Orgulhos Coxinenses
Paulo Carvalho: o homem que ouviu o rio e traduziu a alma de um povo
25 JUL 2025 • POR Glenda Melo • 08h48No coração do Brasil, onde o Rio Taquari canta suas dores e glórias, vive um homem que aprendeu a decifrar a linguagem das águas. Seu nome é Paulo Carvalho, coxinense de raiz, ribeirinho por natureza, militante da cultura por paixão e missão, personalidade forte, que fala o que pensa e se posiciona sem medo.
Nascido na década de 60, em meio aos quintais férteis e aos temores das mães que viam nos rios tanto vida quanto risco, Paulo cresceu entendendo que memória não é apenas aquilo que lembramos é aquilo que resistimos em esquecer. Desde pequeno, escutava o som das águas como quem escuta uma canção antiga, e esse som se tornaria o ritmo da sua caminhada.
Ainda jovem, partiu de Coxim para buscar formação e se encontrou com a arte em Campo Grande, depois em Cuiabá, onde cursou Economia, mas mergulhou mesmo foi na alma dos movimentos culturais que atravessavam os limites do mapa para unir o que os homens insistiam em dividir: Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, um mato só, uma cultura só, uma resistência só.
Foi ao lado do grande Henrique Spengler, amigo e parceiro inseparável, que Paulo ergueu as bases do Movimento Cultural Guaicuru, que não era apenas arte, mas rebeldia contra o apagamento, contra o esquecimento forçado de uma identidade já viva. Juntos, criaram o programa “Coisas da Terra”, na Rádio Vale do Taquari, onde resgatavam a música regional, davam voz aos artistas locais, falavam das dores e das belezas da cultura pantaneira.
Juntos também sonharam e realizaram os FORARTEs – Fóruns de Arte e Cultura de Coxim, encontros vibrantes onde a cultura deixava de ser apenas espetáculo e se tornava instrumento de transformação, de debate, de ocupação dos espaços públicos por ideias e sentimentos.
Mas não pararam aí. Em 1992, levaram o Movimento Guaicuru até a RIO 92, a histórica Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Ali, diante do mundo, Paulo e Henrique levantaram a bandeira do Rio Taquari com o grito: “Nosso Rio, Nosso Maior Orgulho”. Era o braço ecológico do movimento se consolidando,nascia a Unidade Guaicuru de Coxim, semente de tantos projetos, como o parque das nascentes, o consórcio intermunicipal da bacia e políticas públicas de preservação que até hoje ecoam.
Mas Paulo não parou. Não soube parar. Seguiu sendo a ponte entre artistas, professores, ribeirinhos, indígenas, poetas, estudantes e gestores. Sempre acreditando no poder do diálogo, mesmo quando a escuta rareava. Sempre defendendo que a democracia se constrói na paciência dos encontros.
Em 2023, foi eleito delegado para representar Mato Grosso do Sul na IV Conferência Nacional de Cultura, em Brasília. Um reconhecimento à sua trajetória firme, ao seu olhar maduro sobre a importância da escuta da sociedade civil. Paulo, novamente, foi o rio que conduz. O homem que traduz a pluralidade num país que teima em calar suas vozes.
Hoje, é figura indispensável na história cultural de Coxim. Não por vaidade mas por insistência. Pela fé no coletivo, pela crença de que a cultura é o grande instrumento de emancipação de um povo. Um homem que não faz da arte um palco, mas um território. Que não fala “eu”, mas sempre “nós”. Um homem que viu em Zacarias Mourão o espírito da cultura coxinense, e fez questão de reerguer seu nome quando a cidade já quase o havia esquecido. Homenageou-o no rádio, em tributos, e na memória afetiva de um povo que precisava reaprender a amar seus ícones.
Se hoje existe um museu dedicado à história do Henrique Spengler em Coxim, é porque Paulo soube que a memória precisa de casa. De portas abertas. De papel catalogado. De afeto institucionalizado. Ele articulou, doou tempo, coragem, visão. E transformou o acervo de um amigo em patrimônio coletivo.
Mas talvez, o mais bonito de tudo isso seja o que Paulo mesmo diz, com os olhos marejados:
“Quando penso no Henrique, penso como um amigo. Não como um ícone, não como um artista. Mas como um amigo.”
E talvez seja esse o maior símbolo da sua grandeza: Paulo Carvalho não cultiva ídolos. Cultiva afetos. E transforma memórias em sementes.
Hoje, quando o Rio Taquari sofre os efeitos do descaso, das secas e das políticas frágeis, Paulo segue insistindo que a cultura pode salvar. Que a arte pode curar. Que o coletivo pode transformar.
Paulo Carvalho é mais do que um produtor cultural.
É um tradutor do invisível,
um zelador de histórias,
um arquiteto de pontes entre o passado e o amanhã.
Que sua voz continue ecoando,
como o rio que nunca cessa,
como a arte que nunca morre.
