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Saúde Mental

O ofício de escutar: por que a psicologia importa e para quem

29 AGO 2025 • POR Renan Maia • 09h03
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Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi

 

Peço licença aqui para falar de um assunto que talvez não esteja relacionado diretamente à saúde mental, apesar de fazer parte do tema. Escrevo este texto no dia 27 de agosto, data em que se comemora o Dia do Psicólogo e como já devem imaginar, é sobre essa profissão que quero refletir hoje. Enquanto profissional da área, acredito ser necessário ir além das felicitações formais e pensar com seriedade sobre o papel, os desafios e a relevância do psicólogo no mundo atual.
Vivemos um tempo em que a atenção às dores psíquicas aumentaram, bem como as fontes e fatores de sofrimento psicológico se multiplicam: ansiedade, depressão, síndrome de burnout, adoecimento infantil e sofrimentos sociais atravessam a vida cotidiana em uma intensidade nunca antes tão exposta. Nesse cenário, o psicólogo é chamado a ser mais do que um “reizinho” dentro de seu consultório, ele se torna um agente de escuta, de acolhimento, de crítica social e de promoção de saúde. Nosso trabalho não se restringe à clínica individual: está presente nas escolas, nos hospitais, nas empresas, nos projetos sociais, nas políticas públicas e até nas redes sociais. É um fazer que acompanha a vida em seus múltiplos contextos.


No entanto, falar sobre psicologia hoje também implica enfrentar um fenômeno preocupante: a proliferação de pseudociências e práticas sem embasamento científico que se aproveitam da vulnerabilidade emocional da sociedade. Em tempos de redes sociais, qualquer encenação pode ser nomeada de “terapia” e qualquer frase motivacional pode ser vendida como verdade. Nomes pomposos e difíceis, somados a promessas de curas rápidas são os ingredientes mais comuns dessas práticas duvidosas. Não se trata aqui de uma briga de egos, mas de uma real preocupação com os resultados que uma intervenção psicológica mal feita pode ter, seja pela ineficiência ou pela desestabilização que pode causar. Nesse sentido, cabe uma valorização a psicologia, pautada em um código de ética, em métodos científicos e com um conselho fiscalizador. Quem não tem isso para se preocupar, também não tem isso para oferecer.


Psicologia não é magia, nem slogan motivacional: é método, ética, supervisão, compromisso com evidências e com a singularidade de cada sujeito. Valorizar a profissão é recusar atalhos que colocam vidas em risco e ao mesmo tempo, traduzir o conhecimento para que ele seja útil, sem jargões, sem mistério, sem prometer o que a própria ciência não sustenta.
A psicologia séria não descola a pessoa do seu contexto. Sofrimentos psíquicos não são apenas “processos internos”, eles acontecem no decorrer da vida, na travessia entre sujeito e mundo: na precarização do trabalho, na violência, no racismo, no machismo, na pobreza, na hiperexposição digital, na solidão urbana. Por isso, defender a psicologia él também defender políticas públicas que sustentem a vida.


E aqui entra um ponto incontornável: o acesso. A psicoterapia privada é inviável para muitas famílias e a rede pública, embora potente, ainda é insuficiente. O caminho, portanto passa inevitavelmente pelo INVESTIMENTO, por ampliar psicólogos na Atenção Primária, fortalecer CAPS e ambulatórios, articular matriciamento com equipes de saúde da família, em grupos psicoeducativos, em teleatendimento regulado para ampliar alcance e em letramento em saúde mental nas escolas e comunidade. Quando o cuidado chega cedo e perto, ele é mais barato e mais eficaz sobretudo para quem sempre ficou à margem.


Se me permitem uma síntese do que aprendo no cotidiano ser psicólogo hoje é manter um duplo compromisso. Por um lado, o compromisso íntimo com cada sujeito que nos procura, com sua história, seus limites, seus recursos. Por outro, o compromisso público com a ciência, com a ética e com a defesa do direito de todos a um cuidado digno. Isso implica dizer “não” a práticas sedutoras, mas sem base; implica estudar continuamente; implica supervisionar; implica saber encaminhar; implica reconhecer quando a psicologia não dá conta sozinha e trabalhar junto (psiquiatria, serviço social, terapia ocupacional, pedagogia, enfermagem, justiça, cultura).
No Dia do Psicólogo, a homenagem que me interessa não é o aplauso fácil, mas sim o pacto: cuidar da profissão para cuidar melhor das pessoas. Lutar por políticas que ampliem acesso. Denunciar charlatanismo com firmeza e respeito. Oferecer linguagem e presença a quem só encontrou silêncio. Sustentar a esperança sem prometer milagres. E seguir lembrando que, num mundo que adoece em tantas frentes tão rapidamente, parar para escutar ainda é um ato radical de coragem.