Logo Diário do Estado

Arlindo Cruz: o último verso de um poeta do samba

9 AGO 2025 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 17h20
  reprodução

O Brasil amanheceu mais silencioso. O batuque que tantas vezes embalou corações parou por um instante, como se até os pandeiros e cavaquinhos precisassem de tempo para chorar. Aos 66 anos, partiu Arlindo Cruz, sambista, compositor, poeta popular e guardião das memórias de um Brasil que canta suas dores e alegrias.

Nascido em Madureira, bairro onde o samba é mais do que música, é sangue que corre nas veias, Arlindo cresceu respirando harmonia e poesia. Com um cavaquinho nas mãos e um sorriso largo no rosto, transformou histórias simples em canções eternas. Suas letras não falavam apenas de amor e saudade eram retratos de uma gente que resiste, celebra e sonha.

Arlindo não apenas fez parte do samba. Ele o reinventou, com a sutileza de quem respeita a tradição e a ousadia de quem quer levá-la ainda mais longe. Nas rodas de samba, seu banjo soava como conversa de amigo; no palco, sua voz abraçava plateias inteiras.

A vida, no entanto, lhe impôs um desafio cruel em 2017, quando um AVC o afastou das apresentações. Mesmo sem estar sempre sob os holofotes, sua presença continuava viva nos corações dos fãs e nos versos que seguiram ecoando.

Agora, sua despedida deixa um vazio imenso. Mas também deixa um legado que nenhum silêncio é capaz de apagar. Arlindo Cruz é daqueles artistas que não partem de verdade: continuam vivos cada vez que alguém cantar “meu lugar é caminho de Ogum e Iansã” ou marcar o compasso com um simples bater de mãos.

Hoje, o céu tem mais samba. Talvez ele já esteja, banjo em punho, organizando uma nova roda lá em cima, chamando Cartola, Dona Ivone Lara e outros mestres para mais uma eterna noite de música. E aqui, cá embaixo, seguimos cantando, porque Arlindo nos ensinou que, mesmo diante da dor, o show tem que continuar.