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Coxim vira cenário de cinema com gravações do curta "Carne Amarela" e protagonismo local

10 DEZ 2025 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 11h33
  divulgação

Coxim vai, mais uma vez, se transforma em palco de histórias que nascem da própria terra. Nas próximas semanas começam as filmagens do curta-metragem de ficção “Carne Amarela”, produção totalmente realizada no município, com elenco formado majoritariamente por moradores da cidade e uma equipe técnica composta, em sua maioria, por profissionais coxinenses.

O filme é dirigido e roteirizado por Gleycielli Nonato Guató, natural de Coxim, e produzido por Marcus Teles, também nascido no município. A obra parte de textos literários da própria diretora o poema Carne Amarela e o conto: É Tempo de Ouro no Cerrado para revisitar memórias da infância vivida entre o rio, a mata, os quintais e os frutos do Cerrado, especialmente o pequi, elemento simbólico da narrativa.

Segundo Gleycielli, o projeto é a realização de um sonho antigo. “Planejei muito trazer esse filme para Coxim. É emocionante gravar na cidade onde cresci, com pessoas da terra e artistas que fazem parte dessa história. Mais de 90% do elenco é daqui, além de grande parte da equipe. É um sentimento de pertencimento muito forte”, afirma.

“Carne Amarela” propõe um reencontro com uma cidade marcada pela convivência íntima entre o urbano e o rural, quando a paisagem era composta por quintais cheios de frutos, brincadeiras ao ar livre e caminhadas em busca de pequi, ingá, goiaba e caju.

“A Coxim da minha infância era meu ‘Sítio do Picapau Amarelo’. Muitos dos lugares onde eu brincava viraram bairros. O filme é um lembrete do que ainda existe e do que não pode desaparecer”, explica a diretora, ao destacar o caráter afetivo e também educativo da produção.

No centro da história está o pequi apresentado como símbolo de resistência, cultura e sustento. “O pequi já alimentou muitas famílias, trouxe renda e nutrição. Ele resiste ao fogo e ao tempo, mas não ao machado. O filme quer despertar esse sentimento de pertencimento e cuidado com aquilo que sustentou e ainda sustenta Coxim”, reforça Gleycielli.

A personagem principal, Zoraide, representa a força das mulheres da região. Inspirada em familiares da diretora como mãe, tias, avó e bisavó, a personagem será interpretada por Maria Agripina, mãe de Gleycielli e considerada uma das pioneiras do teatro coxinense.

“É muito emocionante ver minha mãe dando vida a essa personagem que carrega tantas histórias da nossa família e da cidade. Este filme é muito pioneiro dentro de mim”, conta a diretora.

Outro destaque está na equipe: todos os cargos de direção são ocupados por mulheres, fortalecendo a presença feminina no audiovisual sul-mato-grossense. O time técnico reúne nomes conhecidos da cidade, como Robertson Isan Vieira, artesão ceramista premiado, e José Carlos Soares, cabeleireiro e designer de imagem com ampla experiência.

Além disso, oito moradores de Coxim terão sua primeira vivência profissional no audiovisual. “Queremos abrir portas. Mostrar que o set de filmagem pode ser um caminho possível para jovens da cidade, uma nova profissão e um novo futuro”, afirma o produtor Marcus Teles.

Para Marcus, filmar em Coxim foi mais que uma decisão estética. “Os textos nasceram aqui. A paisagem, a luz, o modo de vida e a presença do pequi fazem parte da essência da história. Gravar no lugar de origem é garantir autenticidade ao filme.”

O mapeamento das locações também seguiu essa lógica do afeto. “Não procuramos cenários artificiais. Reconhecemos nos espaços da cidade aquilo que a história já trazia em essência: o encontro constante entre o urbano e o rural”, destaca.

O elenco contará ainda com a presença especial do ator Breno Moroni, conhecido nacionalmente pelo personagem Mascarado da novela A Viagem e por uma carreira que soma mais de 100 trabalhos no cinema e na televisão. Em “Carne Amarela”, ele participa de seu 101º projeto audiovisual.

“Trazer o Breno aproxima duas forças: a experiência de um ator consagrado com a simplicidade regional que é a alma do filme”, avalia Marcus. Gleycielli também elogia o artista. “Ele transita com facilidade do drama à leveza cômica. É exatamente o duo que a personagem dele exige.”

A produção aborda questões como queimadas, desmatamento e perda de territórios, mas com linguagem sensível voltada também ao público infantil. “As crianças vão compreender o sentimento de perder e o de pertencer. Quando algo pertence a você, nasce a vontade de cuidar”, explica a diretora.

A proposta é despertar reflexão sem perder a delicadeza, reforçando que a preservação do Cerrado começa pelo reconhecimento do valor cultural, afetivo e histórico da terra.

A expectativa é que “Carne Amarela” circule em festivais no Brasil e no exterior, levando o nome de Coxim para além das fronteiras do estado. Para a equipe, no entanto, o principal objetivo é fazer com que a própria cidade se reconheça no cinema.

“Queremos que Coxim se veja com carinho e perceba que suas histórias merecem estar na tela grande. Esse filme é uma celebração da cidade, de suas raízes e da força do Cerrado”, afirma Marcus.

Gleycielli resume o sentimento de retorno: “Sou uma Guató de Coxim. Este filme fala sobre de onde vim e sobre quem sou.”

As gravações começam nos próximos dias. Como uma semente resistente que rompe a casca, “Carne Amarela” nasce para devolver à cidade o brilho do seu fruto mais simbólico aquele que atravessa gerações, alimenta famílias, resiste ao fogo e ensina a permanecer. E Coxim se prepara para ver sua história ganhar som, cor, movimento e tela.

O projeto conta com investimento da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, com execução do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul, via Fundação de Cultura de MS.

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