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Saúde Mental

O luto e seus caminhos possíveis

5 SET 2025 • POR Gessica Oliveira • 09h06
  cicloassist.com

Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi


Escrevo este texto após mais uma sessão onde as lágrimas falaram mais do que as palavras. O luto é assim: não segue roteiro, não respeita prazos e não se cura com frases prontas. É uma travessia dolorosa, mas também profundamente humana, que nos convida a reconstruir significados quando a vida nos apresenta uma ausência.

No entanto, muitas vezes sentimos a pressão de “superar logo” ou de “voltar à rotina” sem demonstrar a dor, principalmente hoje onde o tempo é o tempo do relógio e onde a vida é a vida “postada”. Esse cenário faz com que o luto seja, não raro, silenciado ou até patologizado, como se sentir tristeza, chorar ou se recolher fossem sinais de fraqueza ou doença. Mas o luto, em sua essência, é saudável: é a forma que nossa mente encontra de se reorganizar diante da ausência, de ressignificar vínculos e seguir adiante, mesmo carregando marcas que antes não estavam ali.

A psicologia já descreveu diferentes fases ou processos do luto como: negação (dificuldade de reconhecer a realidade da perda), raiva (culpar os outros ou a si mesmo), negociação (procurar justificativas para o que aconteceu), depressão (admitir impotência e se resignar) e aceitação (quando se reconhece a perda e consegue dar sentido a vida com o que se tem). No entanto, essas etapas não devem ser vistas como uma sequência rígida ou estática, cada pessoa lida de maneira única, podendo avançar e retroceder entre elas. O mais importante é compreender que sentir dor, estranhamento ou vazio faz parte do processo, apesar de todo o sofrimento ele não durará para sempre, pelo menos, não da mesma forma.

Se permitir expressar as emoções que o luto trás é permitir também que elas passem. Tentar frear ou represar os sentimentos para parecer “forte” tende apenas a adiar um processo que é natural e potencializa o desenvolvimento do luto prolongado ou patológico (esse sim adoecido e não natural). Nesses casos, o luto pode se estender por mais de dois anos e de forma incapacitante, tornando necessário o tratamento psicológico e em alguns casos psiquiátricos, para que a medicação auxilie no controle dos sintomas.

E como lidar com o luto de forma saudável? Alguns caminhos podem ajudar: permitir-se viver a dor, sem pressa de “melhorar”, enquanto volta a rotina de nossa vida; falar sobre quem partiu ou sobre o que sente, até sentir que esgotou o assunto; buscar apoio no circulo social e familiar (assim como rir, chorar junto também é melhor); participar dos rituais simbólicos de despedida como velório, eventos religiosos e visitas ao túmulo; e quando necessário, procurar ajuda profissional para elaborar essa experiência (não como tratamento, mas como suporte).

Nesse processo, familiares e amigos têm um papel fundamental. Mais do que frases prontas de consolo, a presença silenciosa, a escuta empática e o respeito ao tempo de cada um podem ser gestos de cuidado muito mais valiosos. Às vezes, não é sobre “dizer algo certo”, mas simplesmente sobre estar junto, reconhecendo a dor do outro como legítima.

O luto nos ensina que a vida é também feita de perdas, e que atravessá-las não significa esquecer, mas aprender a conviver com a ausência. É um exercício de humanidade, que revela a profundidade de nossos vínculos e a capacidade de reconstruir a vida, ainda que o luto faça parte dela.
 

5 práticas para atravessar o luto com mais cuidado

1. Permita-se sentir: Não esconda ou reprima suas emoções; chorar, se entristecer ou se calar também são formas de viver o processo.


2. Fale sobre quem partiu: Compartilhar lembranças abre espaço para resignificar certas memórias.


3. Busque apoio: Estar próximo de amigos, familiares ou grupos de apoio fortalece o processo de elaboração.


4. Crie rituais de despedida: Uma carta, uma oração, terminar algo que ficou por fazer... Pequenos gestos podem ajudar desbloquear sentimentos que estavam presos.


5. Respeite o tempo: Cada pessoa tem seu ritmo. Não se compare com os outros e procure ajuda profissional se sentir necessidade.