Logo Diário do Estado

Saúde Mental

Transtorno Bipolar: mais do que altos e baixo

4 JUL 2025 • POR Gessica Oliveira • 09h34

Psicólogo Clínico | CRP 14/07127-2 | @renanmaia.psi
 

É curioso como se escuta tanto que “fulano é bipolar” como se fosse sinônimo de gente imprevisível ou dramática, mas será que sabem o que realmente significa viver com esse diagnóstico? Já foi motivo de sarro, de medo e até tema de música. O termo se popularizou, mas seu real significado continua sendo confundido. Hoje te convido a por fim nessa confusão. 

O TAB — Transtorno Afetivo Bipolar — é uma psicopatologia crônica, que vai muito além de mudanças entre tristeza e alegria. Não se trata de ter dias bons e ruins, como todos temos, mas de viver oscilações intensas que podem durar dias, semanas ou até meses e que moldam o jeito de sentir, pensar e agir. 

Quem convive com esse transtorno pode apresentar períodos que parecem “muito bons”: energia de sobra; humor eufórico; autoconfiança excessiva; fala acelerada; ausência de medo... Pode até parecer bom, mas não é. Junto com isso vem: ideias que se atropelam; irritação explosiva; falta de sono (a pessoa pode passar noites em claro sem sentir cansaço); gastos impulsivos; comportamentos arriscados e decisões que não refletem sua personalidade habitual. Estes mesmos comportamentos podem virar depois motivo de culpa ou arrependimento. Para quem olha de fora, pode parecer só “empolgação demais”, mas é exaustivo e muitas vezes, perigoso.

No outro extremo está a fase depressiva, um mergulho que parece sem fundo. A pessoa perde o gosto pelo que antes era prazeroso e sente uma tristeza profunda, a ponto de ficar sem energia para fazer cuidados básicos (tomar banho, se vestir, comer, levantar da cama). Além disso, é comum haver alterações no sono, no apetite, crises de choro, sensação de inutilidade e em quadros mais graves, pensamentos suicidas.

É por essa complexidade que o Transtorno Bipolar ainda enfrenta tanto preconceito. Quem está de fora não enxerga as lutas internas. Muitas vezes, quem está em uma fase maníaca é visto como irresponsável ou inconsequente; quem está na depressiva, como preguiçoso ou dramático. 

Além disso, as pessoas tendem a julgar e “diagnosticar” precocemente: quando a pessoa apresenta um período de humor deprimido (mais facilmente identificada), a sociedade tende a rotular a pessoa como depressiva. Mas quando o episódio de mania se manifesta (com as características anteriormente mencionadas) o circulo social tende a perder toda a empatia e criar sentimentos de revolta — piora tudo quando o julgamento vem justamente de quem deveria ser rede de apoio.

A boa notícia é que o Transtorno Afetivo Bipolar é tratável, embora seja crônico. O acompanhamento multidisciplinar faz toda a diferença. A base é o tratamento medicamentoso (muitas vezes com estabilizadores de humor), aliado à psicoterapia, que ajuda o paciente a reconhecer gatilhos, compreender fases e criar estratégias de manejo emocional.

Para familiares e amigos: a presença acolhedora faz toda diferença, assim como a vigilância cuidadosa em momentos de risco. Quando há sinais de perigo, como comportamento muito impulsivo ou ideias de morte, buscar ajuda profissional imediata é fundamental. O cuidado deve ser contínuo. Há fases mais tranquilas, mas o acompanhamento precisa ser constante.

Para quem convive ou quer ajudar

• Escute, não julgue.
Frases como “não é pra tanto” ou “todo mundo tem altos e baixos” invalidam o sofrimento real.

• Informe-se.
Conhecer o TAB é fundamental. Além de poder orientar, quanto mais a família entende, menos sofre com as características (não da pessoa), mas da doença.

• Observe sinais de risco.
Mudanças bruscas de humor, gastos descontrolados, fala de desesperança ou isolamento extremo devem ser levados a sério.

• Apoie o tratamento.
Pode ser comum a resistência com o tratamento, mas não deixe de propor e acompanhar. Mesmo nos períodos de estabilidade o tratamento não deve ser interrompido.