Saúde Mental
O caso "Vaqueirinho" e a tragédia anunciada da Rede de Atenção Psicossocial
5 DEZ 2025 • POR Renan Maia • 09h08Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi
Recentemente o Brasil parou diante de uma notícia difícil de acreditar: um jovem de 19 anos entra na área de uma leoa em um zoológico de João Pessoa e morre após o ataque do animal. Vídeos circulam, opiniões se dividem, manchetes se repetem... Infelizmente era tudo real. Mas, por trás do choque da cena, existe uma história longa, marcada por abandono, pobreza extrema, transtorno mental grave e falhas sucessivas da rede de proteção.
O jovem se chamava Gerson de Melo Machado, conhecido como “Vaqueirinho de Mangabeira”. Não era apenas “um rapaz que pulou na jaula”, era alguém acompanhado pelo Conselho Tutelar desde os 10 anos, encontrado pela PRF caminhando sozinho na rodovia, vindo de uma família atravessada por sofrimento psíquico (mãe e avós com diagnósticos de esquizofrenia) e vivendo em vulnerabilidade severa.
Cresceu em abrigos, perdeu o vínculo jurídico com a mãe, viu irmãos serem adotados enquanto ele ficava. Não porque “valesse menos”, mas porque já apresentava comportamentos e sinais de transtorno mental que assustam quem procura “crianças perfeitas” para adotar.
Ao longo da adolescência, acumulou passagens pela polícia, pequenos delitos, idas e vindas entre internações pontuais, CAPS, abrigo, rua, prisão. Autoridades e profissionais relatam que, muitas vezes, ele parecia provocar a própria detenção para ter comida, cama e algum tipo de cuidado. Em uma entrevista, um servidor penitenciário resumiu: “Era uma tragédia anunciada. Sem tratamento contínuo, sem acompanhamento, em plena rua”.
O diagnóstico de esquizofrenia aparece repetido em reportagens e falas de quem o acompanhou (como se isso justificasse tudo e não, não justifica). Junto com isso, um traço constante: o sonho insistente de “domar leões”, de ir à África, de viver com esses animais. Ele já havia tentado acessar a área de um avião, entrando no trem de pouso, numa tentativa de realizar esse “plano”.
Quando finalmente entrou na área da leoa Leona, escalando um muro de cerca de seis metros, ultrapassando grades e descendo por uma árvore, não foi por acaso, nem por distração: Realizar um sonho? Uma ação fruto de um pensamento delirante? Um gesto desesperado de por fim em um sofrimento? Não sabemos o que se passava exatamente em sua mente naquele minuto. O que sabemos é o que se passou nos anos anteriores e é aí que a discussão em saúde mental precisa se concentrar.
Quando o contexto adoece junto é difícil falar de “escolhas” em alguém que cresceu atravessado por: vulnerabilidade social extrema, história familiar de transtornos mentais graves, passagens repetidas por instituições (abrigo, sistema socioeducativo, sistema prisional), diagnóstico de esquizofrenia sem tratamento contínuo e adequado, ruptura de vínculos afetivos estáveis.
Em saúde mental, não existe sujeito isolado do contexto. Um quadro como esquizofrenia, por si só, já representa um enorme desafio: sintomas psicóticos (delírios, alucinações), desorganização do pensamento, perda de contato com a realidade, rebaixamento cognitivo, prejuízo funcional. Quando isso se soma à pobreza, à ausência de família estruturada e a um sistema público fragmentado, o risco de desfechos trágicos aumenta muito.
No caso de Gerson, vemos algo que infelizmente não é exceção: pessoas com transtornos mentais severos circulando entre rua, cadeia e internações pontuais, sem projeto de cuidado de longo prazo, sem moradia assistida, sem equipe de referência que segure o fio da história. Longe de ser uma crítica apenas as instituições, a questão é como nos acostumamos a tratar saúde mental como algo em segundo plano, como algo marginal (a margem da sociedade), como aquilo que deve ser escondido.
É sempre delicado falar de diagnóstico quando a pessoa não está mais viva para ser ouvida. Então, o que temos são relatos de profissionais e documentos públicos: esquizofrenia, histórico de uso problemático de substâncias psicoativas em alguns momentos, comportamento de risco, episódios de fuga, atos infracionais, possível comorbidade com outros transtornos do neurodesenvolvimento. Isso tudo não define quem ele era, mas explica parte do cenário interno em que suas decisões ocorreram.
