Orgulhos Coxinenses
Dr. Pedro Honda: o médico que transformou cuidado em amor e fez de Coxim sua missão de vida
5 DEZ 2025 • POR Glenda Melo • 09h04Coxim nunca se esqueceu daquele sábado, 26 de junho de 2021. Em meio a um dos períodos mais dolorosos da história recente a pandemia da Covid-19 a cidade perdeu não apenas um médico, mas um amigo coletivo, um homem que dedicou mais de três décadas à missão silenciosa e diária de cuidar de vidas. O falecimento de Dr. Pedro Honda, aos 61 anos, após uma semana internado e intubado no Hospital da Unimed, em Campo Grande, ecoou como um luto compartilhado por toda a comunidade. Para Coxim, Dr. Pedro não foi apenas um profissional da saúde. Ele foi presença constante nas casas, nas histórias de famílias inteiras, nos corredores da antiga Santa Casa, nas conversas tranquilizadoras de consultório e nos inúmeros momentos de esperança construídos à beira de um diagnóstico. Foi um homem que escolheu esta cidade como lar não por acaso, mas por afinidade, por vocação e por amor à gente simples do interior, de voz baixa, sempre educado e de fala mansa e amorosa conquistou o coração dos coxinenses.
Ali construiu sua vida ao lado da esposa, Neide Honda seu grande amor e parceira também médica. Juntos, formaram não apenas uma família com três filhos, mas uma verdadeira dupla de resistência na saúde pública local, especialmente nos tempos em que o atendimento médico era escasso e as dificuldades estruturais impunham desafios diários.
Dr. Pedro era generalista e ortopedista, especialidade que o fazia atender desde quedas comuns de idosos até acidentes graves, dores crônicas e limitações físicas que ameaçavam a autonomia de tantos pacientes. Mas, para ele, cada consulta começava muito antes do exame físico. Começava pela palavra, e como ele amava acolher e trazer tranquilidade para cada paciente que atendia.
Seu consultório, localizado na região central de Coxim, era famoso não pelo luxo, mas pela atmosfera acolhedora. Ali se entrava angustiado e se saía aliviado, muitas vezes somente por ter sido ouvido. Pedro gostava de conversar longamente com seus pacientes. Perguntava da família, do trabalho, dos medos e da rotina. Criava vínculos. Sabia que a cura começa quando alguém se sente visto e respeitado.
A tranquilidade com que atendia era tamanha que nem sempre o relógio dava conta de acompanhar suas boas intenções. Era comum que as secretárias precisassem interromper as consultas para lembrar da fila de pacientes à espera. E ele sempre reagia com aquele sorriso sereno, pedindo mais alguns minutos para concluir alguma história ou explicar com calma cada detalhe de um tratamento.
Dr. Pedro tinha uma relação especialmente forte com os idosos de Coxim. Muitos o chamavam de “meu médico”, como se fosse alguém da família. Ele tinha paciência rara: explicava, repetia, desenhava, escrevia à mão instruções detalhadas para garantir que ninguém saísse sem compreender completamente o que precisava ser feito.
Mais do que tratar dores no corpo, tratava solidões ocultas. Para muitos idosos, a consulta era também um momento de conversa, de atenção verdadeira, de escuta sem pressa. E ele nunca negava esse carinho silencioso que se transformava em vínculo.
Um dos capítulos mais marcantes de sua trajetória foi o período em que, ao lado da esposa Neide, sustentou praticamente sozinho a antiga Santa Casa de Coxim. Na época, a unidade enfrentava grandes dificuldades, com poucos médicos dispostos a assumir os plantões. Enquanto muitos se afastavam, o casal Honda fazia exatamente o contrário: aproximava-se ainda mais da população.
Eles se revezavam nos atendimentos emergenciais, atendendo casos graves, partos de urgência, fraturas, infecções e situações limite em que a vida dependia de decisões rápidas. Noites em claro tornaram-se rotina. Feriados deixaram de existir. O descanso era sempre adiado, porque alguém precisava estar ali.
Em determinado momento da vida, Dr. Pedro enfrentou um duro desafio: precisou passar por um transplante após enfrentar complicações graves de saúde. Seria compreensível que diminuísse o ritmo ou mesmo interrompesse temporariamente sua atividade profissional. Mas ele não sabia ou não conseguia viver longe de seus pacientes.
Amigos relatam que, enquanto se recuperava, Pedro contava os dias para voltar a trabalhar. Sonhava em retomar a rotina de atendimentos como quem sente falta de algo essencial à própria essência. Para ele, cuidar era mais que profissão era necessidade vital.
Voltou ao trabalho com a mesma dedicação de sempre, respeitando as limitações do corpo, mas mantendo intacta a grandeza do coração.
Em 2021, durante o auge da pandemia, o vírus encontrou aquele que durante décadas havia combatido doenças com mãos firmes e palavras tranquilizadoras. Internado em Campo Grande, Dr. Pedro lutou com a coragem de quem nunca desistiu de ninguém, mas desta vez, não houve vitória médica, e o Dr. dos idosos descansou.
Faleceu após uma semana na UTI, deixando familiares, colegas, amigos e toda uma cidade mergulhada em profunda comoção. Coxim sentiu o baque de sua partida e a cidade silenciou em forma de respeito e gratidão ao Dr. do amor.
Por conta das restrições sanitárias, não houve velório, o povo coxinense e, os amigos e seus pacientes não puderam dar o último adeus ao Dr. que se tornou amigo. O corpo seguiu para Araraquara, sua terra natal. Mas Coxim fez sua despedida de outra forma: em orações silenciosas, mensagens emocionadas nas redes sociais, homenagens improvisadas e lágrimas discretas nas calçadas.
Dr. Pedro Honda deixou sua grande companheira de vida e profissão, três filhos e incontáveis histórias. Deixou também um legado imaterial, que não cabe em diplomas nem em currículos: o exemplo de uma vida completamente dedicada ao próximo.
Em Coxim, há gerações de crianças ajudadas por ele; adultos reabilitados; idosos confortados. Cada pessoa guarda uma lembrança: a maneira gentil de falar, a escuta cuidadosa, o toque respeitoso no ombro como quem dizia, sem palavras: “Você não está sozinho”.
Hoje, ao caminhar pela cidade, é difícil encontrar alguém que não tenha uma história ligada a Dr. Pedro Honda. Seu nome é citado em rodas de conversa, nas mesas de família, nas lembranças de pacientes que o consideravam quase um parente.
Porque existem médicos e existem médicos que mudam uma cidade inteira. Dr. Pedro pertence ao segundo grupo.
Ele não está mais fisicamente em Coxim, mas permanece presente na memória coletiva, nos gestos inspirados que deixou como herança e na certeza de que amar pessoas também é uma forma de curar.
Pedro Honda não partiu: ele se espalhou na história da cidade que escolheu viver, servir e amar: MUITO OBRIGADA POR TUDO DR. PEDRO HONDA!!!!
