Saúde Mental
Borderline: entenda o transtorno "queridinho do momento"
1 AGO 2025 • POR Renan Maia • 09h49Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi
Recebi há alguns dias uma mensagem assim: “Renan, você podia falar um pouco sobre o transtorno de personalidade borderline né? É o queridinho do momento.” De início, confesso que essa frase me provocou. Não pela curiosidade em si, que é legítima, mas pelo tom que tem se tornado comum: tratar alguns sofrimentos psíquicos como modismos, memes ou rótulos de ocasião. Já vimos isso com o TOC, o TDAH, a “bipolaridade”... E agora, o Borderline. E o que todos tem em comum? Informações desencontradas ou falsas.
Mas o transtorno de personalidade borderline não é novidade, nem tendência: é uma condição séria, complexa e que exige escuta, cuidado e informação qualificada. E é sobre isso que vamos falar aqui. Sem sensacionalismo e sem reducionismos.
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma dessas experiências psíquicas mais intensas e muitas vezes incompreendidas, que se expressam na instabilidade emocional (variações de humor mais rápidas que no transtorno afetivo bipolar, mas menos intensas), nos rompantes de impulsividade e em uma luta constante por manter os vínculos afetivos vivos com familiares, cônjuges e amigos (ainda que seja uma relação conflituosa, para o borderline parece ser melhor do que não ter).
O transtorno borderline é um dos quadros mais complexos da psicopatologia. Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), seus principais critérios envolvem padrões persistentes de instabilidade nas relações interpessoais, na autoimagem e nos afetos, além de impulsividade marcante (faz, se arrepende e se culpa). Essa instabilidade pode ainda se manifestar em comportamentos impulsivos como: automutilações, compulsões (comida, uso de tabaco, compras), abuso de substâncias ou relacionamentos turbulentos. Comportamentos estes ligados geralmente ao medo de abandono, rejeição e traição.
É comum que quem viva com TPB oscile entre extremos: ora idealiza alguém, ora desvaloriza essa mesma pessoa; ora se sente amado intensamente, ora acredita que será descartado a qualquer momento. A pessoa borderline não quer machucar o outro, na verdade ela teme perder o outro a todo momento. É como viver permanentemente em alerta, como se tudo pudesse desmoronar a qualquer instante.
Essas reações, embora intensas, não surgem do nada. Muitos estudos apontam que o TPB está frequentemente associado a traumas precoces, negligência afetiva, abandono ou ambientes familiares instáveis. Além disso, há evidências neurológicas e genéticas que indicam alterações no funcionamento de áreas cerebrais responsáveis pelo controle emocional e impulsividade, como a amígdala e o córtex pré-frontal. Ou seja, há fatores biológicos, psicológicos e ambientais envolvidos.
O tratamento exige cuidado, persistência e, sobretudo, vínculo. A psicoterapia é uma das abordagens mais eficazes, justamente por integrar técnicas de regulação emocional, aceitação e construção de habilidades sociais. O uso de medicamentos para estabilização do humor, também são importantes aliados, mas não tratam o transtorno em si (apenas sintomas associados como ansiedade, insônia, impulsividade e compulsividade) por isso, não devem ser a única estratégia terapêutica.
Família e amigos precisam entender que o TPB não é “frescura” nem “exagero”, mas também não devem aceitar ser alvo de violência, manipulação ou descuido afetivo. Estar ao lado de alguém com esse transtorno exige firmeza, saber dizer “não” pra certas situações sem deixar de amar, estar presente mas sinalizar quando as reações forem além do limite.
É fundamental entender que o TPB não define uma pessoa — é apenas parte de sua história. Pessoas com esse diagnóstico podem ser incrivelmente criativas, intensas, sensíveis e afetuosas. Muitas vezes, o sofrimento nasce justamente por sentirem demais, por não saberem onde colocar tanto afeto ou por temerem que, ao se mostrarem vulneráveis, serão abandonadas.
No consultório, percebo que um dos fatores mais transformador é o vínculo terapêutico. Quando a pessoa borderline encontra alguém que não desiste dela nos momentos de crise, estabelece limites claros e oferece consistência emocional há uma possibilidade real de mudança. E é nessa direção que amigos e familiares podem também caminhar.
Mas é preciso dizer que o processo é continuo, com avanços e retrocessos. O caminho da estabilidade não é simples ou linear, mas é possível. Assim como é possível entender que o cuidado com a saúde mental exige responsabilidade, ciência e acima de tudo, humanidade.
