CFM proíbe uso de anestesia geral para tatuagens
28 JUL 2025 • POR Glenda Melo / Diário do Estado • 16h21Em uma decisão histórica e preventiva, o Conselho Federal de Medicina (CFM) acaba de proibir, em todo o território nacional, o uso de anestesia geral, sedação e bloqueios anestésicos periféricos na realização de tatuagens com finalidade estética. A medida, publicada no Diário Oficial da União de hoje segunda-feira (28), reforça os riscos da banalização do uso de medicamentos anestésicos fora do ambiente hospitalar uma prática que vinha ganhando espaço, especialmente entre celebridades e influenciadores.
A resolução é clara: está vedado o uso desses métodos anestésicos em qualquer tipo de tatuagem, independentemente do tamanho ou da região do corpo. A única exceção permitida são os procedimentos com finalidade reparadora e recomendação médica, como os realizados por pacientes oncológicos ou vítimas de queimaduras.
A nova diretriz foi impulsionada, entre outros fatores, por um episódio recente que chocou o país: a morte do influenciador e empresário Ricardo Godoi, de 46 anos, após ser submetido a uma suposta anestesia geral durante a realização de uma tatuagem em Itapema (SC). O caso escancarou uma tendência crescente entre famosos, que buscavam eliminar a dor com procedimentos médicos de alto risco, muitas vezes realizados sem o preparo adequado.
Entre os nomes conhecidos do grande público, estão o cantor Igor Kannário, que tatuou o corpo inteiro em uma única sessão, e a influenciadora Rafaella Santos, irmã do jogador Neymar, que tatuou um leão nas costas. Ambos relataram o uso de sedação para suportar longas sessões de tatuagem. Já o cantor MC Cabelinho foi ainda mais longe: revelou que contratou uma equipe médica, fechou uma sala de cirurgia e ficou entubado por oito horas enquanto tatuava as costas. “Tomei anestesia geral, dormi, fiquei entubado”, declarou.
Esses relatos levantaram preocupações sérias na comunidade médica. Segundo especialistas, o uso de anestesia geral sem justificativa clínica, fora do ambiente hospitalar, expõe o paciente a riscos gravíssimos entre eles, parada respiratória, queda de pressão, broncoaspiração e até morte súbita.
A anestesiologista Esthael Cristina Querido Avelar, da Santa Casa de São Paulo, explica que a anestesia geral inibe completamente a respiração espontânea. “Se o anestesista não conseguir garantir o controle das vias aéreas, o paciente pode sofrer hipoxemia uma falta de oxigenação nos tecidos e colapsar em minutos.”
Além disso, há fatores de risco que muitas vezes são ignorados em contextos não hospitalares, como reações alérgicas a medicamentos, arritmias cardíacas e crises de asma. Para que uma anestesia geral seja feita com segurança, o paciente deve estar em jejum por no mínimo oito horas e monitorado em tempo integral com equipamentos adequados. “
A distinção entre sedação e anestesia geral também é crucial. Na sedação, o paciente mantém alguma consciência e consegue respirar sozinho. Já na anestesia geral, ele é totalmente inconsciente e dependente de aparelhos para sobreviver durante o procedimento.
A decisão do CFM coloca um ponto final em uma prática arriscada que vinha sendo normalizada sob o pretexto da dor estética. Mais do que coibir o uso imprudente de medicamentos anestésicos, a medida busca preservar a vida e conscientizar sobre os limites da medicina. Afinal, a dor de uma tatuagem, por mais incômoda que seja, não pode justificar a exposição voluntária a um risco de morte.
Com a resolução, o CFM envia um recado claro à sociedade: não há espaço para banalização da anestesia. Tatuagens, embora cultural e esteticamente relevantes, não podem ser motivo para intervenções médicas tão invasivas.
