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Orgulhos Coxinenses

Jonir Figueiredo: O artista que pintou o Pantanal com a alma e fez de Coxim um pedaço do seu coração

1 AGO 2025 • POR Glenda Melo • 09h13
  Divulgação

Há artistas que pintam telas. E há aqueles que pintam vidas, lugares, tempos e memórias. Jonir Figueiredo foi um desses raros nomes.
Morreu aos 71 anos, deixando para trás não apenas quadros, murais e prêmios, mas uma herança cultural que toca o coração do Mato Grosso do Sul, especialmente da cidade de Coxim, que tantas vezes o recebeu como filho, como mestre, como amigo.
Jonir não era só um artista. Era um farol. Um homem que usou a arte como ponte entre o Pantanal e o mundo, entre a natureza e a consciência, entre o passado e o futuro. Sua trajetória é mais do que um currículo brilhante, é um manifesto vivo sobre amor à terra, identidade e resistência cultural.
Jonir nasceu em Corumbá (MS), berço da cultura pantaneira, cercado de rios, aves, ritos e lendas. Desde jovem, já desenhava o que via e o que sentia. Foi estudar arte em São Paulo, onde obteve o bacharelado em Educação Artística pela Faculdade Unidas de Marília. Mas não demorou para que ele entendesse: seu tema, sua voz, sua missão estavam mesmo era ali, em Mato Grosso do Sul.


E foi no chão pantaneiro que Jonir construiu sua linguagem. Suas obras retratam mandalas, jacarés, aves, peixes, silhuetas humanas e símbolos da fauna e flora da região. Com cores intensas e traços firmes, ele não apenas celebrava a beleza natural, mas também denunciava a ameaça constante da destruição ambiental. Era artista e guardião. Esteta e ativista.
Nos anos 1970, Jonir iniciou sua carreira profissional, e após uma década de intensa produção, consolidou-se no cenário das artes visuais com a série que ficou conhecida como “Fase dos Jacarés”. Ali, ele deixava clara sua preocupação ecológica, criando uma estética própria que unia arte, política e território.
Suas telas mostravam não apenas os animais, mas o desequilíbrio, o fogo, a ausência. Cada quadro era um alerta  e, ao mesmo tempo, um abraço na terra. Jonir foi um dos primeiros a usar a arte como ferramenta de educação ambiental no estado. E isso, por si só, já o tornaria eterno.


Com a criação de Mato Grosso do Sul em 1977, nasceu também o desejo de construir uma identidade cultural própria para o novo estado. Jonir foi um dos fundadores do Movimento Cultural Guaicuru, coletivo de artistas, poetas e intelectuais que buscavam valorizar as raízes regionais, criar redes de apoio e formar novas gerações de criadores.
Ele era mais do que um pintor: era também gravador, performer, desenhista, produtor cultural e líder de classe. Presidiu por anos a Associação de Artistas Plásticos do MS e ajudou a criar oportunidades para inúmeros outros artistas em início de carreira. A sua trajetória é também a história de quem abriu portas para que outros passassem.
Jonir esteve inúmeras vezes em Coxim, onde encontrou mais do que palcos para expor  encontrou corações dispostos a ouvir, mãos curiosas para aprender, olhares atentos que acolheram sua arte. Ele promovia oficinas em escolas públicas, orientava jovens artistas, participava de feiras, festivais e exposições em centros culturais da cidade.
Para Jonir, Coxim era extensão de casa. Ele dizia que ali sentia o Pantanal vivo, pulsando. Que ali estava o povo que ele queria alcançar com sua arte  não as galerias frias, mas os centros comunitários, as praças, os bairros ribeirinhos. Ele pintava para as pessoas, não para os salões.


Foi aqui, em Coxim, que ele deixou murais, amizades e sorrisos. Foi aqui que ele inspirou, ensinou, abraçou. E é aqui que sua falta será mais sentida.
Apesar da simplicidade de vida, Jonir foi um nome reconhecido no mundo. Expôs nos Estados Unidos, Japão e até na sede da ONU. Em 2022, comemorou 50 anos de carreira com um livro e uma mostra em Paris,feito histórico para um artista regional.
Mas nem os aplausos estrangeiros o desviaram de sua missão: sua arte sempre foi, antes de tudo, para o povo do Pantanal. Ele mesmo dizia que só se sentia realizado quando via uma criança se encantar com uma pintura, ou um idoso se emocionar ao reconhecer sua história numa tela.
Jonir partiu como viveu: entre amigos, entre cores, entre natureza. Faleceu recentemente, aos 71 anos, deixando um legado de mais de cinco décadas de criação ininterrupta. Suas obras continuam contando histórias, gritando por justiça, ensinando sensibilidade, resgatando identidade.


Ele foi e continuará sendo um dos maiores nomes das artes visuais de Mato Grosso do Sul. Um embaixador do Pantanal. Um mestre silencioso. Um apaixonado pela terra e pelo seu povo.
Jonir não será lembrado apenas pelas exposições, pelos prêmios ou pelas galerias. Será lembrado por cada aluno que aprendeu a segurar um pincel. Por cada jovem artista que acreditou ser possível viver de arte. Por cada morador que viu seu bairro representado numa tela. Será lembrado por Coxim. Pelo Pantanal. Por todos que entendem que cultura é alma, é resistência, é raiz.

 

No berço das águas nasceu Jonir,
com o pincel na alma e o Pantanal nos olhos.
Desenhava o vento, calava o tempo,
e fazia da cor o grito que ninguém ousava dar.

Veio de Corumbá com as mãos cheias de barro,
o coração feito de rio, e o sonho
de eternizar nas telas
o que a pressa do mundo insiste em apagar.
Jacarés, mandalas, silhuetas ao entardecer…
era mais que pintura era reza,
era aviso, era retrato do que somos
quando lembramos de onde viemos.
Caminhava leve por Coxim,
como quem voltava pra casa
toda vez que um mural surgia,
e um menino sorria ao ver
que sua história também cabia ali.

Ensinava sem impor,
ouvia sem julgar,
e criava como quem respira 
com naturalidade, com urgência, com amor.

Jonir não pintava quadros.
Pintava gente.
Pintava alma.
Pintava o invisível do que sentimos
ao ver a beleza ameaçada.

Paris o aplaudiu,
a ONU o viu,
mas era no chão quente de MS
que ele se sentia inteiro.

Hoje, o Pantanal chora
com as cores mais apagadas,
os pássaros em silêncio,
e as águas mais lentas.
Mas Jonir não morre.
Jonir ecoa,
nas oficinas, nos muros,
nos olhos de cada criança
que um dia aprender a colorir
sem ter medo de ser.

A arte não morre.
Jonir vive em cada cor, em cada traço,
em cada memória que ele ajudou a pintar. (Por Glenda Melo)