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Orgulhos Coxinenses

Célia Mourão: A professora que fez da palavra um legado e de Coxim sua eterna sala de aula

15 AGO 2025 • POR Glenda Melo • 09h15

Há vidas que passam por nós como rios silenciosos: refrescam, nutrem e seguem seu curso. Mas há vidas que, ao nos atravessarem, deixam marcas profundas, impossíveis de serem apagadas. Assim foi a vida de Célia Mourão, professora, amiga, mulher de cultura e de afeto, que escreveu sua história com a mesma delicadeza com que escrevia no quadro de giz palavra por palavra, gesto por gesto, sempre com o cuidado de quem sabe que ensinar é também amar.

Desde os 15 anos de idade, Célia já habitava o território sagrado do saber. Jovem, mas madura na vocação, ela encarava as salas de aula como templos onde se celebrava a língua portuguesa não apenas como gramática, mas como música, como identidade, como ponte entre sonhos e realidades. Nas carteiras de madeira, diante de olhares curiosos ou tímidos, ela não via apenas alunos, mas histórias em construção. E acreditava em cada uma delas.

Nascida em um lar de raízes profundas no Norte de Mato Grosso do Sul, Célia era prima do saudoso compositor Zacarias Mourão. Nele, corria a música; nela, corria a palavra. Ambos tinham em comum o dom de traduzir em arte o que o coração sentia e o que a terra inspirava. Era como se cada verso dele encontrasse eco no modo como ela declamava um poema em sala, ou explicava a força de um texto, ou incentivava um jovem a escrever a sua própria história.

Mas Célia não se limitava ao quadro negro. Amava Coxim como se fosse extensão de si mesma. Conhecia seus cantos, suas águas, suas festas, suas lendas. Guardava em si a lembrança das tardes ensolaradas às margens do rio, das feiras de rua, dos encontros culturais onde seu riso e sua presença eram indispensáveis. E quando a música começava, era como se uma chama se acendesse: seus passos firmes e leves ao dançar polca paraguaia revelavam uma alma que compreendia a importância de manter vivas as tradições.
No coração de muitos coxinenses, há hoje memórias vivas:
Da professora que corrigia com firmeza, mas com ternura.
Da mulher que ouvia mais do que falava, mas que, quando falava, ensinava sempre.
Da amiga que, com um café passado na hora, abria a porta para boas conversas, para partilhar um livro, um sonho ou até um silêncio.

Gentil, culta, próxima de todos, Célia foi mais do que docente: foi formadora de caráter, semeadora de autoestima, incentivadora de talentos. Muitos dos que passaram por suas aulas hoje são advogados, médicos, professores, escritores, pais e mães que ainda repetem aos filhos alguma lição aprendida com ela seja sobre vírgulas ou sobre a vida.
Seus anos de dedicação à educação e à cultura são parte do patrimônio invisível de Coxim, aquele que não se ergue em prédios ou monumentos, mas que vive na fala, no pensamento e no coração das pessoas. E isso ninguém tira.

Sua partida deixou um silêncio profundo. Mas também deixa um eco, eco que se ouve sempre que alguém daqui se orgulha de falar bem, de escrever com clareza, de amar sua terra e sua história. Porque uma professora nunca se despede: ela se multiplica em cada vida que tocou.

Coxim chorou e, ao mesmo tempo, agradece. Chora a ausência física, mas agradece o privilégio de ter convivido com uma mulher que, com passos de polca e palavras bem colocadas, construiu um legado que o tempo não apagará.

E talvez, se fecharmos os olhos, possamos vê-la, leve, sorridente, dançando ao som de uma polca paraguaia, como se cada passo fosse uma sílaba, compondo uma poesia eterna. No canto dos pássaros, no correr do rio, no cheiro do café, no riscar do lápis sobre o papel, ali estará Célia Mourão, a professora que transformou vidas com palavras e que fez da própria vida uma aula de humanidade.
 

Lição Eterna

No quadro negro da vida
Teu giz era luz e cuidado,
Transformando cada palavra
Num gesto doce, sagrado.

Desde menina, aos quinze anos,
Tinhas no olhar o dom de ensinar,
Não só a língua e sua beleza,
Mas o sentido de sonhar.

Prima de versos e melodias,
Do sangue de Zacarias, herdeira,
Tinhas a música nas palavras
E a poesia na vida inteira.

Amavas Coxim como se ama um filho,
Com o orgulho de quem sabe o valor,
E dançavas polca paraguaia
Como quem dança com o próprio amor.

Eras amiga, guia, conselheira,
Porto seguro em qualquer estação,
Deixaste em cada aluno
Um pedaço do teu coração.

Agora, o silêncio te envolve,
Mas não apaga tua voz,
Pois toda lição verdadeira
Permanece dentro de nós. (Glenda Melo)