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Saude Mental

O silêncio dos homens: enquanto o mundo cobra força o corpo pede socorro

20 NOV 2025 • POR Renan Maia • 09h56
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Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi

Há um padrão que aparece com frequência no consultório — tão frequente que quase passa despercebido. Homens que chegam dizendo que “não sabem exatamente o que está acontecendo”. Não chamam de tristeza. Não chamam de ansiedade. Dizem apenas: “tô estranho”, “tô ficando diferente”, “não sei mais quem eu sou”. Quando começam a falar, uma frase se repete: Eu nunca falei sobre isso com ninguém.

Falar sobre saúde mental dos homens é falar sobre um silêncio que atravessa gerações. Não é sobre culpar a criação, mas entender o que ela produz. Muitos homens cresceram ouvindo versões diferentes da mesma ideia: “engole o choro”, “seja forte”, “homem não vacila”, “não demonstre fraqueza”. A consequência disso não é um homem mais forte, é um homem mais só. A herança emocional de quem precisou aprender a suportar tudo.

Homens, em geral, foram treinados para lidar com sofrimento pela via do fazer e não do sentir. Quando a vida aperta, produzem mais, bebem mais, se calam mais, se isolam mais. Enquanto isso, os sintomas se reorganizam para caber nesse silêncio: irritabilidade, explosões de raiva, insônia, dores no corpo, perda de interesse, problemas de concentração, vícios, compulsões.

É depressão se manifestando como hostilidade ou raiva; a  ansiedade se apresentando como agitação ou necessidade de atividades constantes; É medo aparecendo disfarçado de indiferença ou distanciamento.

E o mais cruel: muitos só pedem ajuda quando o corpo para, quando o casamento já ruiu, quando já não consegue mais ir ao trabalho, quando a vida perdeu qualquer sentido. Não por falta de sensibilidade, mas porque passaram a vida inteira acreditando que sentir, ou melhor falar sobre o que sente, era sinal de fraqueza.

A pressão social é que muitas vezes molda e adoece cada um de nós. A saúde mental dos homens não se esgota nas histórias individuais. Ela é atravessada por expectativas sociais rígidas: performance, sucesso, sustentar financeiramente, liderar sem falhar, não demonstrar dúvidas... Homens são cobrados de ser porto seguro enquanto raramente têm onde se segurar ou sem ter sido ensinados como ser.

E quando falamos desse assunto, é preciso lembrar que existe um índice doloroso por trás do silêncio: a taxa de suicídio entre homens é significativamente maior que entre mulheres. E isso nunca pode ser analisado sem considerar o quanto eles evitam pedir ajuda ou expressar sofrimento. Não à toa, são o recorte da população que menos procuram os serviços de saúde de modo geral.

E se os homens já carregam expectativas sociais antigas, as redes sociais adicionam outra camada: comparações silenciosas. Carreiras, corpos, estilo de vida, relacionamentos perfeitos. É como se a régua estivesse sempre um pouco acima e ninguém admite que não está conseguindo alcançar.

Da clínica vejo quando o silêncio finalmente encontra voz. Quando um homem se permite falar, o que aparece quase sempre é algo como: medo de não ser suficiente, culpa por não corresponder às expectativas, cansaço de sustentar uma mascara, dificuldade ou confusão para conseguir nomear emoções básicas, vontade de descansar mas sem saber do que.

Infelizmente homens não costumam procuram terapia para “se conhecer melhor”, eles procuram para sobreviver. E quando encontram um espaço onde podem tirar a armadura e baixar a guarda algo importante acontece: aquilo que incomodava sem sentido, começa a ser compreendido. E a angustia de sofrer sem ter por  quê, dá lugar a esperança da melhora através do tratamento.

Não há solução mágica, mas há movimentos reais que ajudam:

1. Aprender a nomear o que sente
Ninguém regula o que não reconhece. Se eu não sei sequer identificar o que me adoece, como vou conseguir curar?

2. Pedir ajuda antes do colapso
Ajuda não é prêmio de consolação; é estratégia de vida. Sábio é aquele que sabe mobilizar as ferramentas e pessoas que tem a sua volta.

3. Construir relações onde seja possível ser imperfeito
Muitos homens não precisam de mais conselhos e sim de espaços onde possam existir sem o peso de não poder errar (ou não conseguir assumir os erros).

4. Revisar as expectativas internas
É obrigação ser honesto consigo mesmo. Fazer aquilo que está ao alcance, dentro das condições atuais e não o que fulano ou cicrano acha que você devia.

5. Terapia como ferramenta, não como emergência
Terapia não é último recurso. É lugar de reorganizar a vida antes que ela vire poeira.