Orgulhos Coxinenses
Célio Mendes Mourão: entre sonhos, arte e memórias de Coxim
22 AGO 2025 • POR Glenda Melo • 08h47Há vidas que se entrelaçam com a própria história de uma cidade. Célio Mendes Mourão, nascido em 23 de agosto de 1944, em Coxim, é uma dessas figuras que parecem carregar nos ombros não apenas a memória de sua família, mas também os fragmentos de uma época, de uma cultura e de uma cidade que cresceu junto com ele.
Filho de Antônio dos Santos Mourão (Tonico Mourão), vereador e presidente da Câmara Municipal, e de Francisca Mendes Mourão, professora dedicada, Célio conheceu cedo as trilhas da vida rural. Viveu a infância na Escola rural da estrada da ponte, onde sua mãe lecionava em uma sala multiseriada, espaço simples, mas cheio de saber. Ali, ao lado dos irmãos Ribas, Célia e Sueli, experimentou a beleza dos primeiros dias da infância coxinense, marcada pelo cheiro da terra, pelo som do rio e pela simplicidade dos encontros.
A vida, no entanto, lhe mostrou cedo as arestas da dor. Em 1954, a perda repentina do pai o levou, junto com a mãe e irmãos, a viver na casa da avó Dona Antonia Mendes, boleira de mãos de ouro, famosa em toda a cidade. E foi nesse mesmo ano, quando completava dez anos, que viveu um episódio que marcaria sua trajetória: ao se aproximar de uma jaula de circo, foi atacado por uma onça pintada. Salvo pela coragem dos meninos Adão e Erasmo Mourão, Célio sobreviveu, carregando no corpo e na alma as marcas de uma luta improvável entre a fragilidade da infância e a força da natureza.
A partir dali, sua vida seguiu em outros caminhos. Estudou em Monte Aprazível-SP, passou por Campo Grande, aventurou-se nos livros e nos cursos de Química Industrial, Magistério e Análises Clínicas. Mas o que pulsava em seu coração era a arte, e ela não se deixou silenciar.
Autodidata, Célio costurou sonhos com agulhas, linhas e tecidos. Foi cabeleireiro requisitado, artesão de beleza e de momentos: arrumava noivas, decorava igrejas, criava fantasias para blocos de carnaval. O artista nascia e renascia em cada detalhe, seja no vestido de casamento, no bolo confeitado ou nos enfeites que transformavam a simplicidade em espetáculo.
Morou um tempo em São Paulo, onde recebeu o convite de trabalhar com Clodovil, renomado costureiro e antigo colega de escola. Preferiu, no entanto, guardar sua arte em Coxim, onde floresceu em cores, texturas e criatividade.
Nos carnavais da cidade, foi figura ilustre. Produzia suas próprias fantasias, que chamavam atenção pela originalidade e muitas vezes lhe rendiam prêmios das mãos do então prefeito Silvio Ferreira.
Célio também pintou quadros, experimentou telas, tintas e pincéis. Dedicou-se a trabalhos manuais em fuxico, confeccionando blusas e colchas, bordando pedaços de vida em cada costura.
O tempo, com suas exigências, trouxe limitações físicas. Célio caminhou com auxílio de um andador, mas não perdeu o gosto de viver. Morou com a irmã Célia Mendes Mourão, rodeado da família, ouvindo diariamente a FM Pantaneira, de onde recolhe notícias, músicas e lembranças.
Manteve alguns rituais que o tornaram ainda mais humano e próximo: fumava seus seis a oito cigarros diários, apreciava o copo americano de boa cachaça e, sobretudo, manteve a serenidade de quem entende que a vida é passagem, mas a memória é eternidade.
Para Coxim, Célio não foi apenas um artista; foi parte da paisagem afetiva da cidade. Foi testemunha viva de transformações, guardião da cultura popular e exemplo de que a verdadeira arte não está no diploma, mas na coragem de ser quem se é.
Ele mesmo deixou um pensamento que ecoa como herança:
“Sonhe muito, sonhe alto. Faça tudo o que quiser; seja você sempre, sem mascarar aquilo que você é. Seja tolerante, respeite você mesmo e, por consequência, virá o respeito a todos e a tudo.”
CARNAVAIS, LINHAS E CORES
No ventre do rio nasceu um menino,
filho da terra, do povo, do destino.
Cresceu entre livros, farinha e saudade,
guardando em seus olhos a luz da cidade.
A vida lhe trouxe dor e ferida,
uma onça marcou-lhe o corpo e a vida,
mas em vez de temer, seguiu resistindo,
na arte encontrou seu eterno abrigo.
Com linhas, tecidos, bordados e cores,
fez da costura um jardim de amores.
Em noivas, em festas, no riso, na rua,
Célio bordava a beleza da lua.
Carnavais lembram seu passo brilhante,
fantasias vivas, sonho constante.
Cada fuxico, colcha ou pintura,
carrega sua alma, sua assinatura.
Hoje caminha com passos mais lentos,
mas sua memória é vento nos ventos.
Um copo de cachaça, o rádio ligado,
um homem sereno, de vida marcado.
Célio, artista de alma tão plena,
és parte da história, és nossa cena.
Em Coxim ficas vivo, eterno irmão,
teu nome bordado no coração.
(Por: Glenda Melo)
