Orgulhos Coxinenses
Geraldo Mochi: O Poeta Que Plantou Versos e Cedros no Coração de Coxim
8 AGO 2025 • POR Glenda Melo • 08h55Há homens que passam pela vida como um sopro. Outros, como um vendaval. E há aqueles raros, como Geraldo Mochi, que fincam raízes fundas no solo da memória coletiva, florescendo em poemas, árvores, vozes de rádio e nomes de ruas. Homem de palavra no verbo e no valor ele não viveu apenas: declamou sua existência em versos.
Geraldo nasceu em Itápolis-SP, no dia 5 de abril de 1938. Filho de Antônio e Luiza, cresceu rodeado de irmãos e afetos, entre as rimas dos livros escolares e as poeiras das estradas do interior. Foi ainda menino quando se apaixonou pela poesia, declamando “O Trabalho”, de Olavo Bilac, no “Grupão do Jatobazeiro”. Já aos 11, rabiscava os primeiros versos que mais tarde se transformariam em herança literária para gerações futuras.
Radialista, político, empreendedor, agricultor e, acima de tudo, poeta. Geraldo Mochi foi um múltiplo em um só. Em Campina da Lagoa-PR, onde viveu por mais de duas décadas, foi vereador por três mandatos consecutivos, ajudou na emancipação da cidade e escreveu, ao lado do maestro Sisenando, o hino local. E foi de lá que partiu para Coxim, terra que o acolheu e a quem ele entregou o coração.
Em 1980, chegou a Coxim e não demorou a deixar sua marca. Fundou a Associação Comercial, cultivou bananais e seringueiras na Fazenda Bom Jesus, e foi premiado como o melhor vendedor de tratores da região. Mas seu maior feito talvez tenha sido na seara da cultura: criou e apresentou por mais de 30 anos o programa “Geraldo Mochi Show”, que depois se tornou “Resgatando Valores e Pescando Talentos”. Um verdadeiro palco radiofônico para talentos locais e um altar para a memória sertaneja.
Foi amigo pessoal de Zacarias Mourão e testemunha viva da história da canção “Pé de Cedro” que nasceu nas terras e mesas de Coxim, e alçou a cidade ao estrelato nacional. Foi através de Geraldo que a música ganhou nova vida, novos significados, e se tornou símbolo de uma identidade que pulsa até hoje entre cedros e esperanças.
Geraldo era desses que sabiam ouvir o silêncio do campo e transformá-lo em poesia. Plantou cedros nas praças, cultivou afetos nas ondas do rádio e semeou versos nas escolas, onde era presença querida pelas professoras e alunos que bebiam de sua sabedoria com olhos brilhantes. Sua poesia “Bom mesmo é Coxim” tornou-se quase um grito de pertencimento, um lema cantado por todos.
Foi um incentivador de talentos: promoveu festivais de calouros e foi quem, lá atrás, sugeriu que dois meninos que cantavam sozinhos formassem uma dupla. Nasceu ali João Bosco & Vinícius, que mais tarde se tornariam estrelas da música brasileira. Visionário, viu neles o que poucos enxergariam: o potencial de fazer história.
Além da poesia, deixou um legado literário impresso. Com mais de 100 poesias organizadas e reunidas pelas filhas, publicou seu primeiro livro em 1997,que já conta com cinco edições. Desde 1998, ocupa com honra uma cadeira na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e seria também um dos imortais fundadores da Academia Coxinense de Letras. Geraldo, obrigada, sua leveza nos faz muita falta e Coxim agradece por ser palco eterno de seus encantos em formas de linhas e traços.
Versos que Plantam Cedros — Poema para Geraldo Mochi
No berço de Itápolis nasceu a canção,
Menino de rimas, de brilho no olhar,
Que fez do silêncio a mais pura emoção
E dos caminhos, o verbo de amar.
Com onze já viajava nas letras,
Com quinze, nas trilhas de terra e poeira.
Entre boiadas, tocava os poemas
Que a vida escrevia na estrada inteira.
Amou com ternura, casou com paixão,
Cinco filhas, herdeiras do seu coração.
Fez da palavra abrigo, do rádio altar,
E da poesia, um jeito de amar.
Foi voz que ecoou pelas ondas do ar,
Em domingos serenos, com alma e calor.
No “Geraldo Mochi Show” soube eternizar
A cultura, a história, a música e o amor.
Em Campina foi hino, foi luz, foi ação,
Vereador do povo, da luta, da mão.
Mas foi em Coxim que fincou seu ser,
Plantou cedros, memórias, fez florescer.
Ali foi pioneiro, foi guia, foi chão,
Fundou a Associação com alma e razão.
Na Vale do Taquari, virou emoção:
“Resgatando Valores” com o coração.
Amigo de artistas, dos sons e dos tons,
Da alma de Zacarias, da pena de Goiá,
Fez de Coxim palco, verso e refrão,
De “Pé de Cedro” à eternidade de lá.
Com olhos atentos, colheu os talentos,
João Bosco e Vinícius, viu antes de brilhar.
Fez do conselho semente no tempo,
E do incentivo, um par pra cantar.
Guardou cem poemas em gavetas do peito,
As filhas os deram de volta em flor.
Nas páginas vivas de livros refeitos,
Geraldo é poeta, é voz, é amor.
Hoje a cidade sussurra baixinho,
Seu nome nas praças, nas folhas, no chão.
E a cada cedro que toca o caminho,
Brota um poema da sua mão.
Poeta não morre, se espalha no vento,
No eco do rádio, no riso do avô.
Geraldo é raiz, é tempo, é alento,
É verso que a vida nunca calou. (Por: Glenda Melo)
