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Cinira Morreu Porque Amou de Novo: O Grito Calado do 20º Feminicídio em MS

1 AGO 2025 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 09h26
  redes sociais

 

Cinira de Brito, 44 anos, foi assassinada na tarde de ontem,quinta-feira (31) por um homem que não aceitava a liberdade dela. Foi morta porque decidiu seguir em frente. Foi caçada por alguém que jurava amor. Foi silenciada por uma sociedade que continua cúmplice da violência contra as mulheres.

Era o último dia de julho. Era véspera de Agosto Lilás o mês dedicado à conscientização sobre a violência de gênero. E foi justamente nesse momento que o 20º feminicídio de Mato Grosso do Sul em 2025 aconteceu. A ironia cruel é que enquanto se prepara campanhas, panfletos e discursos para proteger mulheres, uma delas sangrava até a morte no chão de uma casa em Ribas do Rio Pardo.

Cinira tinha terminado com Anderson Aparecido de Olanda, 41 anos, após descobrir uma traição. E como toda mulher tem o direito de recomeçar, ela havia assumido um novo relacionamento. Três dias de namoro bastaram para que ele decidisse: se ela não fosse mais dele, não seria de ninguém.

A emboscada foi planejada. Fria. Covarde. Premeditada.

Anderson mentiu, disse que estava em Campo Grande, e pediu que Cinira fosse buscar seus pertences. Ela foi com a cunhada. Entrou na casa acreditando que o capítulo final havia sido escrito. Mas ele estava lá, escondido no quintal, com uma faca na mão e o ódio pulsando no peito. Quando ela abaixou para arrumar tapetes, ele atacou. Foram cinco facadas duas nas pernas, uma no abdômen. A cunhada correu. Cinira caiu.

Ali, naquele chão, morreu uma mulher que só queria viver em paz.

Depois, como se quisesse pintar o quadro inteiro da tragédia, Anderson tentou tirar a própria vida: facadas no peito, veneno no corpo. Está vivo. Internado. Cuidado. Escoltado.

Antes do crime, ele ainda teve tempo de escrever uma “carta aberta” e espalhá-la em grupos de WhatsApp. Um texto onde jogava acusações, distorcia os fatos, justificava o injustificável. Uma confissão pública de que pretendia matar. E mesmo assim, ninguém impediu.

 

UMA LISTA DE MORTAS, NÃO DE NOMES

 

Cinira agora integra uma estatística assustadora: 20 mulheres assassinadas por serem mulheres, só em 2025, só em MS. A lista que deveria ser de homenagens virou um memorial de omissões:

Karina, Vanessa, Juliana, Mirielle, Emiliana, Gisele, Alessandra, Ivone, Thácia, Simone, Olizandra, Graciane, Vanessa, Sophie, Eliana, Doralice, Rose, Michely, Juliete… e agora, Cinira. Todas eram filhas, mães, netas, irmãs, o amor da vida de alguém.

Quantas mais vão faltar na próxima contagem?

Anderson não tinha passagens pela polícia. Mas precisava? Quantos homens ainda vão usar o fato de nunca terem sido presos como selo de “bom cidadão”, mesmo sendo agressores dentro de casa? A verdade é que o sistema espera o primeiro golpe para reagir  e quando reage, já é tarde demais.

Cinira pediu ajuda? Não sabemos. Mas sabemos que ela morreu. E que enquanto isso, muitas outras estão tentando escapar agora mesmo  e não encontram portas abertas.

 AGOSTO LILÁS: LUTO OU LUTA?

O Agosto Lilás começa de luto. Mas tem que continuar como luta.

Não podemos aceitar que mulheres morram por amar, por terminar, por decidir, por respirar. O feminicídio não é “tragédia”. É assassinato. É execução. É sintoma de uma sociedade doente, onde o machismo é alimentado nas famílias, nas igrejas, nas escolas, nas redes sociais.

Cinira não morreu por acaso. Ela foi morta por uma cultura de ódio disfarçada de romance. Por uma estrutura que protege os agressores e julga as vítimas. Por um silêncio coletivo que ainda confunde controle com amor.

Se você está lendo isso e se sente em perigo, saiba: você tem para onde correr.

 Ligue 180 ou 190 em caso de urgência.

 Delegacias da Mulher estão em 13 cidades do MS, incluindo Coxim

Você não está sozinha. Mas não espere mais um agosto chegar para procurar ajuda.

 

Cinira não será esquecida. Não mais um número. Não mais uma. Que ela seja o nome que acende a nossa revolta. E que esse mês Lilás manche-se de justiça.