Saúde Mental
Entre o brilho e o equívoco: o que (quase) ninguém fala sobre a superdotação
7 NOV 2025 • POR Renan Maia • 08h58Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi
De tempos em tempos, um novo “boom” psicológico ocupa as redes, os consultórios e até as conversas nas rodas de amigos. Já foi o TDAH, o Transtorno de Ansiedade, o TEA e agora, parece ser a vez da superdotação.
Tenho visto um número crescente de pessoas se identificando com o termo, pais buscando avaliações para os filhos e vídeos determinando que se você tem “tal” comportamento ou “X” característica, você é superdotado. Mas a pergunta é, será que é assim mesmo?
E, embora o tema seja legítimo e mereça visibilidade, o modo como ele vem sendo tratado levanta um alerta importante: a superdotação não é um rótulo de prestígio ou uma dádiva, mas um fenômeno complexo, que requer seriedade para ser compreendido.
O conceito de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) descreve pessoas com desempenho significativamente acima da média em uma ou mais áreas: intelectuais, artísticas, criativas ou psicomotoras. Em muitos casos aparece a chamada assincronia do desenvolvimento: a cabeça corre em velocidade adulta enquanto o afeto, o corpo e as habilidades sociais ainda estão em fases anteriores. É a criança que debate ética como gente grande e chora feito criança (porque é criança). Em adultos, isso se traduz em pensamento acelerado, hiperfoco, sensibilidade ampliada (sensorial e emocional), intolerância a tarefas do cotidiano...No entanto, esse brilho cognitivo costuma vir acompanhado de desafios emocionais, sociais e por vezes, psíquicos.
Muitos superdotados enfrentam hipersensibilidade (luz, sons, cores...), perfeccionismo, dificuldade de adaptação em grupos e uma sensação constante de deslocamento. É comum ouvirmos: “penso demais, não consigo parar”, “nada parece me satisfazer”, “me sinto cansado”. Ou seja, o potencial elevado não imuniza contra o sofrimento; às vezes, até o intensifica. Além disso, não é raro que casos de altas habilidades sejam acompanhados de outros diagnósticos, complexificando ainda mais o quadro e dificultando o diagnóstico.
Com a ampliação do termo neurodivergência, que abarca condições como o TDAH, o TEA e a própria AH/SD, o debate ganhou força e também simplificações perigosas. Nas redes, é comum ver a superdotação sendo romantizada, tratada como uma espécie de “dom” ou superpoder. Vídeos com listas de sinais “incompreendidos” que indicam superdotação, postagens dizendo “se você consegue fazer determinada coisa, talvez seja superdotado” e até cursos prometendo “descobrir seu potencial oculto” têm se multiplicado. Mas é preciso dizer com clareza: superdotação é diagnóstico clínico e educacional, não autodeclaração.
Assim como qualquer outra condição neuropsicológica, o diagnóstico de AH/SD demanda avaliação multiprofissional que envolve psicólogos, neuropsicólogos, pedagogos e em alguns casos, neurologistas e psiquiatras. Testes padronizados, observações comportamentais, entrevistas e análise do contexto escolar e familiar são partes indispensáveis desse processo. A pressa em rotular uma criança (ou a si mesmo) pode ser tão danosa quanto o silêncio sobre o tema.
E é aqui que mora o perigo: diagnósticos mal conduzidos geram expectativas e frustrações que podem marcar uma vida inteira. Crianças rotuladas como superdotadas sem realmente serem podem carregar um fardo pesado, a ideia de “ter que ser brilhante sempre” ou se exigir mais do que realmente pode entregar. Já as que realmente têm altas habilidades, mas não recebem o suporte adequado, acabam perdendo o engajamento, adoecendo emocionalmente e muitas vezes, desenvolvendo quadros de ansiedade, depressão ou baixa autoestima. Entre o excesso e a completa omissão, há sempre o prejuízo.
Na clínica, tenho percebido o quanto as redes sociais influenciam nesse fenômeno e na forma como as pessoas se percebem. É claro que elas ajudam a informar, mas também a distorcer. Quando conceitos complexos são traduzidos em linguagem “instagramável” corremos o risco de transformar sofrimento em engajamento e diagnósticos em tendências. E o que deveria promover acolhimento acaba gerando confusão, comparações e novas formas de exclusão.
O trabalho da psicologia é oferecer compreensão e ajudar as pessoas a viverem melhor dentro de suas condições. Diagnosticar não é nomear por moda, mas reconhecer com responsabilidade o que está acontecendo na mente e na vida de alguém. A superdotação, como qualquer outra condição humana, exige responsabilidade ao ser tocada.
