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Saúde Mental

O amor que vira controle: reconhecendo e rompendo relações abusivas

22 AGO 2025 • POR Gessica Oliveira • 09h07

Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi

“Amor” e “abuso” são palavras que não deveriam jamais se encontrar na mesma frase. No entanto, para muitas pessoas, essa é uma realidade cotidiana: relações em que o afeto se mistura com dor, em que a promessa de cuidado convive com controle e em que a liberdade vai sendo lentamente substituída pela dependência. 
Um relacionamento abusivo é aquele no qual há desequilíbrio de poder e uma das partes exerce dominação ou controle sobre a outra, seja de forma explícita ou sutil. O abuso pode ser emocional, psicológico, físico, financeiro ou até digital. O denominador comum é sempre o mesmo: a manipulação e a restrição da liberdade do outro, minando sua autoestima, autonomia e capacidade de decisão.


No entanto, nos últimos anos, com a popularização de termos psicológicos nas redes sociais, alguns conceitos passaram a ser usados de forma equivocada, o que gera distorções perigosas. Um exemplo comum é chamar todo comportamento controlador ou egocêntrico de “narcisista”. Embora existam pessoas com traços de personalidade narcísicos, o Transtorno de Personalidade Narcisista é uma condição clínica, que apesar de poder ter traços em comum, é em si muito diferente. O mesmo acontece com termos como “bipolar” ou “psicopata”, que muitas vezes são aplicadas sem critério e ao invés de ajudar, acabam confundindo e estigmatizando as pessoas que de fato sofrem com esses transtornos. É importante entender: não precisamos de diagnósticos para nomear o abuso. Basta reconhecer quando há desrespeito, manipulação e violência emocional.
Conviver em uma relação abusiva é uma experiência que deixa marcas profundas. Muitas vítimas desenvolvem sintomas de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, fobias sociais e até comportamentos de automutilação. É comum a diminuição da autoestima, a dificuldade em confiar novamente em outras pessoas e a sensação de “culpa” por não ter conseguido “fazer dar certo”.


Além disso, a dinâmica de abuso frequentemente prende a pessoa em um ciclo de esperança e frustração: promessas de mudança seguidas por novas decepções, o que gera dependência emocional e medo de rompimento. Esse ciclo contribui para que a vítima permaneça na relação, mesmo quando já percebe o sofrimento que ela traz.
Reconhecer sinais precoces é uma das formas mais eficazes de prevenção. Ciúme excessivo, tentativas de isolar a pessoa da família e amigos, desvalorização constante e chantagens emocionais não são gestos de amor, mas alertas de perigo.
Para quem já se encontra em um relacionamento abusivo, é importante buscar apoio. Terapia psicológica, grupos de suporte e redes de acolhimento são fundamentais para reconstruir a autoestima e desenvolver estratégias de enfrentamento. Em casos de violência física ou ameaça, é imprescindível recorrer a canais de proteção legal e denunciar.
No âmbito coletivo, é necessário repensar como falamos sobre amor e relacionamentos.
A romantização de ciúmes, do “sofrimento por amor” e da ideia de que “é normal” se anular pelo outro, perpetua a cultura do abuso. Educar para relações saudáveis significa ensinar limites, respeito e responsabilidade afetiva desde cedo.
Relacionamentos abusivos não são apenas histórias individuais de dor, mas um problema de saúde coletivo e social que precisa ser falado com seriedade. Cuidar desse tema é romper o silêncio que sustenta muitas violências e afirmar que amor de verdade não aprisiona: ele liberta, fortalece e constrói.
 

5 sinais de alerta em relacionamentos abusivos

1. Isolamento social
O parceiro tenta afastar você de amigos, família ou colegas, sob o pretexto de “cuidar” ou “proteger”. Aos poucos, você passa a viver em um círculo cada vez mais restrito, onde a voz predominante é apenas a dele.

2. Desvalorização constante
Críticas frequentes, comparações, piadas depreciativas ou a sensação de nunca ser “bom o suficiente” são formas sutis de corroer sua autoestima e minar sua autoconfiança.

3. Controle disfarçado de cuidado
Decisões sobre como se vestir, onde ir, com quem falar ou até como se expressar são tomadas pelo outro. Muitas vezes, isso vem mascarado de preocupação: “É para o seu bem”, “Só quero te proteger”.

4. Ciclo de desculpas e promessas
Após um episódio de agressividade, explosão de raiva ou manipulação, o parceiro(a) pede desculpas, promete mudar e mostra gestos de carinho, até que o padrão de abuso se repete. Esse ciclo aprisiona e cria dependência emocional.

5. Medo e insegurança constantes
Se você sente que precisa “pisar em ovos” para evitar reações negativas, ou vive em alerta para não desagradar, esse é um forte indicativo de que a relação deixou de ser espaço de afeto e passou a ser território de medo.