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Saúde Mental

A "adultização" de Crianças nas Redes Sociais: Um Alerta Necessário

15 AGO 2025 • POR Gessica Oliveira • 09h36
  Diário do Estado

Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi

Nos últimos dias, o vídeo do criador e influenciador Felca (Felipe Bressanim) acendeu um holofote difícil de ignorar: a adultização de crianças e adolescentes no ambiente digital. Não foi só um burburinho de rede a repercussão já chegou ao Congresso, com dezenas de projetos apresentados para coibir a exposição indevida e a exploração on-line de menores e a convocação de plataformas para prestar esclarecimentos. 


A adultização ocorre quando crianças são expostas a comportamentos, discursos e imagens que não correspondem à sua fase de desenvolvimento. Essa exposição pode acontecer de forma explícita, como na exploração de sua imagem para fins de sexualização e engajamento ou de maneira mais sutil, quando são induzidas a assumir posturas, opiniões e preocupações típicas da vida adulta. Quando aceleramos papéis, significados e imagens do universo adulto (sobretudo os sexualizados) e os colamos sobre corpos e mentes ainda em formação ocorre uma violência à infância daquela criança ou para o que esperamos dela. Na prática, isso aparece em maquiagens e roupas sensualizadas, roteiros performáticos, pressão por engajamento e monetização, muitas vezes com empurrão dos próprios pais ou adultos próximos, como se fosse “bonitinho” ou “normal”.
E o que isso tem a ver com saúde mental? Tudo. Do ponto de vista do desenvolvimento, infância e adolescência são fases dedicadas a tarefas psíquicas específicas: construir uma identidade, experimentar limites com segurança, consolidar autoestima e autonomia. Antecipar papéis adultos bagunça esse roteiro: a validação passa a depender do olhar externo, a comparação com padrões irreais e a própria imagem corporal fica à mercê de likes. Não surpreende que estudos e relatórios tenham associado a exposição precoce a aumento de ansiedade, depressão, distorção da autoimagem e maior vulnerabilidade a abusos.


Há ainda o componente ambiental e econômico: redes e marcas operam na economia da atenção. Se um conteúdo com menores “performando” rende visualizações, ele tende a ser amplificado (todo mundo vê) e o que passa a parecer normal fica mais difícil de perceber como erro ou denunciar. Em situações mais graves, esse cenário resulta em crimes previstos no ECA, como aliciamento e divulgação de conteúdo sexual envolvendo menores.
O papel dos adultos nesse processo é central, seja como cuidadores, influenciadores ou espectadores. Muitos, movidos pela busca de popularidade, status ou ganhos financeiros, exploram a imagem dos filhos sem medir as consequências. Outros, mesmo sem intenção de prejudicar, acabam negligenciando a supervisão e permitindo que conteúdos impróprios, linguagens e contextos de risco circulem livremente no cotidiano das crianças. Há também quem, diante de situações claramente abusivas ou exploratórias, opte pelo silêncio, reforçando uma cultura de normalização e conivência.


Alguns sinais podem servir alerta para famílias e escola, como: mudança brusca de aparência e linguagem para padrões altamente sexualizados ou “adultos”; foco excessivo em likes ou seguidores; exposição de rotina e intimidade sem avaliação de riscos (localização, uniformes, horários); contato de adultos desconhecidos e mensagens privadas; queda no rendimento, irritabilidade, isolamento após início de “projetos” on-line. Esses sinais, isolados, não fazem diagnóstico, mas convidam ao diálogo e à contenção. E, quando há suspeita de crime, é dever investigar, denunciar nos canais oficiais e da própria plataforma. 
Família e sociedade têm, portanto, um papel inegociável nesse cenário. Proteger não é apenas impedir o acesso a conteúdos inadequados, mas também oferecer diálogos abertos, explicações claras sobre o que é ou não apropriado para cada fase da vida e fortalecer a autoestima baseada em valores internos, e não apenas na aparência ou aceitação virtual. É preciso ensinar o uso crítico e consciente das redes, mas, sobretudo, garantir que o tempo da infância seja preservado.
 

Como a família pode agir (todos os dias):
1. Supervisão ativa e diálogo contínuo
Navegue junto e ensine a navegar. Peça para ver rascunhos de postagens, converse sobre privacidade, consentimento de imagem e permanência do que se publica. Evite fiscalizar em segredo: combinados claros funcionam melhor que vigilância punitiva. 

2. Adie o que puder ser adiado
Smartphone próprio, perfis abertos e metas de engajamento não são necessidades da infância. Quando houver perfil, defina privacidade, limite de tempo e conteúdo permitido, revendo periodicamente.

3. Exemplo arrasta
Pais e responsáveis também comunicam valores quando exibem a rotina dos filhos. Reflita antes de postar: a quem serve essa imagem? O menor consentiu e entende o alcance? Evite transformar a criança em personagem e, sobretudo, em estratégia de monetização. 

4. Crie alternativas off-line
Ofereça esporte, arte, leitura, vida comunitária. Quanto mais repertório fora da tela, menor a dependência da validação digital. Isso não é “blindar do mundo”; é oferecer outros mundos.

5. Rede de apoio é proteção
Converse com outros pais, escola, comunidade e serviços de saúde. Cuidar é tarefa coletiva; o isolamento aumenta a vulnerabilidade.

6. Mantenha vínculos afetivos além do cuidado
Preserve, ainda que em pequenas doses, seus vínculos com amigos, hobbies, espiritualidade ou grupos sociais. Você continua sendo uma pessoa com identidade própria, para além do papel de cuidador(a).