Um ponto chama atenção: a fixação pelo tema dos leões, pela ideia de domar esses animais, viajar para a África, viver em safáris. Não dá para saber, à distância, se esse conteúdo fazia parte de um delírio estruturado, de uma fantasia grandiosa típica da juventude ou de uma mistura das duas coisas. O fato é que esse “sonho” acompanhou Gerson por anos, aparecendo em conversas com conselheiros tutelares e profissionais.
Quando alguém com transtorno mental grave transforma uma ideia fixa em ação (ainda mais arriscada e incompatível com a autopreservação) temos um indicativo de sofrimento agudo, desorganização psíquica importante e possivelmente falhas de contenção prévias.
O que falhou antes do muro do zoológico? A política de saúde mental parece ter ficado pela metade: houve encaminhamento a CAPS, mas não houve adesão nem continuidade. Para alguém com esquizofrenia e vulnerabilidade social, isso não é surpresa: adesão exige equipe insistente, abordagem ativa, busca no território.
A política de assistência social o acolheu na infância, mas não o sustentou na transição para a vida adulta. Ao completar 18 anos, ele, como tantos, “envelheceu para o sistema”, saiu do abrigo sem apoio robusto e caiu num limbo entre a proteção da infância e a dureza das instituições penais.
O sistema de justiça chegou a determinar internação psiquiátrica pouco tempo antes da morte, mas a intimação não chegou a tempo. Enquanto o papel circulava, a vida seguia sem cuidado. O sistema prisional o recebeu como “caso de polícia”, quando grande parte de sua história é, antes de tudo, um caso de saúde mental e de proteção social.
Nenhuma dessas instâncias, isoladamente, “culpada”. Mas a soma das brechas produziu um cenário em que um jovem de 19 anos, com alto risco, circulava sem suporte e podia escalar um muro de seis metros em um parque público sem que nada antes tivesse, de fato, mudado seu destino.
Como psicólogo, não olho para esse caso pensando em “culpa da leoa”, “culpa do zoológico” ou “culpa da vítima”. Olho pensando em rede. Quando falamos em saúde bio-psico-socio-cultural, é disso que estamos falando:
• Bio: um cérebro adoecido, com esquizofrenia, possivelmente associado a outras fragilidades médicas.
• Psico: uma história subjetiva de rejeição, não adoção, sensação de não pertencimento, sonhos grandiosos que talvez funcionassem como fuga de uma realidade insuportável.
Sócio: pobreza extrema, ruas, prisões, instituições, rotatividade de cuidadores, falta de moradia, falta de emprego.
Cultural: um país que ainda associa loucura a periculosidade, que terceiriza o cuidado para poucas instituições sobrecarregadas e que reage ao sofrimento grave mais com medo e piada do que com política pública.
Se queremos evitar desfechos como esse, não adianta colocar mais muros apenas. É preciso construir pontes: entre saúde, assistência, justiça, educação, sistema prisional... Isso passa por: CAPS e RAPS fortalecidos: acompanhamento intensivo para pacientes graves e persistentes, projeto terapêutico singular integrando outros dispositivos da rede.
Ambulatório de saúde mental: estruturado, capaz de agir enquanto os quadros ainda são leves ou de menor complexidade, assistência continuada após estabilização. programas de moradia assistida e trabalho protegido para pessoas com transtornos mentais severos; articulação séria entre Conselho Tutelar, Vara da Infância, CRAS/CREAS e CAPS na transição de adolescentes para a vida adulta; formação continuada para escolas, abrigos e prisões reconhecerem sinais de descompensação psíquica e acionarem cuidado, não só punição; políticas que tratem segurança pública e saúde mental como temas que se cruzam e muito.
Talvez nunca saibamos exatamente o que passou pela cabeça de Vaqueirinho nos minutos em que escalou aquele muro. O mínimo que podemos fazer, diante dessa história, é não reduzi-la a “loucura”, “idiotia” ou “coragem”. Ela é, sobretudo, um espelho do quanto ainda precisamos avançar em cuidado, em rede e em responsabilidade coletiva.
