque está inscrito na memória, na fé e no coração de uma cidade inteira.

Esta homenagem é o abraço simbólico de Coxim naquele que foi, é e sempre será um de seus padres mais queridos. Um homem que viveu e continua vivendo sua missão com amor, entrega e profunda fidelidade ao Evangelho.