Orgulhos Coxinenses
Vó Biga: a doçura que moldou o sabor de Coxim
11 JUL 2025 • POR Glenda Melo • 08h30Se Coxim tivesse um aroma, ele viria da cozinha de Vó Biga. E se tivesse um coração, seria batido no compasso das colheres de pau que, há décadas, misturam fé, amor, frutas do cerrado e tradição. Dona Benigna Benitt Corrêa, hoje com 76 anos, é dessas mulheres que moldam mais do que doces: ela molda memórias, afetos e a própria identidade de uma cidade.
Casada há 54 anos com o Sr. Nelson Corrêa, Vó Biga é mãe de dois filhos: Nelson Corrêa Júnior e Fábio Alex Corrêa e avó amorosa, devotada à família com a mesma ternura com que prepara seus famosos doces e licores. Reconhecida como uma das melhores doceiras do Mato Grosso do Sul, ela alcançou notoriedade nacional sem nunca deixar de lado a humildade e os valores que a formaram.
Mais do que uma artesã de sabores, Dona Biga é uma guardiãoa da cultura do cerrado, usando frutas típicas como guavira, pequi, goiaba, entre outras, para produzir verdadeiras joias gastronômicas. Sua arte não está apenas nos ingredientes está na paciência com que espera o ponto certo, no cuidado com que rotula cada pote, e na entrega generosa que faz de cada receita, como quem oferece um pedaço da alma.
Mas Vó Biga é também mais que isso. É mulher de fé, com forte atuação na igreja, ativa na comunidade, firme em seus posicionamentos e incansável na luta por uma sociedade mais humana. Mesmo com poucas posses, nunca deixou de ajudar os que a cercam. Seu nome, atrelado com orgulho ao de Coxim, tornou-se símbolo de resistência, bondade e talento genuíno.
Em 2021, foi homenageada com uma moção de reconhecimento pelos serviços prestados à cultura local. Um gesto simbólico, mas profundamente merecido, que celebrou sua contribuição não só como doceira, mas como mulher, cidadã e referência afetiva. A proposta partiu do Forart Fórum de Arte e Cultura de Coxim, com apoio da Funrondon, Fundação Clarice Rondon de Cultura e Lazer, e foi entregue pelo prefeito Edilson Magro, com a presença de lideranças culturais.
Aos 76 anos, Vó Biga segue ativa. Não apenas profissionalmente, mas também como exemplo de vitalidade, coragem e perseverança. É daquelas figuras que nos lembram que a cultura pulsa no quintal, que o verdadeiro patrimônio vive nas mãos de quem trabalha com o coração, e que Coxim tem um rosto: o dela, sereno, forte e doce.
Coxim te agradece, Vó Biga. Por cada pote de doce que carregou o nome da nossa terra. Por cada gesto de fé. Por cada ato de amor. Que seu legado siga adoçando vidas como um carinho que não tem prazo, nem fim.
Cordel da Vó Biga – A Doceira de Coxim
Na beira do fogão aceso,
Com colher de coração,
Mora a força de uma moça
Que virou inspiração.
Seu nome é Dona Benigna,
Mas o povo, com carinho,
Chama ela de Vó Biga,
Orgulho do nosso cantinho.
Setenta e seis primaveras,
Tem no rosto o céu da vida,
Nos cabelos, fios de tempo,
Na voz, sabedoria erguida.
Casada há mais de meio século,
Com seu Nelson, companheiro,
Plantou filhos, frutos, sonhos,
Fez do lar um mundo inteiro.
É doceira de respeito,
Mãos sagradas do cerrado,
Transformando a goiabada
Num presente delicado.
Guavira, pequi e amor
Vão parar no seu tacho,
E quem prova seu licor
Leva Coxim no despacho.
Mas Biga é muito mais
Que receita ou tradição,
É mulher de fé profunda,
De joelhos no chão.
Foi na igreja, na família,
E em todo canto que andou,
Que deixou um pedacinho
Do bem que sempre plantou.
Mesmo com pouca riqueza,
Compartilha sem medida,
Tem bondade como herança
E a doçura como vida.
Se alguém precisa de ajuda,
Ela estende logo a mão,
Pois seu jeito de servir
É lição para o sertão.
Em dois mil e vinte e um,
Veio a justa homenagem,
Uma moção pela cultura,
Pela arte e pela coragem.
O Forart e a Funrondon
Fizeram a indicação,
E o prefeito entregou
Com orgulho e emoção.
Hoje seu nome ecoa
Além da serra e do rio,
Vai nas caixas de doce,
No licor e no pavio
Da memória do seu povo
Que jamais vai te esquecer:
Vó Biga, flor do cerrado,
Nosso doce de viver!
