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Sob a Farda e o Silêncio: O Luto Invisível dos Policiais

29 AGO 2025 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 08h45
  glenda melo

Ontem, (28) no auditório da ACIAC, um encontro diferente rompeu o silêncio costumeiro que paira sobre a vida dos profissionais de segurança pública. O workshop “Travessias dos Processos de Luto”, conduzido pela Dra. Karina Okajima e promovido pela SEJUSP, CABS e FNSP, trouxe à tona um tema urgente e ainda pouco debatido: como lidar com a dor, o sofrimento e, sobretudo, as perdas que atingem diretamente aqueles que têm a missão de proteger a sociedade.
Voltado a policiais civis, militares e bombeiros de Coxim, o evento busca quebrar barreiras dentro das corporações. Mais do que um encontro técnico, representa um convite à reflexão sobre a humanidade por trás da farda.
Nos últimos anos, o Mato Grosso do Sul tem registrado um dado perturbador: o aumento dos casos de suicídio entre policiais. Em diferentes balanços, o Estado já figurou entre os que apresentaram a maior taxa proporcional de mortes autoinfligidas dentro da categoria no país. Embora os números absolutos pareçam pequenos, o impacto é devastador cada vida perdida abala famílias, colegas de farda e toda a sociedade.
Em nível nacional, a realidade também é alarmante: o número de policiais que tiram a própria vida já supera o de agentes mortos em confrontos diretos. Esse contraste evidencia uma tragédia silenciosa, que não estampa manchetes de operações ou crimes, mas mina, pouco a pouco, a saúde mental de quem veste o uniforme.
Entre os fatores que ajudam a explicar essa realidade, especialistas apontam a pressão constante do trabalho policial, marcada pela exposição diária à violência, pela sobrecarga emocional e por cobranças institucionais que muitas vezes ignoram o aspecto humano. Soma-se a isso uma cultura de silêncio o preconceito contra a vulnerabilidade.
Nas corporações, onde a maioria dos integrantes é formada por homens, ainda prevalece a ideia de que pedir ajuda psicológica é sinal de fraqueza. Muitos acabam reprimindo dores profundas, que crescem em silêncio até se transformarem em tragédia.
O resultado é um círculo vicioso: profissionais obrigados a carregar sozinhos o peso do sofrimento, sem espaços seguros para acolhimento.
O workshop em Coxim se propõe justamente a enfrentar esse tabu. Na programação, temas como a compreensão dos processos de luto, os desafios específicos enfrentados por policiais e bombeiros, e a formação de redes de apoio dentro das instituições.
Dra. Karina Okajima, que há anos se dedica a estudos sobre traumas e perdas, reforça que o luto não é apenas a dor pela morte de alguém querido — mas também um processo de ruptura com a rotina, com o sentido da vida e até com a própria identidade. “Atravessar o luto exige apoio, compreensão e uma rede que sustente o enlutado. Sozinho, o fardo é insuportável”, destacou durante a abertura do evento.
Discutir o luto dentro das forças de segurança significa também enfrentar preconceitos históricos. É preciso reconhecer que o policial é, antes de tudo, humano  que pode adoecer, sofrer, sentir medo.
Iniciativas como esta sinalizam uma mudança cultural necessária: acolher a dor como parte da vida e criar mecanismos institucionais para que os profissionais não tenham medo de pedir ajuda. Isso inclui ampliar o acesso a psicólogos, capacitar equipes para identificar sinais de risco e, principalmente, abrir espaços de diálogo.
Quando um policial tira a própria vida, não é apenas um número que se perde em relatórios: são famílias despedaçadas, colegas em choque, comunidades desamparadas. O workshop em Coxim acende uma luz sobre esse problema e convida sociedade e Estado a refletirem sobre a urgência de agir.
Porque, no fim das contas, proteger quem protege é mais do que um dever institucional  é um compromisso humano e coletivo. (Glenda Melo - Diário do Estado)