Saude Mental
Entre Likes e Vazios: redes sociais, dopamina e adoecimento emocional
25 JUL 2025 • POR Renan Maia • 09h04Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi
Outro dia, em uma sessão, uma paciente me disse: “não sei por que fico mal, é só uma rede social...”.É exatamente aí que mora o perigo, justamente por parecer “só uma rede social”, muitos de nós não percebemos o quanto isso tem adoecido emocionalmente adultos, adolescentes e até crianças.
As redes sociais não se tornaram centrais em nossas vidas por acaso. Foram desenhadas para isso. Cada curtida, cada coraçãozinho ou notificação aciona no nosso cérebro uma descarga de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa. O mesmo envolvido em quadros de dependência química, jogos e compulsões.
O feed infinito, os vídeos curtos, as cores vibrantes... Tudo isso é milimetricamente planejado para manter o usuário dentro da plataforma, forjar ou provocar o desejo de estar la.
Ao longo da minha prática clínica, tenho percebido cada vez mais os impactos negativos disso, tanto em adultos quanto em crianças. Pessoas adultas chegam com sintomas de ansiedade, baixa autoestima, distorção da autoimagem, sentimentos de insuficiência e principalmente dificuldades de concentração. Muitas pessoas relatam sentir-se improdutivas, feias, solitárias, mesmo levando uma vida que (dentro das condições de cada um) parece estável. O que acontece é uma comparação silenciosa e constante com os "melhores momentos" das vidas alheias, publicados com filtros e legendas cuidadosamente selecionadas.
Já as crianças e adolescentes, com o cérebro ainda em formação, sofrem ainda mais intensamente. Estudos mostram que o uso excessivo das redes nessa faixa etária está associado a aumento de quadros de depressão, automutilação, ansiedade social e distúrbios alimentares. A infância e a adolescência são períodos onde a validação externa pesa muito e os algoritmos sabem bem disso.
A exposição precoce e contínua a conteúdos de sucesso, beleza, fama e consumo reforça a ideia de que "ser amado" depende de performance e isso é perigosíssimo. O medo de estar por fora, de não participar, de não ser visto ou curtido, tem adoecido silenciosamente uma geração inteira.
O mais curioso (e alarmante) é que as redes sociais, ao mesmo tempo que prometem conexão, muitas vezes geram isolamento. Ficamos horas deslizando o dedo para cima, com a sensação de estar atualizados, mas esquecemos como é olhar nos olhos de alguém, ouvir sem distração, ficar presente.
Mas as redes sociais não são vilãs por si só. O problema está em como nos relacionamos com elas. Não é sobre demonizar a tecnologia, mas sim sobre escolher usá-la com consciência, ao invés de ser usados por ela.
Redes sociais podem ser ferramentas incríveis de informação, mobilização e criatividade desde que a gente não delegue a elas o poder de definir nosso valor, nosso tempo e nossas emoções.
Tenho incentivado pacientes (e a mim mesmo) a fazer pausas, silenciar notificações, seguir perfis que inspiram e deixar de seguir os que provocam comparação ou mal-estar. E, principalmente, voltar-se para o mundo real: conversas olho no olho, natureza, silêncio, arte.
Somos humanos antes de sermos perfis. Que a gente não se esqueça disso no próximo scroll.
Dicas práticas para se relacionar melhor com as redes sociais:
1. Estabeleça limites claros de uso:
Use o cronômetro do próprio celular para limitar o tempo em apps. Defina horários sem tela, por exemplo: pela manhã, durante as refeições ou antes de dormir (vale para adultos e adolescentes)
2. Escolha seu feed com consciência:
Siga pessoas e páginas que te inspiram, que oferecem conteúdos reais e saudáveis. Deixe de seguir perfis que provocam gatilhos, comparação, ansiedade ou baixa autoestima. Cuidado com quem vende uma vida perfeita de 15 segundos.
3. Silencie notificações desnecessárias:
Aqueles alertas frequentes ativam a ansiedade e nos mantêm em alerta constante? Silenciar apps diminui a urgência de checar toda hora.
4. Proponha dias ou momentos offline:
Experimente, uma vez por semana, ficar longe das redes sociais por algumas horas ou um dia inteiro. Observe como você se sente nesse período.
5. Desenvolva conexões no mundo real:
Fortaleça vínculos fora das telas: encontros presenciais, chamadas de vídeo reais (não só mensagens), hobbies, caminhadas, arte, leitura.
