Orgulhos Coxinenses
Isac Zampieri: O artista que transformou a vida em palco e a cultura sul-mato-grossense
5 SET 2025 • POR (Glenda Melo) • 09h23A história de Isac César Nunes Zampieri Cardoso, ou simplesmente Isac Zampieri, é também a história de um pedaço da cultura de Mato Grosso do Sul. Filho de Leonardo Cardoso e Dayse Nunes Zampieri Cardoso, Isac nasceu em Campo Grande, mas carrega no coração a essência de Terenos, terra onde cresceu e descobriu, ainda menino, a força do imaginário e da arte.
Seu primeiro contato com o teatro não veio dos palcos tradicionais, mas do circo. Encantado pelas apresentações que se seguiam ao “globo da morte”, Zampieri entendeu cedo que o choro provocado por uma peça era tão legítimo quanto o riso. Entre brincadeiras no quintal de casa, transformado em picadeiro com lençóis improvisados, Isac ergueu seu primeiro “circo” e aprendeu que a arte é, antes de tudo, invenção e coragem.
A juventude levou-o por cidades como Miranda, Rio Brilhante e Campo Grande. Em cada lugar, um novo estímulo artístico: grupos amadores, professores visionários e a efervescência cultural da época. Nos anos 1980, encontrou no Grupo Teatral Alma de Circo seu primeiro espaço profissional e, a partir daí, nunca mais se afastou completamente dos palcos.
No palco, Zampieri não apenas interpretava personagens: ele provocava, emocionava e fazia do corpo e da voz instrumentos de poesia. Fora dele, sustentava a luta diária de artistas independentes, carregando cenários nas costas, sobrevivendo de pipoca fiada e oficinas de teatro, mas sem nunca abandonar a crença no poder transformador da cultura.
Entre os personagens, festivais e dificuldades, o ator foi acompanhado por amigas e parceiras como Ramona Rodrigues e Conceição Leite, que dividiram não apenas palcos, mas sonhos. Cada apresentação era também uma celebração coletiva da resistência cultural.
Isac não se limita à atuação. Professor, geógrafo por formação e poeta por essência, espalhou sua paixão pela arte em oficinas e intervenções culturais, muitas delas no Centro Cultural Aracy Balabanian, onde formou gerações. Sua atuação extrapola a cena: é uma defesa viva da identidade sul-mato-grossense, da memória coletiva e da capacidade de se reinventar.
Hoje, menos atuante do que nos anos de glória com o TGR e sua própria companhia URUATO Cia Guaicuru de Artes, Zampieri continua presente. Seja em pequenas intervenções poéticas, em projetos como “Águas” e “Caminhos de Ferro”, ou na intenção de remontar o inesquecível “Rubens Artaud”, seu nome permanece ligado à história cultural do Estado.
A trajetória de Isac é, acima de tudo, uma homenagem à persistência artística. É o testemunho de que o teatro sul-mato-grossense existe porque artistas como ele se dedicaram a erguer cenários mesmo quando não havia palco, a emocionar plateias mesmo quando não havia estrutura, a transformar a vida em arte mesmo quando faltava pão na mesa.
Isac Zampieri segue vivo, atuante e resistente. Seu maior papel, talvez, seja esse: o de provar que a cultura de Mato Grosso do Sul é indestrutível quando encontra artistas que a carregam no peito como ele.
Isac, o palco da vida
Nasceu em Campo Grande,
mas o coração bateu em Terenos,
terra que moldou menino,
onde o quintal virou circo
e o sonho aprendeu a ter lonas de lençol.
No brilho do picadeiro improvisado,
descobriu que chorar também era arte,
que um olhar podia ser poema
e um corpo inteiro, personagem.
Caminhou por Miranda, Rio Brilhante,
entre escolas, clubes e praças,
carregando no peito a chama do teatro,
mesmo quando o destino o empurrava
para outras profissões, outras estradas.
Até que os palcos se abriram de vez,
e o Brasil conheceu seu grito,
em “Rubens Artaud” e tantos mais,
onde a voz sul-mato-grossense
ecoou em festivais, prêmios e aplausos.
Isac, artista de mil faces,
professor, poeta, resistente,
carregou cenários nas costas,
dividiu pão e pipoca fiada,
mas nunca deixou de acreditar
que a arte salva, cura e renasce.
Hoje, menos no palco, mas sempre presente,
seu corpo ainda dança memórias,
sua alma ainda sopra poesia,
seu nome já é história,
um patrimônio vivo de Mato Grosso do Sul.
Isac Zampieri,
homem de carne e sonho,
que fez da vida espetáculo,
e do espetáculo, eternidade.
